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MÚSICA
The Gloaming
 
destaque
© Rich Gilligan (pormenor)VER IMAGENS
SEX 4 DE MARÇO
Grande Auditório
21h30 · Duração: 1h30
15€ · Jovens até aos 30 anos e desempregados: 5€
M6
Em caso de indisponibilidade nos locais habituais, por
favor contacte a bilheteira
da Culturgest através do
telefone 21 790 51 55.
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realworldrecords.com
e dezenas de vídeos no YouTube

From the album at Real World Studios – The Pilgrim's Song

Leia aqui o texto para a folha de sala deste concerto.

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Violino Martin Hayes Voz Iarla Ó Lionáird Hardanger d'Amore Caoimhín Ó Raghallaigh Guitarra Dennis Cahill Piano Thomas Bartlett

The Gloaming é uma banda de músicos virtuosos, com carreiras pessoais de sucesso, que interpreta a música tradicional irlandesa de uma forma nova respeitando com grande fidelidade as suas origens. Às velhas canções emprestam poemas da história da literatura irlandesa. Ao ritmo frenético com que usualmente se toca a música gaélica, substituem um tempo mais lento que faz sobressair toda a beleza e profundidade musical dos temas. Com um enorme sucesso por todo o lado onde atuam, o seu primeiro concerto estava esgotado antes mesmo de o grupo ter começado a ensaiar. Em 2014 lançaram o seu único álbum, recolhendo dezenas de críticas entusiásticas e vários prémios. O CD é maravilhoso. A música que fazem é maravilhosa.

Hayes é um famosíssimo tocador de violino tradicional irlandês, várias vezes campeão no seu país e um dos mais respeitados intérpretes da música folk gaélica. A ele juntou o guitarrista americano de ascendência irlandesa Cahill, com quem colabora desde há muitos anos, Ó Lionáird, um mestre no canto sean-nós ("à maneira antiga"), Ó Raghallaigh, que toca hardanger, o violino tradicional norueguês que se distingue por ter cordas dobradas permitindo um som mais intenso e variado do que o fiddle irlandês, e o pianista americano Bartlett, entusiástico admirador de Hayes desde muito pequeno.

A Culturgest continua a revelar grandes artistas da "música do mundo". Garantimos um concerto fabuloso.

O Teatro Viriato de Viseu, nosso parceiro amigo em vários projetos, associou-se a esta apresentação e os The Gloaming tocam ali um dia depois de virem a Lisboa.

The Gloaming are a highly successful band of virtuoso musicians, each with their own solo career, playing traditional Irish music in a fresh and exciting way. They embellish old songs with poems from the history of Irish Literature, replacing the usual frenzied rhythm with a slower tempo that enhances all the depth and beauty of the music. In 2014, they released their only CD to date, receiving critical acclaim and winning various awards. The Gloaming will be performing at Teatro Viriato de Viseu one day after coming to Lisbon. Culturgest continues to offer you high-quality "world music".

Música tradicional irlandesa
The Gloaming

 

As origens da música tradicional irlandesa perdem-se no tempo. E com o tempo a música foi mudando, os instrumentos usados também, os temas, os tipos de canções. Como acontece às músicas tradicionais em geral, que se transmitem oralmente de geração em geração e acompanham a história do povo que as cria.

Certamente que durante um largo período da história da Irlanda a música tradicional foi dominada pela que trouxeram os invasores Celtas, vindos do leste, influenciados pelo que ouviram nas suas terras de origem e de passagem. A harpa céltica, o instrumento tradicional dominante até ao séc. XVII, terá origens no Egito, dizem. As raízes da música irlandesa reconhecíveis remontam a mais de 2000 anos.

São de finais do séc. XVIII as primeiras recolhas impressas de canções. O que permitiu que a transmissão não fosse só oral, entre as pessoas do campo menos ilustradas, mas também abrangesse a burguesia citadina que a tocava nos seus salões, para divertimento, ou nas suas festas.

Nos últimos dois séculos houve vários períodos de renascimento que alternaram com outros de esquecimento. Por razões políticas, religiosas, sociais. E de emigração. A Irlanda foi um país pobre, devastado por guerras, fomes, doenças, e muitos dos seus habitantes, e com eles muitos dos que mantinham viva a tradição, foram viver para outras paragens.

