"Catarina e a Beleza de Matar Fascistas começa em 2028 num Portugal distópico governado pela extrema direita e põe em jogo uma família ficcional que nos faz embater de frente com questões muito reais.
A defesa da democracia, por exemplo."
Tiago Rodrigues
Estreada originalmente em 2020, a peça chega agora à Culturgest com um novo fôlego, desafiando o público a confrontar-se com questões profundas sobre memória, violência política, e resistência.
Inspirando-se livremente na história e na ficção, Tiago Rodrigues constrói uma narrativa provocadora sobre uma família que, geração após geração, perpetua uma tradição radical: matar fascistas.
Um prazer inquietante
excertos entrevista Tiago Rodrigues por Maria João Guardão
"A peça tenta fazer o que considero ser um dos pontos fortes essenciais do teatro: propor personagens que, através do que pensam, dizem e fazem no palco, e através da forma como o fazem, nos permitem pensar de forma diferente sobre as nossas vidas.
O que tínhamos no início era uma família, um questionamento sobre o lugar da violência numa sociedade democrática, diante da ameaça do pensamento e da ação antidemocráticos, diante da iminência de uma ditadura, e queríamos levantar essas questões de uma forma que também nos desafiasse. Para que não fossem apaziguadoras, servindo apenas para confirmar o que acreditamos ser os nossos valores partilhados — e que provavelmente não são os valores que partilhamos, apenas acreditamos que os partilhamos, e então ficamos frequentemente surpreendidos com os resultados eleitorais e percebemos que podemos partilhar esses valores numa escala mais humana e pessoal, mas numa escala social a interpretação e manipulação de ideias e a forma do nosso envolvimento cívico muitas vezes separam-nos como cidadãos."
"Por isso, não queríamos uma peça que apaziguasse, confirmasse ou mesmo presumisse saber o que o público pensa e quais são as suas crenças. Queríamos uma peça que inquietasse, independentemente das convicções de quem a assistisse. Que proporcionasse prazer, naturalmente, mas um prazer inquietante. E para isso, tivemos de ser os primeiros a sentir-nos inquietos. Pareceu-me fundamental procurar isso em todos os ensaios, essa centelha de inquietação."
"E eu estava muito assustado, embora muito animado, com os dias sucessivos de inquietação que vivemos enquanto trabalhávamos com este material, enquanto tentávamos criar personagens que não fossem muito fáceis de compreender, enquanto tentávamos criar palavras e acontecimentos em palco que não fossem maniqueístas na sua forma de ver o mundo, que não tentassem manipular o público, mas sim usar as ferramentas do teatro para conduzir esse público numa viagem que é a da ficção e do pensamento. E assim, os momentos em que eu tinha mais certeza de que estávamos a fazer um trabalho relativamente interessante eram também os momentos mais desconfortáveis para mim, de maior dúvida. Mas eram sempre momentos em que eu reconhecia a inquietação. Não conseguia encontrar uma resposta fácil para o que estávamos a criar."
As palavras são poderosas, Catarina.
Na noite em que apresentámos Na Medida do Impossível, de Tiago Rodrigues e na véspera dos 50 anos do 25 de Abril recebemos a apresentação do livro Catarina e a Beleza de Matar Fascistas com Pilar del Río e Gonçalo Frota.
O Projeto Invisível #9
10. Um espetáculo Audiodescrito
No espetáculo Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, a experiência vai além do que se vê no palco: cada gesto, cada nuance e cada cena são interpretados e descritos para todos os públicos. Este é apenas um dos muitos espetáculos audiodescritos na Culturgest e reflete o compromisso em oferecer sessões acessíveis, promovendo uma experiência cultural inclusiva. Convidámos a audiodescritora Anaísa Raquel a partilhar connosco um excerto do guião desta peça e a explicar o seu trabalho para ficarmos a conhecer por dentro o que está por detrás de uma audiodescrição.
Sobre Tiago Rodrigues
Tiago Rodrigues (Amadora, 1977) é ator, encenador, dramaturgo e produtor. Em 2003, fundou a companhia Mundo Perfeito com Magda Bizarro, através da qual criou e apresentou, ao longo de 11 anos, cerca de 30 espectáculos em mais de 20 países. Foi também professor de teatro em várias escolas. Paralelamente ao seu trabalho em teatro, escreveu argumentos para filmes e séries televisivas, artigos, poesia e ensaios. Alguns dos seus espectáculos mais reconhecidos são By Heart (2013), António e Cleópatra (2014), Bovary (2014) ou Sopro (2017), e as suas peças mais recentes são Catarina e a Beleza de Matar Fascistas (2020), Coro de Amantes (2021) ou Dans la mesure de l’impossible (2022). Já recebeu várias distinções nacionais e internacionais, destacando-se o XV Prémio Europa Realidades Teatrais (2018), o grau de Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras atribuído pelo Governo Francês (2019), o Prémio Pessoa (2019) e a Medalha de Mérito Cultural do Governo Português (2021). Foi Director Artístico do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, entre 2015 e 2021. Atualmente, é diretor do Festival d’Avignon, sendo o primeiro não-francês a assumir a função naquela que é uma das mais importantes manifestações de teatro em todo o mundo.
FICHA TÉCNICA
FOTOGRAFIA
Joseph Banderet
EDIÇÃO
Carolina Luz
REVISÃO CONTEÚDOS
Catarina Medina
DESIGN E WEBSITE
Studio Maria João Macedo & Queo






