JAZZ
Luís Barrigas
Songs With and Without Words
Ciclo "Jazz +351" · Comissário: Pedro Costa
destaque
SEX 22 SETEMBRO
Pequeno Auditório
21h30 · Duração: 1h
6€ (preço único)
M6
Informações e reservas
Bilheteira Culturgest
21 790 51 55
culturgest.bilheteira@cgd.pt
Ticketline
Reservas e informações:
1820 (24 horas)
Pontos de venda: Agências Abreu, Galeria Comercial Campo Pequeno, Casino Lisboa, C.C. Dolce Vita, El Corte Inglés, Fnac, Megarede, Worten e www.ticketline.sapo.pt
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Piano e composição Luís Barrigas Voz Guida de Palma, Sofia Vitória Saxofones soprano, tenor e clarinete Desidério Lázaro Saxofones alto, tenor, barítono e flauta João Capinha Contrabaixo Mário Franco Bateria Alexandre Alves

Nascido em Setúbal no ano de 1978, Luís Barrigas tem vingado entre uma nova geração de músicos que estão a revitalizar o jazz feito em Portugal. Antigo aluno dos mais importantes pianistas deste género musical entre nós, Mário Laginha e João Paulo Esteves da Silva, teve igualmente oportunidade de estudar com mestres estrangeiros como Myra Melford, John Hersch e John Taylor. Se o seu percurso profissional é ainda curto, ao longo dele teve preciosas colaborações com músicos que vão desde os portugueses Zé Eduardo, Bruno Santos e Nelson Cascais ao argentino Demian Cabaud e ao espanhol Perico Sambeat.

O projeto que mais tem evidenciado as suas capacidades como instrumentista e compositor é o que agora se apresenta na Culturgest. O desafio tem sido pegar no formato canção e verificar como o caracterizaram os modelos clássicos, do jazz e da pop. O resultado é Songs with and without Words, nas vozes experimentadas de Guida Maria e Sofia Vitória, cantoras de jazz que vêm inoculando este de soul, de funk, de bossa nova e de algo mais a que não é estranha a influência do cancioneiro tradicional português. O restante grupo junta duas revelações, o saxofonista e flautista João Capinha e o baterista Alexandre Alves, a um jovem valor já consagrado, Desidério Lázaro (neste contexto acrescentando o clarinete aos seus saxofones) e a um veterano, Mário Franco, contrabaixista que também se movimenta nos circuitos da música antiga. Destes ingredientes sai uma música elegante, colorida e que sabe contar histórias, ninguém conseguindo ser-lhe indiferente.

Born in Setúbal in 1978, pianist Luís Barrigas belongs to the new generation of jazz musicians in Portugal. The project he now brings to Culturgest takes the song format and sees how it has been characterised by the classical models of jazz and pop. The result is Songs with and without Words, elegant, colourful music produced with the help of singers Guida Maria and Sofia Vitória (bringing soul, funk, bossa nova and a hint of traditional Portuguese song), João Capinha (sax, flute), Alexandre Alves (drums), Desidério Lázaro (sax, clarinet) and classically-trained Mário Franco (double bass).

O primeiro passo

 

Songs With and Without Words: o título é o mote. Canções com e sem palavras. Sim, canções. Quando, na sua história, o jazz se sentou, saindo dos salões de dança, e se intelectualizou, complexificando os seus recursos técnicos, enriquecendo o seu vocabulário e, ao mesmo tempo, ganhando uma consciência social, cultural e política, foi-se esquecendo que o seu formato composicional primeiro é o da canção. Era antes e continuou – apesar de tudo – a ser, à semelhança da generalidade das músicas populares. No contexto português, Luís Barrigas é um dos poucos que vieram repor essa condição folky do género musical: «O projecto pega na forma-canção com o intuito da busca melódica, motívica e algumas vezes até programática. Na música, a palavra tem, desde sempre, uma presença muito forte e profunda, independentemente de possuir contornos mais eruditos ou mais pop. Vejo muitas vezes a construção da música como um texto com sons, seja directo ou indirecto o recurso à dita palavra», confessa o pianista a propósito.

