A propósito do concerto de Tortoise na Culturgest, falámos com Carolina Pinheiro, account director na Uzina, uma agência de publicidade em Lisboa, e locutora no programa Bordel Pinheiro na Rádio Futura, a propósito da sua ida a Londres para ver Tortoise. Escreveu-nos um texto sobre a experiência que partilhamos agora no microsite dedicado ao concerto.
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Tortoise.
Barbican,
22 de novembro.
Por Carolina Pinheiro
Não sabendo bem se seria o regresso oficial dos Tortoise aos palcos, decidimos comprar bilhetes para os ver em Londres naquele que poderia ser um ato isolado. Finanças à parte, acabámos por ficar com os últimos lugares, bem no topo da sala, longe do que seria um cenário idílico. Era isso ou perdê-los sem saber se os voltaríamos a ver ao vivo. Entretanto anunciaram a tour com passagem por Lisboa, na Culturgest, mas decidimos manter a nossa visita ao Barbican. Não seria a primeira vez que veria um concerto duas vezes. Londres tem a magia de não precisar de grandes planos pela sua inesgotável e imprevisível oferta cultural, mas desta vez fomos com uma agenda rigorosa.
O Barbican é realmente um sítio único, onde assim que se abre uma porta se sente a energia de muitas coisas boas a acontecer, ainda que o que paire seja apenas uma gigante tranquilidade. É quase uma viagem no tempo, onde a arquitetura nos faz perder o ano em que estamos e nos transporta para vários lugares ao mesmo tempo. Nunca tinha ido ao Barbican com o propósito de um concerto. O que vi foi uma sala incrivelmente bela, com o brilho de uma madeira que promete uma acústica fora de série, mesmo sem se ouvir uma única nota. Perdemo-nos nas texturas visuais e sonoras. Uma sala serena, mas que faz sentir o peso da sua imensidão assim que nos fundimos nela.
Apesar da imensidão e da estética brutalista, havia uma descontração muito própria e uma curiosidade: o facto de se poder entrar no auditório com uma cerveja na mão, algo que seria meio estranho em Portugal. Confesso que o prazer de beber uma cerveja num concerto destes torna a experiência menos "museu" e bem mais "vida real". Assim que nos sentámos e começou a primeira nota, fomos completamente absorvidos por uma atmosfera hipnótica e um som estrutural. Um sentimento de transe, repetitivo e matemático. A banda presenteou-nos com o seu jogo de cadeiras habitual, na troca de instrumentos, e com uma arquitetura de ritmos constante.


A ausência de Jeff Parker trouxe uma inquietação inicial, como se faltasse uma peça central num puzzle que se conhece. No entanto, o guitarrista que os acompanha nesta tour (James Elkington, que eu desconhecia) preencheu o espaço com uma precisão cirúrgica, com uma nova textura bem geométrica.
Escrever sobre música instrumental é um desafio interessante. Primeiro, porque me desafio cada vez menos a escrever. Depois, porque na verdade nunca tomo atenção às letras, e isso deveria tornar o exercício mais simples. É como legendar um filme que cada um vê à sua maneira. Descrever uma coisa que à partida parece tão abstrata, mas que assim que começamos a pensar nela e a escutá-la ganha a sua forma, vai mudando de forma.
O processo de escrita tem os seus acasos. Enquanto organizava as notas sobre o Barbican, aconteceu uma coincidência curiosa na Futura: começou a passar 'The End' dos The Doors e, subitamente, fui transportada para os Tortoise. À primeira vista, a associação é pouco óbvia, até para mim. O que é que os Doors têm a ver com a sobriedade de Chicago? Mas percebi que o que me puxa em ambos é a construção da hipnose. Os Tortoise propõem uma abstração geométrica, um transe que nasce da precisão e da forma como os sons encaixam. Aquela batida que não para, aquela guitarra em círculos que nos faz esquecer o relógio. Aqui, a música não é um produto com pressa de acabar, é um estado de espírito que nos pede para ficarmos ali, parados, a ver a forma a mudar de forma.
