O que acontece quando a identidade nacional é moldada pelas emoções do nosso quotidiano?
Dias antes do 25 de abril, a conferência Afetos Nacionais fala-nos sobre como sentimos e pensamos a política hoje, num tempo em que a política das emoções parece andar de mãos dadas com a política dos factos. Na Europa recente — da crise dos refugiados ao Brexit, da pandemia à ascensão do populismo — mostram como o medo, a pertença e a insegurança moldam o debate público.
Angharad Closs Stephens, professora na Universidade de Swansea, no País de Gales, analisa vários eventos europeus recentes como os atos de terrorismo, a crise dos refugiados, o Brexit, a pandemia da COVID-19 e a ascensão do populismo na Europa, centrando-se na esfera afetiva.
Neste microsite entramos no tema através de três casos retratos no livro National Affects: The Everyday Atmospheres of Being Political para compreendermos melhor do falamos quando nos referimos a "afetos nacionais".
Esta conferência termina com uma conversa com a investigadora e dramaturga Ana Pais e as atrizes e encenadoras Isabel Costa e Catarina Rôlo Salgueiro que vão estar em cena, no mesmo dia, no espetáculo Burn Burn Burn.
Imigração
"nós" vs. "eles"
Angharad Closs Stephens diz-nos que a imigração não é apenas debatida em termos racionais (leis, números, políticas), mas sobretudo sentida através de emoções que circulam no quotidiano.
Emoções como medo, ansiedade ou empatia, presentes em conversas informais, nos media e nas interações diárias, contribuem para construir distinções entre “nós” e “eles” de forma muitas vezes subtil e não consciente. Estas “atmosferas afetivas” podem gerar tanto ambientes de suspeita e exclusão como de abertura e acolhimento, influenciando comportamentos e perceções antes mesmo de qualquer posicionamento político explícito. A identidade nacional forma-se continuamente através dessas experiências emocionais difusas, tornando o quotidiano um espaço central de produção do político.
Interações em espaços públicos, nos transportes ou ruas, onde as pessoas são alvo de olhares vigilantes, distância corporal ou desconforto silencioso, cria uma atmosfera de suspeita que os posiciona como “fora do lugar”. Do mesmo modo, discursos quotidianos sobre imigração que evocam ideias de “crise” ou “ameaça” geram climas emocionais que influenciam comportamentos comuns, como evitar alguém ou desconfiar da presença de outros.


Covid-19
Como os afetos influenciam o quotidiano?
Angharad Closs Stephens mostra que a pandemia não foi apenas um problema sanitário ou governamental, mas também uma experiência profundamente afetiva, marcada por medo, insegurança, culpa e suspeita. Esses sentimentos circularam intensamente no espaço público e ajudaram a reorganizar perceções de pertença: por exemplo, a distinção entre quem era visto como “seguro” e quem podia ser “portador de risco” reforçou novas formas de “nós vs. eles”, muitas vezes associadas a fronteiras nacionais e mobilidade.
Destaca também como as fronteiras voltaram a ganhar uma dimensão muito sensível e emocional, com o encerramento de espaços, restrições de circulação e controlo dos corpos, criando uma atmosfera global de vigilância e incerteza. Ao mesmo tempo, práticas quotidianas como usar máscara, evitar contacto físico ou sentir desconforto perante a proximidade de outros mostram como o político foi incorporado no corpo e nas interações mais simples.


O populismo europeu não é um fenómeno apenas partidário ou ideológico, mas algo profundamente ligado a afetos quotidianos e às atmosferas emocionais em que as pessoas vivem.
Angharad Closs Stephens sugere que a ascensão de formas de populismo na Europa está associada à circulação de sentimentos como medo, insegurança, perda e ressentimento, muitas vezes ligados a transformações como migração, globalização e crises económicas. Estes afetos não aparecem só em discursos políticos formais, mas são constantemente alimentados no dia a dia — em conversas, nos media e em experiências urbanas — criando uma sensação de que “algo está a mudar” e que “o que era familiar está ameaçado”.
Neste contexto, o populismo consegue ganhar força porque mobiliza e organiza essas emoções difusas, reforçando distinções entre “o povo” e “os outros” (elites, migrantes, estrangeiros), transformando sentimentos quotidianos em narrativas políticas mais estruturadas. Estas divisões não são naturais nem fixas, mas sim produzidas através dessas “atmosferas afetivas” que moldam como as pessoas sentem pertença, perda e pertença nacional.
Por isso, Angharad Closs Stephens diz-nos que o populismo europeu não deve ser entendido apenas como uma resposta racional a problemas políticos, mas como algo que se alimenta de climas emocionais já existentes e que se forma nas experiências do quotidiano.
