Derivas 5 de Março de 2007
por Augusto M. Seabra

Na babel dos Óscares

Robert Altman
(I) Uma apreciação
11/12/2006

Robert Altman
(II) O olhar sobre a política
11/12/2006

Comemorações, reiterações
e profanações
18/12/2006

Peter Sellars e o projecto “New Crowned Hope” – evocar Mozart de outra maneira
18/12/2006

Pollicino
e a singularidade de Henze
26/12/2006

Uma nomeação na ópera
03/01/2007

A República
e o Paradigma do Príncipe
03/01/2007

Méritos públicos
e imperativos políticos
03/01/2007

In memoriam Galina Ustvolskaia
08/01/2007

A voz de Medeia
15/01/2007

De quem são as obral afinal?
22/01/2007

A modernidade em downloads
29/01/2007

A Escala dos Museus
05/02/2007

Apple e Apple (downloads II)
12/02/2007

Na noite de Hölderlin
19/02/2007

A Ópera e os seus fantasmas
26/02/2007

Na babel dos Óscares
05/03/2007

Found-footage
12/03/2007

A obra de arte na era da sua mutabilidade técnica
19/03/2007

São Carlos,
os anos Pinamonti (I)
27/03/2007

São Carlos,
os anos Pinamonti (II)
27/03/2007

Mr. Ornette Coleman, Prémio Pulitzer de Música 2007 (I)
26/04/2007

Mr. Ornette Coleman, Prémio Pulitzer de Música 2007 (II)
02/05/2007

Tempo e rito
28/11/2007

Rock 2007:
o ano das re/uniões (I)
02/01/2008

Rock 2007:
o ano das re/uniões (II)
02/01/2008

Qual o relevo que ainda possa ser atribuído aos prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, vulgo Óscares?

A questão pode parecer espúria, tal a proeminência mediática que lhes é concedida, e tanto mais quanto, na mais imediata aproximação, o destaque que têm na imprensa portuguesa é internacionalmente dos mais desproporcionados. Mas, assim sendo, é então um indício especialmente interessante observar o contraste entre o relevo que o acontecimento teve nos jornais portugueses do dia da cerimónia, 25 de Fevereiro, e o tom prevalecente nos artigos num outro jornal, o da própria cidade em que o espectáculo decorre: Oscar isn’t Hollywood face, The movie magic is gone ou Box-office gold won’t buy Oscar, lia-se no Los Angeles Times. O indício é suficiente da disparidade entre uma hiper-mediatização euforizante à distância, num “território” – para adoptar a própria terminologia da indústria de Hollywood – que é dos mais enfeudados, caso de Portugal, e uma observação próxima muito mais desencantada.

Por certo que o despique cria expectativas, que aliás têm início mais de dois meses antes quando, aproximando-se o final do ano, começa a chamada awards season, com os prémios atribuídos pelas diversas associações de críticos, e depois os Globos de Ouro da Associação de Correspondentes Estrangeiros em Hollywood, enfim os das diversas associações profissionais, de actores, realizadores, argumentistas ou produtores.

Cria-se assim a expectativa e com ela as bolsas de apostas, literais e metafóricas. Para entrar em tal jogo convém no entanto ter presente a sua natureza e o conhecimento suficiente para saber interpretar também a lógica própria das diversas distinções anteriores.

Assim, por mais evidente que seja o contraste de historial entre as distinções ao longo de setenta anos e as obras e autores efectivamente marcantes da arte cinematográfica americana – e basta sempre relembrar que um Orson Welles ou um Hitchcock nunca foram galardoados, tão só o primeiro tendo recebido um Óscar honorário –, continuam a tecer-se comentários à pertinência e “justiça” dos prémios, como se aqueles fossem um valor absoluto.

