Os criminosos e as suas propriedades é a última obra conhecida da série de pinturas com o mesmo nome, exposta em grande parte na Galeria Buchholz em 1975. Integrada na Coleção da Caixa Geral de Depósitos, em 1986, a obra pode agora ser vista em rara ocasião na decorrente exposição Lendo, Resolve-se: Álvaro Lapa e a Literatura, até 26 de julho de 2020, na galeria da Culturgest.

Duas silhuetas vermelhas, uma de homem, outra de mulher, são representadas junto de um retângulo gradeado, que o título da pintura sugere tratar-se das barras de uma prisão. Aí flutua uma terceira figura de vulto azul. Os personagens que participam nesta enigmática narração, assim como as encarcerantes grelhas negras, fazem parte de uma iconografia económica e pessoal de cores, formas e palavras, às quais o autor retorna constantemente ao longo da série.

Álvaro Lapa projeta na tela a elementar necessidade de narrar, mesmo que aprisionado numa poética pessoal indecifrável. Afastando-se do abstracionismo ao abordar de novo a figuração, Lapa procurou afastar-se das formas culturais estabelecidas numa postura cismática para com o passado formal – uma postura partilhada pelos seus congéneres, com os quais apenas se assemelha na diferença e individualidade do próprio ego.

Tomás Marques Pereira
 

Álvaro Lapa
Os criminosos e as suas propriedades
1984
Esmalte acrílico sobre tela
95 x 120 cm
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