Derivas 11 de Dezembro de 2006
por Augusto M. Seabra

Robert Altman
(II) O olhar sobre a política

Robert Altman
(I) Uma apreciação
11/12/2006

Robert Altman
(II) O olhar sobre a política
11/12/2006

Comemorações, reiterações
e profanações
18/12/2006

Peter Sellars e o projecto “New Crowned Hope” – evocar Mozart de outra maneira
18/12/2006

Pollicino
e a singularidade de Henze
26/12/2006

Uma nomeação na ópera
03/01/2007

A República
e o Paradigma do Príncipe
03/01/2007

Méritos públicos
e imperativos políticos
03/01/2007

In memoriam Galina Ustvolskaia
08/01/2007

A voz de Medeia
15/01/2007

De quem são as obral afinal?
22/01/2007

A modernidade em downloads
29/01/2007

A Escala dos Museus
05/02/2007

Apple e Apple (downloads II)
12/02/2007

Na noite de Hölderlin
19/02/2007

A Ópera e os seus fantasmas
26/02/2007

Na babel dos Óscares
05/03/2007

Found-footage
12/03/2007

A obra de arte na era da sua mutabilidade técnica
19/03/2007

São Carlos,
os anos Pinamonti (I)
27/03/2007

São Carlos,
os anos Pinamonti (II)
27/03/2007

Mr. Ornette Coleman, Prémio Pulitzer de Música 2007 (I)
26/04/2007

Mr. Ornette Coleman, Prémio Pulitzer de Música 2007 (II)
02/05/2007

Tempo e rito
28/11/2007

Rock 2007:
o ano das re/uniões (I)
02/01/2008

Rock 2007:
o ano das re/uniões (II)
02/01/2008

Há um outro aspecto do percurso de Robert Altman que a sua obscura travessia dos anos 80 deixou um pouco na penumbra, para não dizer mesmo bastante, aspecto que se me afigura dos mais importantes; digamos que é o do Altman mais directamente político.

Em 1984, no seu período mais obscuro, em que esteve praticamente confinado a versões filmadas de espectáculos teatrais, depois de Volta Jimmy Dean e Streamers e antes de Fool for Love, Altman realizou Secret Honour, uma peça de Donald Freed e Arthur M. Stone. Acrescente-se que outro dos títulos pelos quais o filme ficou conhecido é The Last Testament of Richard M. Nixon, personagem única – e haverá algo mais nos antípodas do poli-retratista Altman que um filme de uma só personagem? Anos depois, um novo e importante realizador, P.T. Anderson, diria que foi por ter visto Philip Baker Hall nesse filme que o quis fazer um “seu” actor. A intensa presença de Hall e o vertiginoso fluxo das palavras, e da palavra de um político caído em “desonra” após o Watergate, e que face à câmara e ao auditório imaginário apresenta as suas razões e defesa, fazem de Secret Honour, obra certamente a descobrir ou redescobrir (já que a sua difusão foi pouco mais que “confidencial”), um filme único em que a verdadeira matéria é a política enquanto verbo ou mesmo verborreia na espiral e ambição do poder.

Mas houve ainda outro caso, até de maior relevo e que, pensando bem, antecipou muita coisa – do cinema, da comédia, e da política. Foi Tanner 88, mini-série de Altman e do famoso “cartoonista” Garry Trudeau (o de Doonesbury), feita para a HBO durante a campanha presidencial desse ano, mais exactamente durante os primeiros traços das “primárias” dos democratas, e da qual se fez também um “condensado”, um telefilme.

“Mockumentary” é um termo que vai entrando nos usos e basta olhar para a actualidade : Borat ou, por extenso, Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan, é um “mockumentary”, que congrega os dispositivos da comédia,de “apanhados” televisivos e do documentário, mais precisamente do falso documentário ou “mockumentary”, já que a personagem de Sacha Barat Cohen faz o que poderia ser entendido como uma reportagem ou observação documental. Será o caso mais vistoso e certamente lucrativo, mas está longe de ser único. Há uns meses atrás estreou em França Dans la Peau de Jacques Chirac, filme de Karl Zero, um dos criadores dos famosos “Guignols de L’Info” (com o britânico “Spitting Image” um dos modelos da “Contra-Informação”), montagem de material de arquivo com Chirac, portanto de imagens “reais”, contudo com uma derrisória “voz off” que seria “a voz da consciência”, “dans la peau”, de Jacques Chirac.