Mas assim também, e até a um nível supostamente já mais informado e com enunciação mediática, permanece ausente um acompanhamento crítico, uma descodificação e explicitação das diversas lógicas próprias tidas por pré-anunciadoras, que este ano então se tornou flagrante: o Globo de Ouro atribuído a Babel transformou-se automaticamente no indício do favoritismo no teor geral dos comentários da imprensa portuguesa. Ora, por largamente maioritário que seja o historial de coincidências entre essa distinção e depois os Óscares, havia desde logo um factor a ter em conta: o carácter multi-linguístico e propriamente babélico do filme realizado pelo mexicano Alejandro Gonzales Iñarritu tinha na Associação de Correspondentes Estrangeiros em Hollywood, Estrangeiros em Hollywood frise–se bem, uma plataforma de reconhecimento muito mais favorável que nos membros da indústria que integram a Academia.

E mais – bastaria ter presente o que sucedeu no ano passado. O favoritismo atribuído a Brokeback Mountain foi desmentido, pelos vistos para surpresa geral na imprensa portuguesa pela atribuição do Óscar do Melhor Filme a Crash. Surpresa mesmo? Nem tanto assim. Se a corrida é também uma bolsa de apostas, bastaria ter seguido com atenção essas apostas para notar que a cotação de Crash ia subindo à medida que a cerimónia se aproximava. E depois do prémio não era difícil de compreender que, de acordo com o padrão médio dos membros da Academia, um filme tendo como matéria conflitos inter-raciais para mais na própria cidade de Los Angeles onde se inclui Hollywood e a Academia, tinha um maior apelo que a história de um amor homossexual.

Mas apesar de todos os precedentes, e até desse concreto e o mais próximo, de ano após ano permanece na consagração eufórica que a imprensa portuguesa faz dos Óscares uma ineludível ausência de análise crítica dos dados e da sua evolução na corrida. Apesar de com a aproximação da cerimónia se ter vindo a consolidar o favoritismo de The Departed/Entre Inimigos de Martin Scorsese, surgindo Little Miss Sunshine/Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos como possível mas improvável challenger, nos media portugueses continuava a atribuir-se o favoritismo a Babel.

Pode então perguntar-se se, para além da explicitação de um reiterado desfasamento e de uma abordagem mediática em Portugal de todo desproporcionada, todavia em si mesmo factor de suficiente relevo enquanto indicador do declínio de análises criticamente informadas e do enfeudamento a padrões dominantes, pode então perguntar-se se os Óscares deste ano são ainda assim suficientemente interessantes para justificar uma reflexão. E a resposta é afirmativa.

Afinal Babel não deixava de ser prenunciador, embora não no sentido imediato de consagração desse concreto filme: estes foram afinal os Óscares mais babélicos de que há memória. Se Entre Inimigos foi o vencedor da noite, com quatro Óscares, incluindo melhor filme e melhor realizador, o segundo mais distinguido foi O Labirinto de Pan, com três Óscares, uma co-produção mexicana-espanhola, que, todavia, para tornar a coisa ainda mais internacional, foi preterido na categoria de melhor filme em língua estrangeira pelo alemão A Vida dos Outros; acresce que as curtas-metragens distinguidas foram a de animação, dinamarquesa, e a outra, a de live action, israelista, esta última, West Bank Story, sendo uma espécie de West Side Story, com uma conflitual relação amorosa, israelo-palestiniana.

E para completar um painel de prémios em sintonia com um mundo da era da globalização, ainda houve os dois Óscares para Uma Verdade Inconveninente e o triunfo de Al Gore – com a ironia suplementar, no que concerne à estrita política americana, de o ex-vice-presidente e candidato presidencial derrotado em 2000, ter assim sido o político democrata consagrado como star em Hollywood, meio por tradição mais inclinado aos democratas, mas que entretanto já foi fonte da mais dura troca de palavras entre os campos de dois dos actuais competidores pela investidura, os senadores Barack Obama e Hillary Rodham Clinton, devido a agrestes declarações anti-Clintons, o casal, de um antigo apoiante agora no campo de Obama, o produtor David Geffen.

Este palmarés babélico ou globalizado já se prenunciava, enquanto tendência geral, na lista das nomeações, com um total de 16 para filmes assinados por realizadores mexicanos ou com a nomeação para melhor filme de Cartas de Iwo Jima de Clint Eastwood, produção americana inteiramente falada em japonês, factos que contribuíram para que se levantasse a questão da pertinência de duas categorias separadas, de melhor filme e de melhor filme em língua estrangeira. Acrescente-se ainda o nada negligenciável facto de Entre Inimigos ser o remake americano de um filme de Hong-Kong, Infiltrados, de Andy Lau.

