Derivas 18 de Dezembro de 2006
por Augusto M. Seabra

Comemorações, reiterações e profanações

Robert Altman
(I) Uma apreciação
11/12/2006

Robert Altman
(II) O olhar sobre a política
11/12/2006

Comemorações, reiterações
e profanações
18/12/2006

Peter Sellars e o projecto “New Crowned Hope” – evocar Mozart de outra maneira
18/12/2006

Pollicino
e a singularidade de Henze
26/12/2006

Uma nomeação na ópera
03/01/2007

A República
e o Paradigma do Príncipe
03/01/2007

Méritos públicos
e imperativos políticos
03/01/2007

In memoriam Galina Ustvolskaia
08/01/2007

A voz de Medeia
15/01/2007

De quem são as obral afinal?
22/01/2007

A modernidade em downloads
29/01/2007

A Escala dos Museus
05/02/2007

Apple e Apple (downloads II)
12/02/2007

Na noite de Hölderlin
19/02/2007

A Ópera e os seus fantasmas
26/02/2007

Na babel dos Óscares
05/03/2007

Found-footage
12/03/2007

A obra de arte na era da sua mutabilidade técnica
19/03/2007

São Carlos,
os anos Pinamonti (I)
27/03/2007

São Carlos,
os anos Pinamonti (II)
27/03/2007

Mr. Ornette Coleman, Prémio Pulitzer de Música 2007 (I)
26/04/2007

Mr. Ornette Coleman, Prémio Pulitzer de Música 2007 (II)
02/05/2007

Tempo e rito
28/11/2007

Rock 2007:
o ano das re/uniões (I)
02/01/2008

Rock 2007:
o ano das re/uniões (II)
02/01/2008

2006 está em vias de conclusão. E em termos “culturais”, mais exactamente em termos do impacto público de programações e edições, com as suas decisivas amplificações mediáticas, 2006 foi um “ano Mozart” (250 anos do nascimento) e um “ano Chostakovich” (centenário do nascimento), bem como, em termos nacionais, um “ano Lopes-Graça” (centenário do nascimento também), ou até, de modo mais discreto mas não deixando de ser assinalado, um “ano Schumann” (150 anos da morte), ainda tendo havido quem notasse que era também um “ano Marin Marais” (350 anos do nascimento).

Pois que todos estes exemplos são musicais, da tradição erudita ocidental, eles não deixam desde logo de suscitar uma questão fulcral, a de como neste concreto campo cultural o “cânone ocidental” é marcadamente passadista, a presença constante e massiva do património herdado tendo sido reiterada no último século pela modernidade dos meios tecnológicos, pelo estatuto de consumo que é o da depauperação da “obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica”, para retomar os termos conhecidos de Walter Benjamin – em A Century of Recorded Music: Listening to Musical History (Yale University Press); ainda que o estudo incida em especial sobre a música britânica, Timothy Day analisou como o advento do disco alterou radicalmente a percepção pública da “música clássica”.

Já não era suficiente que o peso na programação e na edição discográfica fosse esmagadoramente da ordem de uma reinterpretação do passado e que essa seja em termos das práticas de recepção sobretudo de consumo corrente; já não era suficiente a situação, tristemente inédita neste campo cultural comparativamente aos outros, que a recepção crítica ainda mais reitere o cânone e exclua até à quase invisibilidade a criação recente, um dado que é aliás flagrante nos media em Portugal. Para além de tudo isso, há a implícita imposição social das práticas celebrativas, mormente das mais reiteradoras, com menor presença dos casos em que o pretexto comemorativo possa ser efectiva possibilidade de um maior destaque a certos autores menos evidenciados, ou até de uma mais desenvolvida problematização daqueles mesmos que já são mais ou menos da ordem do consumo corrente.

Mas mais: em casos como o de 2006 as instituições programadoras ficam duplamente condicionadas. Ficam condicionadas em associarem as diversas celebrações – por exemplo, em Portugal, Schumann/Chostakovich ou Mozart/Chostakovich/Lopes-Graça, sendo que curiosamente a directa e exclusiva associação Chostakovich/Lopes-Graça, aquela que era a todos os títulos pertinente, mas que também suscitava questões político-estéticas mais incómodas (como a comum condenação “jdanovista” de “formalismo”, sendo que no caso de Graça essa foi directamente formulada por Álvaro Cunhal, sob o pseudónimo de António Vale), é que não foi organizada por entidade alguma. Ficam condicionadas, ou preferem organizar eventos concentrados de maiores possibilidades de repercussão mediática – e assim se viu por exemplo o ciclo Chostakovich organizado pelo novo presidente-director-programador do Centro Cultural de Belém, António Mega Ferreira, ser saudado na imprensa como a ocasião em que, depois de tanto se ter escrito, se iria enfim ter a concreta oportunidade de ouvir a música do mestre russo, quando ao longo de duas temporadas a Casa da Música vinha apresentando a integral dos Quartetos pelos intérpretes máximos, os Borodine, e a integral das Sinfonias pela Orquestra Nacional do Porto – este de resto e por si só, em termos do muito deficiente tecido das formações sinfónicas portuguesas, o mais relevante acontecimento desde que em 1972/74 a então Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional enfim realizou a integral mahleriana.