Nesse processo evolutivo espalhou-se a noção de que o jazz cantado não é o mesmo do exclusivamente tocado. No grupo de Luís Barrigas, dois saxofonistas combinam-se com duas cantoras, num duplo binarismo que joga ora por oposição, ora por complementaridade, ora pela controlada conflitualidade das simetrias intencionadas. Buscam-se tanto os encontros como os desencontros. «Fascinou-me a ideia de fundir esses dois universos em certo momento do processo de escrita. No início, queria ter um quarteto de saxofones sempre presente e associado à secção rítmica, com o papel das vozes a ser apenas de lead nas canções que tivessem texto. Questões práticas fizeram com que quisesse experimentar algo um pouco diferente, que foi dar às vozes uma função mais de instrumento, tentando reduzir o número de elementos para ter todos os músicos a tocar em simultâneo. A solução é um pouco arriscada, visto que a voz se comporta de forma diferente dos saxofones, mas obtém uma textura que me agrada neste trabalho. Abraçar desafios é algo que me interessa enquanto improvisador e compositor», esclarece o músico de Lisboa.

Significa esta perspectiva que, entre as "songs with words" com canto convencional e as "songs without words" com as vozes a agirem como instrumentos de sopro, há uma zona dúbia e intermédia, aquela proporcionada por um tratamento da instrumentação que é, já por si, cantabile. É aí que está a essência de "Songs With and Without Words". Diz Luís Barrigas: «É nessa dimensão que reside a minha visão da harmonia na música. Componho o que canto e isso acontece com todos os instrumentos, e designadamente os dois sopros da família das madeiras. Penso de forma coral. Cada um dos meus parceiros é, para mim, uma "voz". São todos cantores que interpretam melodias. Ainda que tenham características diferentes, considero que todas as pessoas escolhidas para o grupo são cantores, e é enquanto tal que podem manter as histórias que procuro contar. A autonomia de cada um depende das suas experiências e das suas particularidades individuais. Se os saxofones improvisam mais é porque aquilo que podem dar à música está de acordo com as suas vozes pessoais e é assim que faz sentido. As vozes propriamente ditas improvisam menos por escolha minha e por desejar mais o seu lado de intérpretes.»

O carácter narrativo das peças tocadas deriva desta condição e também as partes instrumentais procuram contar histórias. Sem uniformizações: «As palavras estão patentes em todos os momentos da música. Quando escrevo, podem ser somente a descrição oral de uma imagem e podem aparecer tanto no início como no meio ou até no fim da acção. No improviso surgem como um certo tipo de canto, assumindo várias línguas ou vários meios de comunicação. O resultado é um discurso que assume diferentes formas, mais ou menos abstractas.» Aliás, nenhum modelo único poderia emergir de uma abordagem que não assenta apenas na tradição vocal do jazz, mergulhando igualmente na soul, no funk, na pop, na bossa nova, na música popular portuguesa e até na música que designamos como "clássica".

«Esta visão alargada foi-me proporcionada pelo meu próprio trajecto enquanto músico. Comecei com o pop-rock, com alguma música folk e com os cantautores portugueses. Só no início da adolescência é que a improvisação ganhou relevo na minha vida musical. Ao tentar fazê-lo no piano, senti a necessidade de incluir vários estilos e daí a minha abertura para tanta música diferente. Foi nessa fase que comecei a ouvir muita música erudita de diferentes períodos... No jazz podemos fazer isso - juntar várias estéticas e improvisar sobre elas. E no canto jazz podemos encontrar todas essas coisas, desde o erudito ao funk, à soul, à bossa e à folk. As misturas agradam-me, como sempre agradaram ao jazz, em geral», argumenta Luís Barrigas.

A inclusão no septeto de um elemento que tem um percurso paralelo na música antiga, Mário Franco, não é, pois, uma mera coincidência: «O Mário é um contrabaixista muito versátil e trabalha desde sempre em várias frentes musicais, o que lhe permite contribuir de diversas maneiras para a minha música. Por vezes, há aspectos no que escrevo relacionados com a música erudita, seja a nível técnico como estético. Ele tem uma boa relação com o contrabaixo e isso reflete-se na sua maneira de tocar. Tira um som do instrumento como oiço em pouca gente, e toca muito bem com arco, além do pizzicato. É um excelente improvisador, supermelódico, e entendemo-nos muito bem sem precisarmos de verbalizar.»

Mário Franco é um dos veteranos do jazz português nesta formação que junta músicos da nova geração, como João Capinha e Alexandre Alves, a outros mais rodados, como é o caso de Guida de Palma. «A música (e a arte em geral) cruza desde sempre diferentes gerações. Penso que se torna essencial cruzarmos experiências de diferentes tempos. Essa mistura resulta normalmente em algo de produtivo e fresco. Quando somos novos tendemos a ser mais inquietos e gostamos de provocar, enquanto os chamados veteranos nos fazem pôr os pés descalços na terra ou, quando voamos, mostram-nos como aterrar de forma suave e com classe», explica Barrigas.