Biografias
Angharad Closs Stephens é uma geógrafa política e professora no Reino Unido, conhecida pelo seu trabalho sobre nacionalismo, afetos e política do quotidiano. Trabalha sobretudo na interseção entre geografia humana e teoria política crítica, explorando como emoções, atmosferas e experiências diárias moldam a formação da identidade nacional e das fronteiras políticas. É autora de National Affects: The Everyday Atmospheres of Being Political, onde analisa como o político é vivido de forma afetiva nas práticas e espaços do dia a dia.
Ana Pais tem vindo a investigar as artes performativas no seu cruzamento com as teorias dos afetos. Investigadora Auxiliar no ICNOVA (FCSH -UNL), é também dramaturgista e curadora. É doutorada em Estudos de Teatro (CET-UL). Em 2022-23 foi Professora Visitante no programa pós-doutoral de artes cénicas da UFBA (PPGAC), Salvador da Bahia. É autora de vários livros, com destaque para Quem tem medo das emoções? (2022). Foi crítica de teatro no Público (2003) e no Expresso (2004). Como dramaturgista, colaborou com criadores de teatro e dança em Portugal. Como curadora, concebeu, coordenou e produziu vários eventos de curadoria discursiva, dos quais destaca o Projecto P! Performance na Esfera Pública (Lisboa, 10-14 Abril 2017).
Catarina Rôlo Salgueiro nasceu em Lisboa em 1991. É diplomada em Teatro - Ramo Actores, pela Escola Superior de Teatro e Cinema e cocriadora do colectivo artístico Os Possessos. Como actriz, trabalhou com Maria João Luís/Teatro da Terra, Maria Duarte, Ricardo Neves-Neves/ Teatro do Eléctrico, Teresa Coutinho, Susana Gaspar, Teatro da Cidade, UmColectivo, Teatro Tapafuros, Byfurcação, Teatro Bocage, Companhia da Esquina,Teatro de Carnide e colaborou com o coletivo Building Conversation, no Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII). Com Os Possessos, participou em Rapsódia Batman (2014), II – A mentira (2015), Marcha Invencível (2017), O Novo Mundo (2018), Maratona de Manifestos (2021) e A Nossa Cidade (2021), tendo assinado as criações de A Bolha (2019), em conjunto com João Pedro Mamede, e Ainda Marianas (2022), em conjunto com Leonor Buescu. Assina ainda a criação de Para acabar com o julgamento de deus, de Antonin Artaud (2022), em conjunto com Jenna Thiam e Surma. Fez assistência de encenação a Ricardo Neves-Neves (A Noite da Dona Luciana, de Copi, e Encontrar o Sol, de Edward Albee) e a Tiago Rodrigues (Sopro, de Tiago Rodrigues). Em cinema trabalhou nos filmes Verão Danado e By Flavio, de Pedro Cabeleira, A Herdade, de Tiago Guedes e Sombras Brancas, de Fernando Vendrell. Em televisão trabalhou com Fernando Vendrell (3 Mulheres) e na peça televisiva de Ricardo Neves-Neves para a RTP2 (A Preceptora).
Isabel Costa é atriz e encenadora. Trabalha em teatro, cinema e em curadoria de artes performativas. É licenciada em teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Completou a sua formação na Universidade de Warwick (Inglaterra) e na UNIRIO, no Rio de Janeiro. É membro da companhia de teatro Os Possessos desde 2014. Na área da curadoria trabalhou no Paço Imperial, no Rio de Janeiro e na Galeria Luis Serpa, em Lisboa. Em 2016 termina o mestrado Erasmus Mundus Crossways in Cultural Narratives, tendo passado por pela Universidade Nova de Lisboa, pela Universidade de Perpignan, em França, e pela Universidade de Guelph, no Canadá. Em cinema trabalhou com Miguel Clara Vasconcelos, Miguel Nunes, Guilherme Daniel, Pedro Neves Marques, Leonor Noivo e Susana Nobre. Em 2017 apresenta a sua primeira criação “Estufa-Fria-A Caminho de uma Nova Esfera de Relações” na Bienal de Jovens Criadores, e a primeira edição do Projeto Manifesta. Em 2019 dirige as criações “Maratona de Manifestos” e “Salão Para o Século XXI.” Apresentou o seu trabalho no Museu MAAT, no Teatro Municipal do Porto - Rivoli, no Festival Cumplicidades, na Galeria Hosek Contemporary, em Berlim e no Festival Temps D'Images. Em 2020/21 assina a curadoria do "Ciclo de Reenactments - Performance Arte Portuguesa". Em 2022, assina a curadoria do ciclo "Sound and Future - Four Tools to Unblock the Present". Em 2023 dirige o espectáculo “Som e Fúria”, no TBA e o espectáculo “Manifestos Para Depois do Fim do Mundo”, na Culturgest, uma produção d’Os Possessos. Em 2024 é selecionada para o European Fund For Emerging Artists e para o Festival Fastforward, na Alemanha. Apresenta o seu trabalho em Ravenna, Itália, e em Havana, Cuba.
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