São estes apenas exemplos do florescimento de um subgénero cinematográfico que por colocar sérias e graves questões não pode ser simplesmente objecto de desconsideração. Acontece que tomando-o como um subgénero, o “mockumentary” tem até origens ilustres se considerarmos como primeiro exemplo Zelig de Woody Allen (1983), em que as presenças e os sérios comentários de personalidades como Susan Sontag, Saul Bellow ou Bruno Bettelheim, conferiam o suplemento de “veracidade” à mais camaleónica das ficções, narrativamente em modo documental. Se todavia há a falar, em terreno tão movediço, em algo como uma codificação, ou uma aproximação a tal, isso aconteceu com o “rockumentary” de Rob Reiner This Is The Spinal Tap, em que o actor, na sua primeira realização cinematográfica, se apresentava ele próprio como um realizador que se tinha dedicado a uma banda rock... que nunca existiu.

E que tem isto a ver com Altman e Tanner? Michael Tanner é uma personagem ficcional, mas o telefilme (ou série), se não é “documental” no estrito senso de “real”, também não se poderá dizer tão só que é “ficcional” – é um objecto factício, em que uma personagem e o seu círculo, inventados mas plausíveis, evoluem no quadro real da campanha eleitoral das primárias democráticas. O suposto candidato Michael Tanner chega mesmo a encontrar-se com efectivos candidatos a essa nomeação democrática de 1988, como Bruce Babbitt e Gary Hart. E é de certo modo perturbante pensar que esta obra “factícia”, e nesse sentido também híbrida, tem o seu lugar entre dois paradigmáticos documentários, Primary de Robert Drew, sobre a disputa de Kennedy e Hubert Humphrey em 1960 no Wisconsin, e The War Room de Chris Hegedus e D.A. Pennebaker, todo ele centrado no posto de comando da campanha de Bill Clinton em 1992, sem que o candidato alguma vez apareça, as “vedetas” sendo os seus estrategas James Carville e George Stephanopoulos.

Tanner 88 é uma obra raramente lembrada, talvez também por contrastar tanto com a exuberância que para o melhor, e quantas vezes para o pior, distinguia Altman. Poucos foram os artistas que, como agora sucedeu com ele, foram alvo de tantas homenagens na imprensa americana no momento da sua morte. Todavia, que eu tenha lido, Tanner 88 ficou quase por completo esquecido nos elogios, apenas com uma excepção, ainda que de vulto: o crítico do New York Times A.O. Scott referiu, a propósito, que nesse período obscuro para Altman que foram os anos 80, ele “fez quase sub-repticiamente uma obra-prima”, e que “a premonição” dessa série “era assombrosa: parecia antecipar quer a ascensão de Bill Clinton quer a voga corrente de inserir na ficção técnicas documentais”.

Eu próprio só agora me dei conta que em 2004, durante a Convenção Democrática em Nova Iorque, Altman e Garry Trudeau tinham feito novo telefilme, Tanner on Tanner, retomando a personagem do suposto candidato e da sua filha Alex (uma Cynthia Nixon entretanto celebrizada por O Sexo e a Cidade), esta tornada na cineasta que faz o filme sobre a convenção e um conjunto de participantes que, de algum modo, se tornavam assim parte da galáxia “tanneriana”, e se chamam Bill Clinton, John Kerry, Howard Dean, Barak Obama, etc.

Num dos mais surpreendentes e devastadores momentos de comédia dos últimos tempos, e um dos mais paradigmáticos indicadores dos níveis derrisórios que atingiu a presente administração americana como patético show ou “política-espectáculo” um comediante do Daily Show, Stephen Colbert, parodiou Bush, junto ao próprio, no jantar anual com os correspondentes na Casa Branca: Nesse momento, há uns meses atrás, constatei como Tanner me continuava presente e o estatuto premonitório, como a ficção que elucida o olhar sobre o real.

Robert Altman ficará certamente consagrado como um cineasta emblemático dos anos 70. Que me seja permitido recordar que para quem então vibrou com Coppola, Scorsese, Spielberg e Lucas, a cinefilia de Bogdanovich ou a radicalidade independente de Cassavetes, Robert Kramer e Barbara Kopple, a “originalidade” do tão consagrado Altman aparecia antes como auto-indulgência e desleixo, factores que se vieram largamente a confirmar, e de que apenas destoavam a peça inevitável, Nashville e, sobretudo, a preciosidade de A Noite Fez-se Para Amar.

Agora que se impõe uma apreciação global, será quase insólito, mas estou absolutamente convicto, que o aspecto esquecido ou menos lembrado do percurso de Robert Altman é aquele abertamente político, o mais surpreendente - e que se impõe com urgência revê-lo e reconsiderá-lo.