Um lugar muito especial no grupo tem Desidério Lázaro, um saxofonista já consagrado apesar da sua pouca idade: «O Desidério é a pessoa que me conhece há mais tempo, já lá vão 17 anos... Começámos a tocar música improvisada juntos. Ele chamou-me para tocar piano num combo de standards numa altura muito importante da minha aprendizagem. Estava então a ter aulas de piano e composição jazz com Mário Laginha e estudava também composição clássica com Cristopher Bochman. Ele frequentava a escola do Hot Clube. Nesta efervescência de universos fazíamos sessões diárias com um quinteto e tocávamos com alguma regularidade. Experimentámos muita coisa. Entretanto, ele partiu para a Holanda e eu fiquei por cá. Quando voltou, decidi chamá-lo para tocar no meu disco "2:30", gravado em 2010. Agora voltei a convidá-lo, pois sabia que traria muita coisa boa para a música. A função particular dele deve-se à relação de amizade que temos e coincide, obviamente, com o facto de ser um músico incrível.»

Uma particularidade da dupla formada por Desidério Lázaro e João Capinha é o multi-instrumentismo, cobrindo a gama de saxofones do soprano ao barítono e incluindo o clarinete e a flauta. Este pormenor anuncia desde logo uma atenção especial ao factor timbre: «Escrevi mais para este do que para o meu disco anterior. Tive de fazer arranjos para quatro vozes e isso "fechou" alguns aspectos, contrariamente ao que me é habitual, pois gosto de dar bastante liberdade e de ter liberdade. Mas sim, gosto da exploração tímbrica. Neste âmbito tenho, no entanto, alguma contenção, visto que se trata de canções e eu quero mantê-las simples. Algumas vezes encontrei caminhos que se cruzaram com o que escutei de compositores como Frederic Mompou, Olivier Messiaen, Paul Hindemith, Maurice Ravel e Claude Debussy. Sobretudo, muita música para quarteto de cordas e canções para piano e voz, em especial de Messiaen e Mompou. Todos eles me influenciam. O que tentei foi fundir as duas vozes com os dois saxofones, funcionando o todo como um quarteto de cordas ou como um coro. É essa a lógica da minha exploração de timbres…»

Mais especificamente: «Há peças em que as vozes funcionam apenas como um coro sem palavras, como por exemplo, no "Daphnis e Cloé" de Ravel, ou que têm um cunho mais impressionista. Existem outras em que funcionam as quatro vozes em bloco como um Coral SATB, com harmonia tradicional. Noutras alturas, decidi cruzar dissonâncias com um certo pontilhismo. De tal modo que os instrumentos se fazem notar pelas suas pequenas melodias, reflectindo uma forma tridimensional de ver a música. Em suma, o timbre e a pesquisa das suas possíveis combinações interessam-me imenso. É, inclusive, algo que gostava de aprofundar e, quem sabe, poderei mesmo vir a gravar um disco mais livre e contemporâneo com esse objectivo. Para já, coloquei-me alguns limites.»

Os jogos de vozes e sopros de "Songs With and Without Words" eclipsam um pouco o desempenho pianístico de Luís Barrigas, ainda que aqui e ali o mesmo surja a solar, mas também por este lado se anunciam mudanças para o futuro. «É uma opção consciente que a minha presença ao piano esteja ao serviço da música. Quis objectivamente que assim fosse. Neste projecto ainda mais, apesar de ter escrito todas as canções ao piano e de várias delas servirem igualmente como peças de piano solo. Guardarei esse destaque para o próximo disco em trio ou quarteto», promete. Ou seja, esta fórmula simplificada de entender a canção poderá transformar-se noutra com mais intrincações. Melhor: essa transformação vem já implicada, está a acontecer. Este parece ser o primeiro, mas fundamental (o mais fundamental de todos os que se derem), passo para as "songs within and in between words" que virão a seguir… Enquanto não chegarem, comecemos pelo princípio. Daqui a uns anos, podemos até descobrir que o fim, o resultado deste périplo, está aqui e agora. Não defendeu Wittgenstein a noção de que a eternidade só se pode viver no presente?

 

Rui Eduardo Paes

(ensaísta, crítico de música, editor da revista online jazz.pt)

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