As comunidades de emigrantes irlandeses nos EUA, em cidades como Nova Iorque, Chicago ou Boston, reuniam-se e tocavam a sua música popular ancestral. Vivendo em país longe do seu, com várias comunidades diferentes, era natural que se juntassem e tocassem e cantassem o que tinham ouvido às gerações dos seus pais e avós.

A música, como a cultura em geral, é um elemento de definição da identidade e da coesão de um povo, como facilmente qualquer um de nós, quando pensa no seu país e em si próprio, se dá conta. Foi nos EUA que se gravaram os primeiros discos desta música. A gravação é um instrumento poderoso de divulgação, como toda a gente sabe. De fixação de canções e de formas de interpretar, de regras e de cânones que antes só diretamente eram transmitidas. As compilações escritas ajudavam, mas a escrita é impotente para transmitir o som.

A mais recente onda revivalista, que acompanha o sucesso mundial que as músicas tradicionais em geral têm desde finais dos anos de 1990, deve-se muito ao êxito de intérpretes como The Chieftains, The Dubliners, The Clancy Brothers, na Irlanda, em Inglaterra e, sobretudo, pela sua dimensão e poder, nos EUA. Esses grupos não surgiram do nada. Seguiram-se a um persistente trabalho de investigação, de prática musical em lugares públicos, como os bares hoje tão afamados, ou nas famílias, de criação de novos temas e canções, de incorporação de outras linguagens musicais.

Artistas como Van Morrison ou Sinéad O'Connor, entre muitos outros, incluem nos seus grandes êxitos elementos da música popular, dando uma contribuição importante para a sua expansão e o seu êxito crescente junto das pessoas.

Hoje em dia a música popular da Irlanda é ouvida em toda a parte.

O instrumento dominante atual da folk music irlandesa é o fiddle. Fisicamente é igual a um violino, e assim o chamaremos daqui para a frente. Mas o som e a maneira de o tocar são muito diferentes do violino clássico. Há estilos e técnicas diversos consoante as regiões, os county (os condados, que reúnem vários municípios, como já aconteceu em Portugal com os distritos – outra palavra usada para traduzir o termo inglês).

A flauta, o pífaro, a gaita-de-foles irlandesa (uilleann pipes), a guitarra, o banjo, o bandolim, a harmónica, o acordeão, são os instrumentos mais utilizados tradicionalmente. São instrumentos de origem rural, que eram fáceis e baratos de construir e são portáteis. Podem-se ter em casa e levá-los para onde os seus tocadores quiserem.

Como é comum nas músicas populares, também na irlandesa há dois tipos dominantes de canções. As baladas, onde se exprimem dor e mágoa, e as canções de festa e celebração que se dançam com alegria. Nas danças é notória a influência de canções de outros povos, por exemplo a valsa, as polcas, as mazurcas…

As danças começam com uma lenta introdução (como sucede muitas vezes com a música klezmer, por exemplo) e depois aceleram. A parte rápida tornou-se mais rápida quando a tradição ressurgiu nos EUA e veio de volta para a Irlanda. É uma das razões porque é tão sedutora para muitos. É difícil resistir ao apelo à dança.

The Gloaming é um grupo que se inclui nesta longa evolução da música tradicional irlandesa e que contribui para que ela prossiga o seu caminho. É indiscutível que a sua música tem profundas raízes na tradição, facilmente detetáveis, a que lhes acrescenta uma componente contemporânea. Já lá iremos.

Comecemos primeiro por contar um bocadinho da história deste supergrupo (é assim por muitos designado).

Martin Hayes é o violinista (usaremos este substantivo para designar o tocador de fiddle) que foi três vezes campeão na Irlanda e é um músico tradicional muito popular no seu país. Nasceu e foi criado no condado de Clare, o maior dos 32 condados da Irlanda, conhecido também por nele se praticar uma das quatro principais formas tradicionais de tocar o violino.

