No âmbito do empréstimo da obra Drop the bomb! (1994) de Luísa Cunha, esta peça assume particular relevância no contexto de Um Silabário por Reconstruir IV. A exposição, apresentada na Culturgest-Porto entre 7 de março e 28 de junho de 2026, tem curadoria de José Maçãs de Carvalho e de Filipa Valente.
Sob uma mesa de estar ou de refeições, acompanhada por cadeiras ou poltronas onde os visitantes se podem sentar, ou situada num local de passagem, ouve-se, em surdina e em repetição, a frase “Drop the bomb!”, emitida em várias inflexões: afirmativa, interrogativa, aos gritos, pausadamente, em tom de desespero… como se se tratasse de uma conversa ou de um mantra. Desde a sua apresentação em espaços públicos – cafetarias, locais de trabalho – que “o apelo à insubordinação (…) introduz uma perturbação nas rotinas dos que frequentam o local” (Miguel Wandschneider), e evidencia o potencial da obra para atuar sobre o quotidiano e interferir subtilmente na perceção de quem a usufrui.
Criada nos primeiros tempos do percurso centrado em processos sonoros e escritos que a artista tem vindo a desenvolver desde 1992, a peça assume-se como “um postulado, ainda que, sob algumas inflexões particulares, oscile entre o ultimato e a súplica” (Ricardo Nicolau). Esta oscilação reforça um duplo movimento: por um lado, a obra afirma-se como enunciação perentória; por outro, expõe a vulnerabilidade e a ambiguidade presentes no ato de repetir incessantemente a mesma frase. Essa dupla ação manifesta-se também na forma como a instalação ocupa e marca persistentemente o espaço expositivo, implicando diretamente o visitante. A frase imperativa ecoa e infiltra-se nas conversas e nos pensamentos de quem a escuta, como uma convocatória dirigida a “cada um de nós, pessoal e intransmissivelmente” (Delfim Sardo). Contudo, “não é uma doutrina, nem uma arte feita de teses” (Nuno Crespo). A obra não prescreve uma interpretação unívoca, nem se fecha numa posição ideológica; pelo contrário, expande-se pela repetição, contaminando o espaço e o pensamento sem oferecer conclusões definitivas. A repetição exaustiva leva, por vezes, à diluição do sentido original: “ao longo do tempo de escuta, a expressão tanto adquire um tom sugestivo como ganha uma coloração violenta, podendo mesmo desprender-se completamente do sentido das palavras proferidas.” (Ana Gonçalves). Esta perceção constrói-se a partir de “imagens e indícios de ações que são submetidos a um processo de reconstrução…” (João Silvério), o que sublinha o papel ativo do espectador. A frase não é apenas ouvida: é reconstruída, reinterpretada e reorganizada mentalmente por cada visitante. Neste ponto, a relação entre as citações torna-se evidente: todas orientam a leitura para a implicação política, sensorial e subjetiva do espectador na formação do sentido.
Luisa Cunha nasceu em 1949, em Lisboa, cidade onde vive e trabalha. Formou-se em Escultura no Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual, em Lisboa. Em 2004, participou na Bienal de Sydney. Revelando a importância da artista na cena artística portuguesa, destacam-se as exposições retrospetivas realizadas no Museu de Arte Contemporânea de Serralves (Porto, 2007), com curadoria de Miguel Wandschneider, e no MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (Lisboa, 2023), com curadoria de Isabel Carlos. Esta última resultou da atribuição à artista, em 2021, do Grande Prémio Fundação EDP Arte. Em 2022, recebeu o Prémio AICA/MC/Millennium BCP. Recentemente, em 2025, realizou uma exposição no CAV, em Coimbra, com curadoria de Miguel von Hafe Pérez.
Hugo Dinis
53' 54'' (loop)
Inv. 599378