Derivas 28 de Novembro de 2007
por Augusto M. Seabra

Tempo e rito

Robert Altman
(I) Uma apreciação
11/12/2006

Robert Altman
(II) O olhar sobre a política
11/12/2006

Comemorações, reiterações
e profanações
18/12/2006

Peter Sellars e o projecto “New Crowned Hope” – evocar Mozart de outra maneira
18/12/2006

Pollicino
e a singularidade de Henze
26/12/2006

Uma nomeação na ópera
03/01/2007

A República
e o Paradigma do Príncipe
03/01/2007

Méritos públicos
e imperativos políticos
03/01/2007

In memoriam Galina Ustvolskaia
08/01/2007

A voz de Medeia
15/01/2007

De quem são as obral afinal?
22/01/2007

A modernidade em downloads
29/01/2007

A Escala dos Museus
05/02/2007

Apple e Apple (downloads II)
12/02/2007

Na noite de Hölderlin
19/02/2007

A Ópera e os seus fantasmas
26/02/2007

Na babel dos Óscares
05/03/2007

Found-footage
12/03/2007

A obra de arte na era da sua mutabilidade técnica
19/03/2007

São Carlos,
os anos Pinamonti (I)
27/03/2007

São Carlos,
os anos Pinamonti (II)
27/03/2007

Mr. Ornette Coleman, Prémio Pulitzer de Música 2007 (I)
26/04/2007

Mr. Ornette Coleman, Prémio Pulitzer de Música 2007 (II)
02/05/2007

Tempo e rito
28/11/2007

Rock 2007:
o ano das re/uniões (I)
02/01/2008

Rock 2007:
o ano das re/uniões (II)
02/01/2008

Com a crescente afirmação da civilidade burguesa, ao longo dos séculos XVII e sobretudo XVIII, a arte e a cultura afirmaram-se determinantes à constituição de um espaço público que se consagraria nas revoluções liberais. Ao mesmo tempo, criava-se na Europa um sistema de circulação dos objectos artísticos, e com eles também dos princípios críticos e ilumininistas, bem como os primeiros exemplos de sistemas empresariais que hoje diríamos anunciar as “indústrias culturais” – foi o caso da ópera italiana, e do seu modelo mercantil, mesmo quando tendo patrocínio das cortes, modelo hegemónico de São Petersburgo a Lisboa.

O triunfo da civilidade burguesa com o modo de produção capitalista-industrial e a sua organização social do trabalho não só consolidou um “mercado da arte”, em sentido lato, modos específicos da sua fruição, nos espaços e nos tempos. O processo de “desencantamento do mundo” analisado por Max Weber, a laicização da sociedade, não deixou também de implicar uma depreciação dos ritos, e não necessariamente apenas dos ritos religiosos.

Os tempos dos espectáculos públicos tornaram-se eles próprios formatados: são a hora e meia, duas horas. Vá lá, admite-se um pouco mais na ópera, mas por exemplo no “revival” do repertório barroco muitas vezes há cortes só para não ultrapassar certos limites, até os estabelecidos pelos convenções de trabalhos, tal como, por exemplo, raras vezes as peças de Shakespeare são representadas na sua integralidade.

O termo “formato” tornou-se mesmo axial à produção e ao consumo televisivos, com os seus correlativos módulos básicos de 25 e 55 minutos. Mas a proliferação e segmentação dos meios vai também alterando os modos de percepção e, com esses, de capacidade de recepção e de tempo.

Entre a percepção cinematográfica e a do dvd há não só a radical diferença da total concentração na sala escura como, com essa, que o suporte vídeo, enquanto objecto de fácil manuseamento, permite supor uma visão espaçada e segmentada. Mas há agora mais: para além dos canais de televisão, hertzianos ou por cabo, há cada vez mais consumidores de web tv. Na passada semana começaram a ser colocadas em linha web series, uma de raiz, Quarterlife, e outra um aproveitamento de cenas não utilizadas de uma conhecida série, Lost: Missing Pieces; o tempo dos episódios é de 8 e 3 minutos respectivamente!
A questão é certamente de tecnologia, dir-se-ia mesmo de hiper-tecnologia, mas não só: em sociedades cada vez mais segmentadas há também tempos cada vez formatados e tendencialmente mais fragmentados.

Com isto se isto cria, ou antes, reforça, a recusa ou hostilidade aos tempos longos, como se o facto de lermos poemas ou contos colocassem nalgum index de exclusão Guerra e Paz ou Em Busca do Tempo Perdido.