Mas mais latamente, para além do campo das práticas musicais, este signo celebrativo é um dos mais fortes índices dos níveis de um paroxismo, o do primado patrimonial na cultural contemporânea.

Há 25 anos, num livro fundamental, A Política do Património (Campo das Letras, 2003, com prefácio inédito do autor para a edição portuguesa), escrevia Marc Guillaume: “É só na época moderna, sob o efeito convergente de múltiplos factores, que aparece no Ocidente um tipo de conservação completamente diferente, a conservação patrimonial. Esta conservação patrimonial, na qual os objectos de sutura se diluem até perderem a sua especificidade, atesta a rejeição de um modo simbólico de presença do passado no presente. Os mortos já não assombram com a sua presença invisível o mundo dos vivos. A conservação, a memória histórica já não se inscrevem num registo simbólico mas numa heterologia – um saber sobre o outro, que faz parte do paradigma moderno de ver o saber. Uma vez que nada mais de transcendente se esconde por detrás da aparência, são os artefactos materiais, visíveis, legíveis, que importa conservar. (...) Este corte que separa a idade moderna – a primeira a escolher a valorização do tempo e da mudança como emblema – das sociedades simbólicas é, pois, fortemente desenhado pelo contraste das práticas de conservação (e de memória). Ele é ainda reforçado pelo jogo da obsolescência e da destruição que o desenvolvimento industrial implica. Aos fluxos rápidos de degradação e de desaparecimento das mercadorias, das construções e das paisagens (para dar lugar, nos processos de consumo e de produção, a outros objectos e outras infra-estruturas), respondem as políticas patrimoniais, que vão deixando inúmeros restos sedimentarem-se numa constelação de museus e de espaços preservados”.

Quase em finais de 2006 surge-nos também em edição portuguesa, na Cotovia, um livro particularmente iluminante (no pleno sentido “benjaminiano” do termo), Profanações de Giorgio Agamben. Prossiga-se a reflexão: “Se, hoje em dia, os consumidores, na sociedade massificada, são infelizes, não é apenas porque consomem objectos que incorporam em si a própria impossibilidade de uso, mas também, e sobretudo, porque pensam exercer o seu direito de propriedade sobre aqueles objectos, por se terem tornado incapazes de os profanar. A impossibilidade de os usar atinge o seu auge no Museu [e não serão estes rituais comemorativos musicais a apoteose intimidante de um Museu?]. A musealização do mundo é hoje um dado adquirido. Uma após a outra, progressivamente, as potências espirituais que definiam a vida dos homens – a arte, a religião, a filosofia, a ideia de natureza, a política, até – retiraram-se para o Museu. Museu não significa aqui um lugar ou um espaço físico determinado, mas a dimensão separada para a qual se transfere aquilo que, em tempos, era sentido como verdadeiro e decisivo e, agora, já não o é. O Museu pode coincidir, neste sentido, com uma cidade inteira (Évora, Veneza, declaradas património mundial), com uma região (declarada parque ou oásis natural) e inclusivamente, com um grupo de indivíduos (enquanto representantes de uma forma de vida desaparecida). Mas, mais geralmente, tudo hoje se pode tornar Museu, porque este termo designa simplesmente a exposição de uma impossibilidade de usar, de habitar, de experimentar”.

“Genius” é o título do texto que abre Profanações. “Genium suum defraudare, defraudar o próprio génio [de genetlíaco, do que para os latinos era Genius, “o deus a cuja protecção cada homem é confiado no momento em que nasce”], significa em latim: tornar triste a própria vida, enganar-se a si mesmo. E genialis, genial, é a vida que afasta o olhar da morte e responde, sem hesitar, ao desafio do génio que o gerou”. Génio de Mozart, certamente, de quem se disse amado de deus, Gottlieb, Amadeus, génio de Schumann, até para além do limiar entre a vida e uma outra existência, génio de Chostakovich, que tantas vezes conviveu com fantasmas de mortos. Mas génios para além de comemorações, reiterações, museificações.

Ironias de 2006: uma encenação do Idomeneo de Mozart foi retirado da programação da Deutsches Oper de Berlim por receio de ataque de fundamentalistas islâmicos, Balda, um bailado de Chostakovich segundo um conto de Puchkine foi retirado da programação da Ópera de Syktyvkar, no Norte da Rússia, após as imprecações da Igreja Ortodoxa. Foram casos graves de violação das liberdades fundamentais, e a primeira levantou mesmo, justamente, uma onda internacional de protestos. Mas que, ironicamente, por portas travessas, por via indirecta no primeiro caso, directa no segundo, não deixam de nos recordar que, para além da indigestão e da intimidação celebrativas, obras de Mozart e Chostakovich mantêm um potencial de profanar, de serem sacrílegas, atentatórias de deuses, religiões, ou ordens vigentes, e de assim serem objecto do livro uso e gozo dos homens.