CORPOS E GRAVIDADE

Mergulhamos no processo de criação de Diana Niepce para Hornfuckers a partir de uma conversa íntima da coreógrada com a investigadora Kate Marsh e um texto de Ary Zara, que acompanhou ensaios na nova criação.

© Alípio Padilha.
© Alípio Padilha.
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"Aqui, questionamos os estereótipos e desafiamos a gravidade, cruzamos o lirismo e a violência numa imagem que revela corpos em constante confronto com os seus limites. Numa paisagem composta por ordem e caos, submissão e revolta, Hornfuckers questiona o que somos, o que nos é imposto e como o sistema que nos sustenta pode ser fonte de imprevisibilidade e opressão”. 

Corpos que gravitam

 

Uma tonelada pressiona contra o chão
E de cima pressiona quem pressiona o chão
uma voz inter-ROMPE, Niepce
Slower, slower.
Ela acolhe, provoca e encaminha
como uma doula de morte insiste que
— não é sobre sofrimento.
tanto do lado de fora, como de dentro é ____
mas também __________
e tem os seus quereres, desejos e solidões.
O corpo, pipoca no espaço
— é da forma mais          l                              e                   
                                                                                                                                                                                           n                                         
                                            t                   
                
                                                                                                              a
possível, pelo lado de dentro.
como uma wound. “Uma quê?” Niepce dirige pelo microfone,
— uma ferida, aberta.
como algo vazio, mas outra vez, não é sobre sofrimento
é um afogamento para dentro do chão
dentro {de uma ∫u∫₱ℓⁿ√ªº}
arnês, cabo e mosquetão são pele
numa recorrente por vezes ensurdecedora de ressurreição e morte
rigidez, e morte, polvos, anastase, pipocas e flores
morte, em vida, em morte.
onde? não sei..
é um não lugar, acidental ou essencial, que une orações
como as preposições, mas variável
uma espécie de  ~e d g i n g ~
um gozo suspenso, o primeiro roçar
não cónico, não fálico, não genital
é talvez esse lugar de pulsão
tem de meditativo e de catártico
— é como ser um chupa-chupa pequeno que vai crescendo, e vai-se perdendo..
o espaço vai ficando maior e tem um pulsar
tssss pa pa
TXÁ PA ta ra ra
que passa para o chão,
tss pa PÁ para as paredes
até quase parar.
txá pa TA RA RA
tssss ha ha
— estou a cair num túnel
— sou um pega-monstro
Ca-pum
— acordaram num corpo diferente.
são uma alforreca numa nave espacial
uma alforreca congelada que está a sair da arca frigorifica
e bebeu líquido que a congela por dentro
uma alforreca encravada
que tem:
-umas pernas de mamute
-e uns braços de tesoura
e quer sair do chão
ela quer sair do chão
mas está colada ao chão
torna-se grande, muito grande
está dentro de uma piscina de chocolate e flutua
— bué da fixe
é uma piscina de chocolate
— wohooo!
um carrossel mágico
que encontra unicórnios a cuspir fogo pelo rabo
e vai passando pequenos momentos no café
vai beber um chá
— olá amiga como estás hoje?
— bué da fixe, estamos no café
— ela é um caracol
estamos numa corrida de caracol
um caracol seXXXy
seXXXy
uma caracoleta
— Ah! eu vou sair da minha casa
seXXXy ha- ha - ha
— as mãos não são as minhas mãos
— os meus pés não são os meus pés
o corpo está enFFFeR-Ru-jado
e quer sair do lugar
o corpo está par₮ido
e vai perdendo os membros
pá pá pá
o corpo tenta verticalizar-se E
O CORPO TENTA verticalizar-se
mas é muito________ difícil
o movimento é tenso
e o corpo cai,
                                    o corpo
cai
o corpo não se equilibra
o corpo
cai
o corpo não se ograniza
o corpo está desorgranizadox=dEsa®Ti culado
o corpo quer sair do chão, quer ir para cima
o corpo quer
v
e
r
t
icalizar-se e é muito difícil mexer-se
o corpo está tenso, teNso
rígido grande
e o corpo é puxado para o chão
o corpo que/bra
PÁ PÁ PÁ
tsss HA HA haa
  \/\/\/ crrrrr as correntes, um ranger de dentes, contra a gravidade
/\/\/\/\ não paramos
um campo de auto-organização, onde cada corpo é parte de um superorganismo
momentâneo, que resiste às gravidades, e insiste
hipnótica, milimétrica, a murmuração destes ̌ ̌  estorninhos ̌  ̌̌̌̌ ̌
mas no avesso da pele, e com chifres
cuspindo fogo pelo rabo tipo uma centopeia tuning
txuca tuxaca cutacha tcha tcha
— tás encravada.
Vermes na sanita, à espera do autocarro
Ha-ha-ha o passe para uma wormification exorcisTa
e enquanto se fritam na esclera
e se roçam na lâmina de um samurai
vem o gosto de fim
que escorre para o fundo das virilhas
das axilas, e dos dedos
contornando os sinais
num slalom-lesma entre marcas
               de nascença
de vida
               de morte
de vida
               de nascença
de morte
até à confortável, para quem, penumbra.

