Vêem-se as costas de um violoncelo suspenso no alto de um canto por um espigão com mais de 3 metros de comprimento, que aparentemente simplesmente assenta no chão. Violoncelo preparado é o título desta instalação de Ricardo Jacinto, artista com formação em arquitetura e música, que aqui cita propositadamente o Prepared piano (Piano preparado) do compositor vanguardista norte-americano John Cage. Remete-nos assim para um instrumento cuja escala harmónica e tonal é alterada pela intromissão de “objetos preparatórios”. Cage utilizou para o efeito cunhas de madeira, borracha e metal entre as cordas do piano. Jacinto também utiliza um instrumento de cordas (e ao qual tinha especial ligação afetiva, por ter sido o seu primeiro violoncelo), mas prepara-o para que não possa ser tocado: aumenta desmesuradamente o comprimento do seu espigão e posiciona-o num frágil equilíbrio a mais de 3 metros de altura, voltado de costas para o espectador. 

Tal como Cage propusera noutra peça ousada (composta “para qualquer instrumento ou combinação de instrumentos” e intitulada 4’33’’) que, precisamente durante 4 minutos e trinta e três segundos o instrumento ou instrumentos não deveriam ser tocados, também aqui Jacinto privilegia os sons circundantes, produzidos não pelo instrumento (tornado objeto contemplativo) mas pelo contexto no qual ele se insere.

Entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019 esta obra será visitável no Centro de Artes Visuais de Coimbra, numa mostra individual do artista Ricardo Jacinto, com curadoria de Sérgio Mah.

Ricardo Jacinto
Violoncelo preparado
2005
Instalação
Violoncelo e varão em aço inox
428 cm x 45 cm
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