A maior diversidade não deixa de se prender com as próprias realidades económicas da indústria: 40%  das receitas do cinema americano provêm actualmente dos mercados internacionais. É um dado todavia insuficiente para contrariar a tendência global iludida pela auto-celebração dos Óscares. Apesar do ligeiro aumento de espectadores em 2006, em comparação com o desastroso ano anterior – 2005, tudo o leva a crer, foi um ponto de viragem na queda que se afigura já irresistível da exibição, do acto de ir ao cinema –, os números configuram o declínio do padrão de consumo, a que aliás se acrescenta o dos dvds.

Os dados mais recentes dão conta de uma quebra de audiências no mercado americano de 45% nos últimos cinco anos, tanto mais catastrófica quanto atinge os seus mais elevados níveis no segmento entre os 18 e os 24 anos, que tradicionalmente era o que tinha maior índice de frequência. Pior ainda: 60% dos inquiridos num recente inquérito da Motion Pictures Association of America declaravam a intenção de no futuro gastar menos dinheiro em idas ao cinema, face a outras perspectivas de ocupação de tempos de lazer. A internet e a prática dos downloads configuram já indesmentivelmente um golpe fatal na consideração do cinema como a grande “arte democrática” americana.

De algum modo, a própria contenda adaptou-se aos novos suportes, com o aparecimento de blogs dos filmes concorrentes, com a própria Academia a estabelecer um renovado Oscar.com. Entretanto, a disputa passou a ser também muito mais longa. Enquanto por tradição ela ocorria sobretudo com as estreias de final de ano, agora já se prenuncia em Maio, quando do Festival de Cannes.

Foi aliás em Cannes que ocorreu uma preview e festa com apresentação de algumas sequências de Dreamgirls, criando o hype, o furor que o anunciava como um filme com favoritismo na disputa – mas afinal na sua farta lista de nomeações veio a falhar o de melhor filme. O relativo insucesso público de A Bandeira dos Nossos Pais levou também à antecipação da estreia de Cartas de Iwo Jima, a tempo de entrar na contenda, quando o filme japonês do díptico de Clint Eastwood estava anunciado só para inícios de 2007.

Sucedeu então a ironia de triunfar Entre Inimigos, não só à partida um filme sem Oscar profile, ao contrário dos dois anteriores de Scorsese, Gangs de Nova Iorque e O Aviador, como também aquele que veio a ter, mesmo já nomeado, uma campanha promocional mais discreta. Mas mais: por esta via, o Óscar do Melhor Filme foi afinal parar à Warner, que é dos estúdios de Hollywood o menos vocacionado para filmes de Óscares, enquanto todos os outros, Paramount, Universal, Fox e Disney, têm sempre em conta os possíveis valor de Óscar em certas produções, e vários têm mesmo unidades especializadas em art films.

Em toda a história dos prémios dificilmente houve uma cena mais prenunciadora do conteúdo do envelope que a presença de Francis Coppola, Steven Spielberg e George Lucas para entregar o Óscar de melhor realizador. Mais de 30 anos depois dos movie brats se terem proclamado no cinema americano, três dos seus expoentes estavam ali convocados, dir-se-ia que descaradamente, para a consagração enfim do quarto, daquele que nos Óscares tinha sido sempre preterido, Martin Scorsese.

Mais ainda: Entre Inimigos é o caso singular, e de todo anacrónico, de um filme estritamente de género premiado, um gangster movie, que por via de ser um remake de um filme de Hong-Kong é afinal um filme da Warner que, mantendo os padrões de cinefilia que justificaram a designação de movie brats, de putos cinéfilos, não deixa de ser uma homenagem aos gangster films da Warner dos anos 30 e 40.

O ineditismo da sua diversidade babélica como também, em contraste, e em articulação via Hong Kong, o flagrante anacronismo da premiação são afinal as razões que fazem dos Óscares de 2007 matéria suficientemente interessante de reflexão – de reflexão sobre os Óscares e o modo como os padrões de Hollywood se apresentam ainda como consagração do cinema americano numa escala globalizada.