 

 

 

Ary Zara

NOTA: Texto escrito tendo como base algumas transcrições diretas do processo de Diana Niepce, às quais foram adicionadas outras palavras, provocações e pensamentos.

 

 

"O termo polissémico e normalmente pejorativo na língua inglesa foi adoptado como título da sua mais recente criação. Hornfuckers é sobre as coisas que sabemos serem erradas, mas com as quais acabamos por compactuar "sobre como muitas vezes escolhemos ignorar o que não deve ser ignorado".

 

Camilo Soldado, Ípsilon - Público

Diana Niepce em conversa com Kate Marsh

>  Uma conversa informal sobre o processo de criação de Hornfuckers entre Diana Niepce, coreógrafa da peça e Kate Marsh, investigadora.

Hornfuckers n'O Projeto Invisível

Em Hornfuckers, Diana Niepce questiona aquilo que nos é imposto: normas, hierarquias, limites que se prendem tanto ao físico como ao imaginário. A peça, que cruza dança, performance e acrobacia aérea, opera num universo onde ordem e caos se encontram, onde o lirismo e a violência se confundem e onde os corpos resistem e se reinventam. Vamos ouvir a própria Diana a ler um excerto do seu texto Experimentar o Corpo, publicado no Jornal Coreia #3, onde surgem possíveis interpretações da palavra Hornfuckers, e também o que pode ser um pacto. Em simultâneo, ouvimos sons desenvolvidos por Gonçalo Alegria durante o processo de criação.

 

Sobre Diana Niepce


Diana Niepce é coreógrafa, bailarina, curadora e autora. Formou-se na Escola Superior de Dança, concluiu um programa Erasmus na Teatterikorkeakoulu, em Helsínquia, e possui um mestrado em Arte e Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa. É artista associada do Espaço do Tempo e criou várias obras, incluindo Forgotten Fog (2015), Raw a nude (2019), 12 979 Dias (2019), Dueto (2020), T4 (2020), Anda, Diana (Prémio SPA, 2021), The Other Side of Dance (2022), Enfreakment (2024), Utopia (2024), Norm (2024) e Hornfuckers (2026).

Como curadora, esteve envolvida no ciclo Political Bodies (2024, Culturgest) e no projeto Reunião (2025). Desenvolve também trabalho na área da formação e inclusão nas artes performativas, particularmente com artistas com deficiência, através de iniciativas como Fora da Norma (2023) e Norm (2023).

Como bailarina e intérprete, colaborou com vários artistas nacionais e internacionais. As suas publicações mais recentes incluem o conto infantil Bayadère (CNB), o livro Anda, Diana (Sistema Solar) e o conto «Broken and Smelly, Are the Stones.» para a Rota Memorial do Convento.

FICHA TÉCNICA

EDIÇÃO
Carolina Luz

TEXTO
Ary Zara

TRADUÇÃO
Joana Frazão

REVISÃO DE CONTEÚDOS
Catarina Medina

DESIGN E WEBSITE
Studio Macedo Cannatà & Queo

Cofinanciado pelo programa Europa Criativa da União Europeia, no âmbito do projeto Europe Beyond Access II

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