Já em tempos me sucedeu fazer notar o seguinte. Folheava o caderno Única do Expresso de 30 de Dezembro de 2005, e deparei-me com uma coluna, Bomba Inteligente de Carla Hilário Quevedo. E que li? “A. O. Scott, do New York Times, faz uma lista dos dez melhores filmes de 2005. Em primeiro lugar, encontramos The Best of Youth de Marco Tullio Giordana. O filme dura seis horas e conta a história de uma família de Roma, durante as décadas de 60 e 70. Pode ser interessante, nada contra, mas, sinceramente, seis horas? Sim, desconfio dessa espécie de maratona adaptada ao cinema. Mesmo com quatro intervalos, no mínimo, ninguém aguenta. Ou se trata de um caso de arrogância ou de talento. É um tipo de filme que todos esperamos que os nossos amigos vejam primeiro”. A Melhor Juventude, pois é esse o filme, foi um caso de culto também em Portugal. Mais: com as suas duas partes e seis horas, foi até o filme que recentemente mais tempo de exibição teve em Lisboa: dezassete semanas primeiro, depois mais onze. O que queria dizer, em nome de quem falava Carla Hilário Quevedo, de que “público”, quando dizia que “ninguém quer ver”?

No recente DocLisboa fui responsável pela secção retrospectiva Diários e Auto-Retratos. Havia filmes com 3 horas de duração. Mas um caso particular se impôs, de resto a mim como à direcção do festival: a urgência em passar o extraordinário Diário do cineasta israelista David Perlov, filme de 330 minutos.
Ao apresentá-lo, disse que havia situações destas, em que conviria esquecermo-nos do que é a visão compactada de filmes num festival, mas que ao mesmo tempo são ocasiões tão singulares que praticamente só eventos específicos como festivais têm a capacidade de organizar.

Lembro-me dessas “cerimónias” que Hans-Jürgen Syberberg conseguia organizar. Em 1982 em Cannes, a projecção de Parsifal começou à 1h da manhã e quando terminou às 6h fomos tomar o pequeno-almoço na praia em frente. Dois anos depois, as 6 horas de A Noite foram mesmo apresentadas numa localidade vizinha de Cannes. Vi Heimat de Edgar Reitz em episódios, mas em cinema e em dias sucessivos (o que suscita um relacionamento incomparavelmente mais intenso) no Festival de Veneza de 1984, mas lembro-me, embora não o tenho podido ver nessa ocasião, que na integralidade dos seus 931 minutos o filme tinha estreado em dois dias sucessivos no Festival de Munique dois meses antes – e de resto estreou comercialmente na Alemanha e foi um êxito.

Recentemente, Peter Stein encenou a integralidade do Wallenstein de Schiller – O Campo de Wallenstein, Os Piccolomini e A Morte de Wallenstein – com Klaus-Maria Brandauer como protagonista. Integrado na programação do Berliner Ensemble, o espectáculo foi no entanto apresentado num bairro pobre de Berlim, Neukölln, num espaço de 1200 lugares especialmente arranjado numa antiga fábrica de cerveja, e demorava 10 horas, sendo apresentado aos sábados e domingos.

O facto desmesurado não era inédito com Stein. Em 2000, montara ele integralmente o Fausto de Goethe, com Bruno Ganz. E um dos espectáculos que mais me marcou, estava ele ainda na Schaubühne, e concluíam-se os tempos “heróicos” da Schaubühne no bairro “problemático” de Kreuzberg, foi em 1980 a sua encenação da Oresteia de Ésquilo – certo que vi Agaménon, As Coéforas e As Euménides em dias sucessivos, mas também havia outros dias em que era apresentada toda a trilogia.

Ocorreram-me factos como estes agora que sobre outra das maiores tragédias clássicas gregas, a Medeia de Eurípides, Antonio Latella volta à Culturgest para apresentar Studio sur Medea, espectáculo em três partes, Medeia e Jasão, Medeia & Filhos, Medeia Deia, sendo que podem ser vistas ou a 1.ª parte num dia e as outras duas no seguinte, ou então integralmente num outro dia.

Como me ocorre um espectáculo dos Forced Entertainement também visto na Culturgest, em 2002, And on the 1000th Night, que como o nome sugere se inspirava na estrutura das Mil e Uma Noites, um espectáculo de 5 horas (em que aliás se podia sair e entrar) em que se contava uma história, uma longa história, que se ia transformando e incluindo muitas outras.

Há um rito dos espectáculos que é cada vez mais raro na sucessão de formatos e fórmulas, uma noção mesma de rito e de espectáculo, de arte também, em que há que abstrair e mesmo escapar dos segmentos temporais impostos – como se um tempo longo também por vezes possa ser uma reivindicação de liberdade e uma afirmação de autonomia artística.

 

NOTA – Uma explicação é devida pela longa ausência desta coluna. Muito para além do que supunha no horizonte, o trabalho para o DocLisboa, não só como comissário da secção Diários e Auto-Retratos, mas mais genericamente como programador associado, acabou por me absorver por inteiro durante cerca de seis meses. Entretanto, a minha plena passagem ao espaço digital concretizou-se, com a coluna O Estado da Arte aos dias 15 em www.artecapital.net e a efectivação de uma há muito desejada página de crítica e opinião, letradeforma.blogs.sapo.pt, acrescendo-se assim ao âmbito das reflexões culturais destas Derivas.