Derivas 5 de Fevereiro de 2007
por Augusto M. Seabra

A Escala dos Museus

Robert Altman
(I) Uma apreciação
11/12/2006

Robert Altman
(II) O olhar sobre a política
11/12/2006

Comemorações, reiterações
e profanações
18/12/2006

Peter Sellars e o projecto “New Crowned Hope” – evocar Mozart de outra maneira
18/12/2006

Pollicino
e a singularidade de Henze
26/12/2006

Uma nomeação na ópera
03/01/2007

A República
e o Paradigma do Príncipe
03/01/2007

Méritos públicos
e imperativos políticos
03/01/2007

In memoriam Galina Ustvolskaia
08/01/2007

A voz de Medeia
15/01/2007

De quem são as obral afinal?
22/01/2007

A modernidade em downloads
29/01/2007

A Escala dos Museus
05/02/2007

Apple e Apple (downloads II)
12/02/2007

Na noite de Hölderlin
19/02/2007

A Ópera e os seus fantasmas
26/02/2007

Na babel dos Óscares
05/03/2007

Found-footage
12/03/2007

A obra de arte na era da sua mutabilidade técnica
19/03/2007

São Carlos,
os anos Pinamonti (I)
27/03/2007

São Carlos,
os anos Pinamonti (II)
27/03/2007

Mr. Ornette Coleman, Prémio Pulitzer de Música 2007 (I)
26/04/2007

Mr. Ornette Coleman, Prémio Pulitzer de Música 2007 (II)
02/05/2007

Tempo e rito
28/11/2007

Rock 2007:
o ano das re/uniões (I)
02/01/2008

Rock 2007:
o ano das re/uniões (II)
02/01/2008

Na introdução de O Museu Imaginário escreveu André Malraux: “O papel do museu na nossa relação com as obras de arte é tão considerável que temos dificuldade em pensar que ele não existe, nunca existiu, onde a civilização da Europa moderna é ou foi ignorada; e que existe entre nós há menos de dois séculos. O século XIX viveu dos museus; ainda vivemos deles, e esquecemos que impuseram ao espectador uma relação totalmente nova com a obra de arte”.

A relação com a obra de arte, ou o que se supõe ser o conhecimento da obra de arte, também ela se alterou profundamente nas seis décadas volvidas sobre a publicação daquele texto. A cadência e a velocidade de circulação de “imagens de arte” suscitam outra das tendências ou mitologias características de uma era que já não é apenas a da reprodutibilidade técnica, mas aquela também virtual que existe em rede, wold.wide.web, www.
De algum modo, e num sentido de todo diferente do de Malraux, o “museu imaginário” é agora uma possibilidade pessoal. E de algum modo, e ironicamente para com a poética de Duchamp e do dadaísmo em geral, é como se se abrisse outra hipótese de “boîte en valise”, de museu portátil de cada um, no click do seu computador pessoal.
Mas se poderíamos, ou gostaríamos, de supor um www.museum.com , que de resto existe, há também uma outra escala desta era global que é forçoso considerar museum.co.
Há exemplos claros de comercialização, “marketing” ou, dito mais benignamente, “promoção”. É o caso do Hermitage, que como outras instituições culturais russas faz face a graves problemas de suborçamentação, e ora “exporta” filiais ou pólos – sendo motivo de suplementar espanto que em países em que há também problemas administrativos e orçamentais nos museus se possa propagandear a “chegada” (paga, evidentemente) de um pólo do museu de São Petersburgo. É o caso do Smithsonian,  grande instituição cultural pública americana, conjunto de 19 museus, 5 centros de pesquisas, biblioteca, arquivos, etc., que vem rentabilizando os seus fundos, nomeadamente num controverso contrato com o canal por cabo Showtime, suscitando protestos – que chegaram ao Congresso – de documentaristas e outros investigadores, temendo que por força desse contrato lhes fosse condicionado o acesso a arquivos públicos; Smithsonian que, não obstante, se vê agora a braços com um imbróglio, com um relatório evidenciando que, enquanto as receitas do SBV, acrónimo para “Smithsonian Business Ventures”, as receitas dos negócios portanto, são decepcionantes, 19 quadros ganham mais que o Vice-Presidente e 3 mesmo mais que o Presidente dos EUA!

E no entanto, no panorama geral, dir-se-ia que em termos de grandes investimentos, nenhum sector cultural, e poucos ramos de sectores públicos também, está tão florescente como os museus. O recente número da revista d’a – d’architecture, de Dez.06/Jan.07, era consagrado ao tema, e mesmo sem as mais recentes e “bombásticas” notícias, apresentava 35 projectos: é Siza com o Dona Regina de Nápoles e a Fundação Iberê Camargo de Porto Alegre, é Gehry com a Fundação Louis-Vuitton em Paris, é Libeskind em Denver, é Renzo Piano em Atlanta e nas extensões do Whitney e da Morgan Library and Museum em Nova  Iorque, são Herzog & De Meuron que vêem praticamente concluído um museu por ano, etc. Mas atenção: o dossier da d’a tem o título La dictature des musées.

Para além das razões concretas de cada projecto, há uma questão geral: porquê esta obsessão museológica? É ainda mera ou predominantemente patrimonial? O museu, a arquitectura do museu, tem um valor icónico potenciador, visando-se réplicas do “efeito Guggenheim” em Bilbao? Já é em si mesmo o museu “a obra de arte”? Existem obras para neles serem albergadas e dadas a ver, como é próprio dos museus?