É difícil viver nestes tempos inquietos em que nos roubam o tempo para mastigar o momento com informação ininterrupta. Cada semana um disco novo por descobrir, muitas coisas muito boas constantemente a sair (e também muitas coisas más). Por vezes, temos de voltar aos sítios de conforto e aos bons discos que nos mostram novos cenários de cada vez que os ouvimos. TNT representa isso mesmo. Ainda que seja um álbum de 98, que eu descobri e aprofundei bem mais tarde, de cada vez que o ouço descubro novas narrativas. Um disco que marca o seu tempo, ainda que seja intemporal. Se o TNT é a memória de uma Chicago analógica que nos abraça com um calor jazzístico e orgânico que parece respirar, o novo Touch é a frequência de um tempo acelerado. O material de 2025 traz uma energia diferente: é mais denso, mais eletrónico, quase como se a banda estivesse a tentar organizar o caos de informação de que falava há pouco. No Barbican, essa transição foi suavizada pela abertura de Jeremiah Chiu e Marta Sofia Honer. A eletrónica modular e o violino prepararam o terreno, limpando-nos os ouvidos do barulho da cidade e pedindo-nos a tal paciência que o transe dos Tortoise exige.
Sinto que o que me atrai nos Tortoise é a sua vertente mais jazz e a forma como se reinventam, muito mais do que a comum etiqueta de post-rock. Ver a banca da International Anthem no átrio do Barbican foi a confirmação de que esta linhagem está mais viva do que nunca. Eles são a fundação para muito do que aquela editora lança hoje e que tanto sigo. Se os Tortoise abriram a porta à desconstrução, músicos como Makaya McCraven entraram por ela com tudo. Ao ouvir uma faixa como "Her Name", sinto essa mesma "ciência da batida", uma montagem que faz o jazz soar a algo novo e futurista.
Essa liberdade de deixar o som respirar é algo que também se encontra no trabalho de Floating Points, naquela eletrónica que usa o sintetizador para criar paisagens que quase se conseguem tocar. É a mesma precisão rítmica que me fascina em nomes como Moses Boyd ou na forma como os BadBadNotGood esticam as composições até ao limite. São coordenadas de um mesmo mapa que privilegia a experimentação acima de tudo.
Embora não conhecesse as caras, percebia-se que estávamos perante um público muito transversal. Uma mistura de gente de sítios muito diferentes: desde veteranos da música dos anos 90 às gerações mais jovens que andam a explorar os novos caminhos do jazz em Londres, como eu. É curioso experienciar um concerto como este no frenesim de Londres, com uma banda que nos obriga a parar e que nos pede paciência, silêncio e absorção para que o som possa respirar.
Houve momentos em que o silêncio entre nós, sentados lá no topo daquela sala imensa, se tornou tão importante quanto a percussão polirrítmica no palco. É raro encontrar a liberdade de partilhar um concerto em silêncio absoluto, sem a urgência de comentar a próxima nota. É preciso deixar o som respirar. Foi nesses intervalos de respiração que percebi que, 30 anos depois, os Tortoise continuam a soar ao futuro. Um futuro que não é um sítio onde chegamos, mas um som que continuamos a perseguir.
Depois da densidade do concerto, da escuridão do auditório e da complexidade sonora, o sol inesperado de Londres no dia seguinte foi quase uma limpeza de palato, um final luminoso. Agora, preparo-me para o segundo round. Se Londres foi a descoberta da imensidão e do anonimato num cenário de arquitetura brutalista, a Culturgest será o reencontro íntimo. Curiosa para ver como o público português reagirá a este "jogo de cadeiras" instrumental e se a proximidade da sala de Lisboa revelará novas histórias nestas músicas que, por agora, continuo a mastigar.
FICHA TÉCNICA
TEXTO
Carolina Pinheiro
EDIÇÃO
Carolina Luz
REVISÃO DE CONTEÚDOS
Catarina Medina
DESIGN E WEBSITE
Studio Macedo Cannatà & Queo