SEGREDOS DA NATUREZA

"A crise ecológica que hoje atravessamos é indissociável duma crise do empobrecimento das práticas e afetos que nos ligam à Terra e aos outros seres vivos."

Teresa Castro sugere que as imagens em movimento nos podem ajudar a alargar os limites da atenção e colaborar na fundação duma razão ecológica. Não se trata de defender que o cinema se deva colocar ao serviço dos discursos ecológicos, mas de sugerir que pode ajudar-nos a restaurar o maravilhamento diante do mundo, que nos é mais do que nunca necessário.
Numa série de quatro vídeos inéditos, a investigadora fala-nos de organismos vivos que nos ajudam a pensar outras dimensões da esfera humana e a sua relação com o cinema. Ponto de partida e de chegada, são novas leituras a partir da série vintage "Secrets of Nature". São novos SEGREDOS DA NATUREZA.

#1

DE MAGIC MYXIES AO BLOB

 

#2

LÍQUENES

 

 

#3

FUNGOS

 

#4

PLANTAS RUDERAIS

 

Mary Field, “Making Nature Films”, 1932
Mary Field, “Making Nature Films”, 1932
Percy Smith, Magic Myxies, 1931
Percy Smith, Magic Myxies, 1931
Bolor limoso (Fuligo septica), 2014
Bolor limoso (Fuligo septica), 2014
Ernst Haeckel, “Mycetozoa”, Kunstoformen der Natur, 1904
Ernst Haeckel, “Mycetozoa”, Kunstoformen der Natur, 1904
Blob (Physarum polycephalum), 2011
Blob (Physarum polycephalum), 2011
The Blob, 1958
The Blob, 1958
“Manteiga-de-bruxa” (Fuligo septica), 2020
“Manteiga-de-bruxa” (Fuligo septica), 2020
Donna Haraway, 2016
Donna Haraway, 2016
Cogumelo silicioso, s/d
Cogumelo silicioso, s/d
Líquenes, s/d
Líquenes, s/d
The Day of the Triffids (adaptação cinematográfica de 1962)
The Day of the Triffids (adaptação cinematográfica de 1962)
Netsuke de marfim japonês, sec. XVII ? (BnF, Paris)
Netsuke de marfim japonês, sec. XVII ? (BnF, Paris)
Les Krims, The Result of Living in a Dark Basement while Not Looking for Work, 1971 © Les Krims
Les Krims, The Result of Living in a Dark Basement while Not Looking for Work, 1971 © Les Krims
Auguste Cornillon, Champignons suspects, ca. 1827 (Welcome Collection)
Auguste Cornillon, Champignons suspects, ca. 1827 (Welcome Collection)
Micélio (Agaricus bisporus), 2011 © Rob Hille
Micélio (Agaricus bisporus), 2011 © Rob Hille
A vida das plantas, 1979
A vida das plantas, 1979
Eichii Matsumoto, Canáceas nas ruínas de Hiroshima, 1945 (Hiroshima Peace Memorial Museum)
Eichii Matsumoto, Canáceas nas ruínas de Hiroshima, 1945 (Hiroshima Peace Memorial Museum)

“O que acontece”, pergunta Haraway, “quando o excepcionalismo humano e uma visão limitada do individualismo (...) se tornam impensáveis para as ciências mais reputadas, sejam elas naturais ou sociais?” Acontece sermos capazes de pensar com os líquenes (e com os fungos e as plantas ruderais). Ser líquen não é tarefa fácil: exige dar asas à imaginação e escapar ao princípio de não-contradição que nos tolda o pensamento. Afinal de contas, não estamos habituados a que um eu humano seja um nós simbiótico formado por elementos humanos e mais que humanos. Ser líquen é precisamente isso: reimaginarmo-nos como ecossistemas em devir constante, em todos os domínios: orgânico, social, ético, político, imaginário. Ser líquen é articular novas alianças e conceber ecologias afetivas. Ser líquen é questionar os corpos e a sexualidade, abrir-se a famílias queer e a filiações transespécies. Ser líquen é acolher a vulnerabilidade dos bioindicadores e aceitar, como diz Haraway, que “podemos ser arrancados das rochas pelas Fúrias, que ainda se erguem para vingar crimes contra a terra”. Ser líquen é, quiçá, sonhar com o biotariado: “líquenes de todos os países, simbiotem!” Ser líquen é também não esquecer que a ganância colonial despiu em tempos as escarpas de Cabo Verde para que o norte da Europa se vestisse de cor púrpura, deixando atrás de si uma multidão de urzeleiros estropiados (a urzela, ou rocella tinctoria, é um líquen que cresce nas zonas costeiras dalgumas ilhas do Atlântico e que produz um corante de cor púrpura muito procurado no norte da Europa; antes da invenção das anilinas sintéticas no século XIX, o comércio da urzela, assente no trabalho escravo ou de coletores miseráveis, foi um dos mais rentáveis para a coroa portuguesa).

Em soma, ser líquen é responder ao desafio de inventarmos uma humanidade diferente.

DISCOVERIES ON THE FOREST FLOOR | Charlotte Pryce | (Excerto)
PLANET Z | Momoko Seto | (Excerto)
FICHA TÉCNICA

VOZ OFF E TEXTOS
Teresa Castro

EDIÇÃO DE CONTEÚDOS E MULTIMÉDIA
Bruno Castro

LEGENDAGEM
Inês Bernardo

 

DESIGN E WEBSITE
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FOTOGRAFIA 
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