Conta ele: "As coisas começaram porque eu disse a algumas pessoas que estava a pensar formar uma banda. Essas pessoas disseram a outras, que marcaram um concerto no National Concert Hall em Dublin", a principal sala da capital. Ainda o grupo, estando presentes todos os membros, não tinha ensaiado uma nota sequer e já o concerto estava esgotado! Tal é o prestígio de Martin Hayes junto dos seus compatriotas.

A escolha dos músicos que compõem o grupo também tem a sua história.

O jovem pianista americano Thomas Bartlett, cresceu em Vermont e entre os seus amigos da escola estavam dois que se viriam a revelar, um deles compositor, o outro um inovador na música tradicional. Desde muito pequeno que Thomas tinha uma obsessão pela arte de Martin. Numa entrevista disse: "Lembro-me da primeira vez que ouvi Martin tocar. Houve qualquer coisa que aconteceu no meu corpo e que nunca me tinha acontecido, senti como se o meu coração se expandisse e contraísse de acordo com a forma como ele tocava".

"Quando tinha perto de 12 anos" – contou noutra entrevista – "convenci os meus pais a irmos passar umas férias à Irlanda de modo a eu poder acompanhar uma digressão de Martin. Na quarta ou quinta noite ele deve ter começado a pensar quem seria aquele estranho rapazinho sorridente que estava sempre na primeira fila e tomou a iniciativa de se me apresentar. Eu queria imenso que ele viesse a Vermont e por isso, quando voltei para casa, contactei o seu agente".

Martin acrescentou: "Isto deve ter acontecido no princípio do uso do e-mail. Porque foi só quando estava quase no avião que me dei conta: fui contratado para tocar na América por um promotor de 12 anos de idade?". Com a ajuda dos pais de um amigo de Thomas, que tinham influência na cena folk de Vermont, tudo correu bem e todos ficaram satisfeitos.

Thomas, mais tarde, mudou-se para Nova Iorque, onde prossegue a sua carreira, tocando, por exemplo, com David Byrne e Yoko Ono, e mantendo sempre a relação com Martin. Quando este pensou no grupo que queria formar com músicos irlandeses e americanos, claro que não podia faltar o seu admirador de sempre e grande pianista.

O guitarrista Dennis Cahill é amigo, parceiro antigo, de Martin em muitos projetos. Claro que tinha que o chamar. Pensou que um violino só seria pouco para o som que desejava e lembrou-se do jovem Ó Raghallaigh, que dominava o violino tradicional da Noruega, hardganger, que tem o dobro das cordas dos violinos comuns e permite sonoridades diferentes. Assim reforçava a componente das cordas friccionadas que não são abafadas pelo piano e pela guitarra.

Como cantor, Martin escolheu o melhor de todos, também um amigo. O grande mestre do canto tradicional sean-nós ("à maneira antiga"). Como todos os outros, um artista excecional com uma carreira própria e reconhecida.

Ó Lionáird conta que "Martin e eu pertencemos à última geração que aprendeu a música em primeira mão, sentada nos joelhos dos mestres. Mas ao mesmo tempo, nunca pretendemos esconder que ouvíamos outras coisas", como Beatles, Abba, Talking Heads, Patti Smith, Philipp Glass.

Um grupo destes estava longe de ser uma aposta ganha à partida. Era um risco. Podia não resultar e seria um fiasco monumental porque o concerto de apresentação estava marcado e todos os bilhetes vendidos.

Ó Lionáird, quando se juntou pela primeira vez a Martin e Thomas num estúdio em Nova Iorque, nem sequer cantou. Sentou-se e ouviu em silêncio. "Eu estava super impressionado (…) eles faziam com que os temas do violino soassem como se se tratasse de um filme, como se fossem projetados num grande ecrã. Fez-me lembrar a obra de Copland Appalachian Spring, o mundo antigo extasiado perante as paisagens americanas".

Segundo ele, o segredo para que tudo tenha batido certo foi terem sempre mantido uma grande espontaneidade nas coisas. Thomas, pelo seu lado, refere que "talvez The Gloaming se deem tão bem porque eu não reconheço as melodias como o resto da banda as vê. Eles ficam muito felizes por ultrapassar as fronteiras tradicionais, mas o facto de eu nem sequer as conhecer, ajuda a fazê-las desaparecer".

