Derivas 26 de Dezembro de 2006
por Augusto M. Seabra

Pollicino e a singularidade de Henze

Robert Altman
(I) Uma apreciação
11/12/2006


Robert Altman
(II) O olhar sobre a política

11/12/2006

Comemorações, reiterações
e profanações

18/12/2006

Peter Sellars e o projecto “New Crowned Hope” – evocar Mozart de outra maneira
18/12/2006

Pollicino
e a singularidade de Henze
26/12/2006

Uma nomeação na ópera
03/01/2007

A República
e o Paradigma do Príncipe

03/01/2007

Méritos públicos
e imperativos políticos

03/01/2007

In memoriam Galina Ustvolskaia
08/01/2007

A voz de Medeia
15/01/2007

De quem são as obral afinal?
22/01/2007

A modernidade em downloads
29/01/2007


A Escala dos Museus
05/02/2007


Apple e Apple (downloads II)
12/02/2007


Na noite de Hölderlin
19/02/2007


A Ópera e os seus fantasmas
26/02/2007


Pollicino, ora em cena na Culturgest, é a terceira ópera de Hans Werner Henze (nascido em 1928) apresentada em Portugal, depois de Elegia para Jovens Amantes, no São Carlos em 1975, e de The English Cat, uma co-produção do Teatro da Cornucópia com o São Carlos e a Culturporto/Rivoli (entidade ora lamentavelmente já saudosa) em 2000. São “apenas” três das dezassete óperas do autor, número substantivo de uma produtividade e uma dedicação ao género que se diria mesmo inaudita num compositor contemporâneo, e nesse sentido logo se constitui como um dos traços mais marcantes do estatuto singular de Henze, solitário mesmo.
São também três óperas indicativas de aspectos mais particulares dessa singularidade. Elegia para Jovens Amantes, a mais bela das óperas de Henze, com libreto de Auden e Kalman, tem uma dedicatória: “Esta obra é dedicada pelos seus três autores agradecidos, Wystan H. Auden, Chester Kallman, Hans Werner Henze, à memória de Hugo von Hofmansthal, Austríaco, Europeu e Mestre Libretrista”. A personagem principal da ópera, o poeta Gregor Mittenhofer, é uma amálgama de traços de Hofmannsthal, Rilke, Yeats ou Stefan George, tardio representante dessa noção central da cultura romântica do artista como herói ou criatura prometaica, enfrentando o dilema da perfeição da obra ou da perfeição da vida. A dedicatória a Hofmannsthal é um indício de uma filiação directa na tradição da ópera e a trama narrativa prolonga a interrogação sobre a inscrição pública e social do “artista-criador”.
Em contraste com a gravidade dessa ópera, A Gata Inglesa e Pollicino são obras que se diriam “fáceis”, mais de comentário social a primeira, não isenta de paralelismos com O Triunfo dos Porcos de Orwell, mais explicitamente infantil a segunda.
Mas o acentuado contraste não supõe contradição, antes pelo contrário: numa faceta ou noutra reencontram-se as preocupações sociais, políticas ou de relacionamento com uma comunidade de Henze, características que afinal lhe ditaram o estatuto singular e mesmo solitário, até “proscrito” pela vanguarda de Darmstadt a partir de meados dos anos 50 – isto depois de Henze haver sido no imediato pós-guerra um dos primeiros a retomar a via do dodecafonismo schöenberguiano, Boulevard Solitude (1950), moderna adaptação da história de Manon e Des Grieux, tendo mesmo sido a primeira ópera dodecafónica depois da Lulu de Alban Berg.
Num notável documentário editado em dvd que lhe é dedicado, Memoirs of An Outsider, recorda Henze que a ruptura se tornou total quando Boulez, Stockhausen e Nono abandonaram a sala durante a estreia de Nachtstücke und Gesänge no Festival de Donaueschingen de 1957 – o que poderemos tentar historicamente entender pela intransigência desses anos, mas não deixa de ser irónico, pois essa até é uma das suas mais belas obras. Memoirs of an Outsider é, aliás, o retrato de uma personalidade complexa, “gay”, liberal, crescido durante o nazismo, como logo o apresenta Simon Rattle, politicamente muito empenhado à esquerda (e boa parte da sua notoriedade também lhe vem daí), mas “excluído” e tido por conservador por aqueles artisticamente mais radicais sobre quem de resto, sobre a recusa de novos líderes e sistemas, diz palavras a ponderar devidamente.