Com os holofotes da actualidade colocados no estrondoso anúncio do complexo arquitectónico, cultural e museológico em Abu Dhabi, e com a polémica em torno da instalação aí de uma extensão do Louvre, talvez seja esclarecedor fazer uma passagem por Veneza.

Como se sabe, François Pinault decidiu instalar aí, no Palazzo Grassi, no Canale Grande, a sua colecção. Mas mais empreendeu: com o apoio da municipalidade, apresentou um projecto para a alfândega, a Dogana del Mare, o edifício desafectado em forma de proa de navio, mesmo no extremo desse Canale Grande. O arquitecto seria Tadao Ando. Só que, inesperadamente, em Setembro, a Fundação Guggenheim, de há muito presente em Veneza com a colecção Peggy Guggenheim, também se apresentou a concurso, com o apoio da Região, e com um projecto de Zaha Hadid.

Pinault versus Guggenheim, municipalidade (esquerda) versus Região (direita), o minimalista Ando versus a luxuriante Hadid (Hadid em Veneza?!), eis os termos de uma competição cerrada, que afinal a semana passada não se resolveu quando a comissão encarregada recusou optar entre os dois projectos. Competição, concorrência – se François Pinault abandonou o projecto da Île Seguin nos arredores de Paris para rumar a Veneza, um concorrente económico, Bernard Arnault da Louis-Vuitton, empreende uma fundação e um museu em Paris.

Na querela sobre o Louvre em Abu Dhabi, e em Atlanta, que é bem mais que uma querela, é fácil supor que de um lado, contrário aos projectos, estão argumentos “conservadores” ou “conservacionistas” e também chauvinistas, como um outro tipo de chauvinismo pode existir entre os que, sendo a favor, defendem uma posição supostamente “altruísta”. Assim, embora politicamente na oposição, não faltou, majestático, o eterno herdeiro de Malraux, Jack Lang, proclamando O Louvre, museu universal (universal?!) : “Existe um Louvre sem fronteiras, um Louvre ‘fora do Palácio’ que se identifica com a França, com o seu património, a sua história, e também com o seu brilho e as suas missões de difusões do saber” (!). Do outro lado há uma inédita fronda de responsáveis museológicos e culturais, na sequência da tomada de posição de Françoise Cachin, Jean Clair e Roland Recht no Le Monde de 13 de Dezembro, das 2000 assinaturas da petição de www.latribunedelart.com , da tomada de posição do antigo presidente do museu, Michel Laclotte seguido,  na semana passada, gesto inédito em dois séculos de história, por 39 dos conservadores do próprio Louvre – mais de metade.

Certo é que a própria escala do ora “Grand Louvre” ainda mais o faz necessitar, como a generalidade dos museus, de fundos privados e de estratégias empreendedoras. E nesse campo, no tocante às grandes instituições, há um exemplo saliente: a estratégia do Guggenheim, posta em prática pelo seu director, Thomas Krens, a estratégia de sucursais, com Bilbao e, em projecto, e mais significativo noutro plano, no Rio de Janeiro e talvez também, tantos são os anúncios, em Guadalajara ou em São Petersburgo, em Singapura ou em Tóquio - numa radical alteração do mapa internacional e da geopolítica das instituições museológicas. Ou, dito de outro modo, os museus deslocam-se para mercados emergentes ou financeiramente consolidados.

A expansão ou “trans-localização” dos museus não pode ser separada dos incríveis valores que se estão a atingir no mercado da arte, em leilões da Christie’s e da Sotheby’s ou numa feira como a Frieze de Londres. Em Novembro, em Nova Iorque, as vendas de obras de arte moderna e contemporânea atingiriam uma nova cifra de 1, 3 mil milhões de dólares, e ver-se-á o que sucede com os leilões desta semana!

Muitas vezes são ignotos os compradores, com frequência árabes, chineses ou japoneses, e esse é um dado que não se pode abstrair quando se anuncia uma extensão de Beaubourg em Xangai – onde se prevê também uma feira de arte – ou um complexo de museus em Abu Dhabi, o mais importante dos Emiratos Árabes Unidos, que todavia em termos turísticos perde largamente para o Qatar. 700 milhões de euros, em cash, pagos pelo emirato pela “marca Louvre” no seu território, é um montante de tal modo astronómico que pulveriza todas as escalas das economias culturais!

Perante um complexo com um Museu Guggenheim de Frank Gehry, um “Louvre” de Jean Nouvel, um museu marítimo de Tadao Ando e um centro de artes de Zahad Hadid, porventura ainda mais estilisticamente espectacular, concebidos com base num “master plan” de Thomas Krens (“who else?!”), podem chover as excitações arquitectónicas: “Xanadu” e “Uma Visão no Deserto” foram qualificativos no New York Times.

A ilha artificial onde se situarão chama-se Saadyat, isto é Ilha da Felicidade (www.saadyat.ae). Como se não bastasse o kitsch da designação, o pórtico já existente, o Palace Hotel, em que o quarto mais barato ronda os 750 dólares, é assustador, qual Las Vegas em Mil e Uma Noites, sem o fascínio justamente da noite e do artifício dessa sim “visão no deserto” que é Las Vegas.

O Louvre de Abu Dhabi é literalmente uma obscenidade e, mais grave ainda, a sua inscrição é sintomática de um regime em que a noção de bens culturais, os valores incorporados e os modos de ver tenderão a drásticas alterações de escala.