Se há segredo para que estes músicos se tenham entendido e se entendam tão bem, certamente que ele se relacionará com o talento e a sensibilidade de cada um. E aí está o dedo de Martin: acertou nas escolhas que fez e soube liderar o grupo.

O primeiro concerto, em agosto de 2011, o tal que estava esgotado antes mesmo de a banda existir, teve a presença do Primeiro-Ministro da altura, Edna Kenny, e foi um estrondoso sucesso. A coisa começou bem. E melhor continuou, com uma digressão pelo país. A que se seguiram muitas outras pela Irlanda, Inglaterra, França, Holanda, Estados Unidos, etc. Nos teatros, salas de concertos e festivais mais reputados.

O entusiasmo do público que esgota os concertos, o aplauso enorme da crítica, são dois sinais da qualidade do grupo. Ouvi-lo confirma-se o que os sinais anunciam.

Em 2014 saiu o seu primeiro CD, The Gloaming. Revistas da especialidade, em papel ou on-line, e grandes jornais de Inglaterra, Alemanha, Holanda, Bélgica, EUA, entre outros países, não pouparam elogios e quase sempre deram a nota máxima, popularizada com as cinco estrelas da praxe. A lista é grande. Vários consideraram-no o melhor álbum de música popular do ano e quase todos os incluíram nas listas, que se tornaram moda, dos melhores do ano.

Tanto êxito, tanta coincidência de opiniões, poderiam ser suspeitos. Ainda mais porque não se trata de um grupo ortodoxo. Todos estão de acordo com o facto de a música que fazem, com uma grande fidelidade à tradição ser, simultaneamente, muito contemporânea, no sentido em que introduzem sons, estilos, repertório que renovam a tradição respeitando-a.

Pelo que já vimos, a banda usa instrumentos e uma conjunção deles fora das regras. O violino continua a ter um papel fundamental, mas a sonoridade do conjunto é nova, sem fazer uma rutura com o passado. O mesmo que acontece, por exemplo, quando se usa contrabaixo a acompanhar o fado. É um instrumento que não se usava.

Martin: "Não soa como uma banda tradicional. Não soa como devia soar".

Os mais apegados às formas antigas reagem mal às inovações, é sabido. O Lionáird disse que "não estou nada seguro que o meu pai, por exemplo, o meu maior mentor musical, aprovasse a música que fazemos. Mas nesta altura da minha vida senti que tinha que experimentar e fazer música de que o meu pai não gostaria".

Para quem conhece um pouco da música irlandesa de dança que, como já vimos, começa lenta para continuar de forma muito acelerada, vai notar, e provavelmente estranhar ao princípio, que The Gloaming toque as partes rápidas com muito menos velocidade do que é habitual.

Martin acha que tocando mais devagar se revela quão tanta música existe dentro destas canções antigas. Se ouvirem com atenção, certamente que vão concordar com ele. A música revela-se em toda a sua beleza.

Quando estávamos a escrever estas notas, soubemos que o grupo vai lançar em 26 de fevereiro, antes, pois, deste concerto, um novo disco. Mandaram‑nos um vídeo da gravação de uma das canções que logo colocámos no nosso site e no facebook. Uma balada pungente, maravilhosamente cantada, linda, comovente.

É natural que no concerto de hoje incluam canções dos seus dois álbuns. O que existia quando os convidámos para virem a Portugal (o Teatro Viriato, em Viseu, juntou-se a nós; partilhamos ideias e sensibilidade) e o que entretanto construíram e será editado pouco antes do concerto. E, se calhar, outros temas que não gravaram ainda ou que nunca gravarão.

Para nós, tudo o que tocarem é novo. É a primeira vez que vêm a Portugal. E será, estamos convencidos, um concerto de uma beleza inesquecível.

 

Para escrevermos estas notas socorremo-nos de informação que se encontra na internet. Em particular no site do grupo, no da editora Real World Records e no do The Guardian, onde se encontra um texto que seguimos de muito perto, que conta a história do grupo e cita quase todas as afirmações dos músicos que aqui transcrevemos. www.theguardian.com/music/2014/jul/23/the-gloaming-interview.

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