Com esse posicionamento político explícito, e nalguns momentos mesmo declaradamente “militante”, coexiste na produção de Henze um grande ecletismo – que lhe marca também os limites da “originalidade” em termos propriamente da matéria musical –, abordando os mais variados géneros, e géneros até tidos por “obsoletos”, como, além da ópera, as sinfonias (dez à data) e até a música para bailado, bem como outros mais “ligeiros” ou de algum modo “mistos”, casos do “vaudeville” La Cubana ou de El Cimarrón, um monodrama sobre estratos da biografia de um escravo cubano foragido, são alguns exemplos desta tendência. Receptivo a encomendas, sem preocupações pela abordagem do que possam ser entendidos como “trabalhos menores”, Henze escreveu também música para cinema, como as duas notáveis colaborações com Alain Resnais, Muriel, ou le temp d’un retour e L’Amour à Mort , ou ainda O Jovem Törless, A Honra Perdida de Katharina Blum e Um Amor de Swann, todos de Völker Schlöndorff e Ninguém Duas Vezes de Jorge Silva Melo.
Adaptado de Collodio, o mesmo autor de Pinóquio, Pollicino/Polegarzinho, foi também motivado por uma circunstância directa: escrever uma ópera para as crianças de Montepulciano, na Toscânia, onde o autor dirige uma academia musical (há muito que Henze reside em Itália). Mas o gosto da fábula é recorrente no compositor. A citada A Gata Inglesa será aliás outro exemplo, como duas óperas “maiores” (no sentido de convocarem em pleno as dimensões e possibilidades do dispositivo operático), O Rei Cervo segundo Gozzi e a recente L’Upupa, fábula orientalizante e mozartiana, estreada no festival de Salzburgo de 2003 e, segundo o autor, a sua última ópera (quer L’Upupa, quer outra ópera, e das mais salientes, O Príncipe de Homburgo, segundo Kleist, com libreto de Ingeborg Bachman, estão disponíveis em dvd).
“Pensei que em Montepulciano seria possível demonstrar que a música não é abstracta e inútil, que não é apenas um modo de passar o tempo, e que poderia alcançar algo ainda mais do que simplesmente ‘elevar a moral’ como Stravinsky disse uma vez. A minha esperança foi a de que a música pudesse incrementar o nível económico e social de uma comunidade e contribuir para fazer da cidade um local mais alegre e animado para os residentes e os visitantes”, tinha ele escrito. Pollicino é uma obra didáctica e também socialmente programática, em concordância com um mais genérico propósito de “didactismo” em Henze, numa filiação que procede de Brecht, Eisler e Dessau.
Pollicino não é pois apenas um objecto estritamente circunstancial, e no caso feliz. De um outro modo, retoma o dilema do Mittenhofer de Elegia para Jovens Amantes: a perfeição da obra ou a perfeição da vida, ou tão só a obra e a vida – ou talvez, para ser exacto, “a vivência”.
Compositor extremamente prolífero, com frequência de propensão retórica também, Hans Werner Henze é um autor por certo muito desigual. Mas a sua aspiração de liberdade não se compadece com classificações simplistas, como “passadista” ou “neo-clássico”, por alguma pertinência que também tenham. Uma tal aspiração de liberdade, mesmo quando esteticamente se desvaneceu no imediatismo político de um ou outro gesto, é a marca de uma vida, e com essa de uma experiência histórica, de recusa de dogmatismos.
Pollicino não é assim tão só uma circunstancial “ópera infantil”, mas um outro exemplo de uma questão central a Henze: para quem, porquê, escreve hoje um compositor? É questão importante que baste para reter a singularidade da trajectória criativa de Henze, mesmo optando por vias estéticas de todo diferentes das de Hans Werner Henze.