Que corpo tem uma cidade?
O que fortalece, ou por outro lado, o que enfraquece, os laços entre a população numa cidade?
Que habitação acessível, que novos espaços públicos e que veículos de representação, de ação social e de afirmação política para as cidades do futuro?
Com curadoria e moderação de João Seixas, o ciclo de conferências Genoma Urbano: Cidades como Organismos Vivos procura interligar as ciências para as questões urbanas com campos aparentemente distantes, como a biotecnologia ou as neurociências, pensamos as possibilidades e necessidades de construção de futuros urbanos mais justos e mais sustentáveis.
Neste microsite mergulhamos no tema através de exemplos práticos de projetos que têm sido aplicados em cidades e que têm dado resposta aos tempos de reorientações política e de crise quase permanente que vivemos e que têm colocado em causa o próprio direito à cidade.
"As cidades são construções contínuas de habitats, de agrupamentos de populações, num determinado espaço geográfico, onde ocorrem relações e intercâmbios da natureza mais diversa: de bens, serviços, conhecimentos, simbolismos, afetos, política."
- João Seixas
Superilles
A transformação do espaço público em Barcelona
Barcelona é um dos distritos de Espanha que mais sofre com pressão do tráfego motorizado, com elevados níveis de poluição atmosférica e sonora e escassez de áreas verdes. Essa realidade afeta diretamente a qualidade de vida de moradores, tornando necessária uma transformação do espaço público e da mobilidade urbana.
A proposta das Superilles procura reorganizar a mobilidade para reduzir o tráfego de veículos e criar uma rede de ruas verdes e novas praças. O objetivo principal é garantir que todos os moradores tenham uma praça ou rua verde a no máximo 200 metros de suas casas, ampliando significativamente os espaços de convivência, lazer e descanso, sobretudo na área central do distrito.




O projeto prevê a criação de 21 ruas verdes, no total de 33 km, e 21 novas praças localizadas principalmente nos cruzamentos, aproveitando o traçado urbano existente. Essas intervenções resultarão em 3,9 hectares de novos espaços públicos, além de 33,4 hectares de áreas prioritárias para pedestres e 6,6 hectares de novas áreas verdes urbanas, contribuindo para uma cidade mais sustentável, saudável e voltada às pessoas.
Caminhar como critério de qualidade urbana
um estudo sobre as necessidades de qualidade dos peões
O projeto Pedestrian Quality Needs (PQN), desenvolvido pela Walk21, parte de uma ideia simples: a qualidade de uma cidade mede-se pela experiência de quem caminha. Através da análise de estudos, dados e políticas existentes, o PQN procurou compreender o que realmente importa para os peões, indo além da infraestrutura física e incorporando factores como conforto, segurança, acessibilidade e perceção do espaço urbano.
O estudo mostrou que a capacidade de caminhar depende tanto de condições objetivas — continuidade dos percursos, segurança viária, desenho das ruas — quanto de dimensões subjetivas, como a sensação de bem-estar, atratividade e confiança no ambiente urbano. Ao sistematizar esses fatores, o PQN criou uma base comum para avaliar e comparar a qualidade do espaço pedonal em diferentes contextos urbanos.
Mais do que um exercício técnico, o PQN contribuiu para uma mudança de enfoque no planeamento urbano, reforçando a caminhada como um modo central de mobilidade e não apenas complementar. Os seus resultados apoiam políticas públicas e intervenções urbanas que colocam as pessoas no centro, promovendo cidades mais humanas, inclusivas e saudáveis.


Que habitação acessível, que novos espaços públicos e que veículos de representação, de ação social e de afirmação política para as cidades do futuro?
A Rede 1/4 propõe uma resposta simples e eficaz à crise de alojamento estudantil, ativando um recurso muitas vezes esquecido: quartos disponíveis em casas já habitadas. O projeto liga estudantes que procuram habitação acessível a pessoas e instituições com espaço livre, criando soluções mais próximas, económicas e ajustadas à realidade urbana.
Mais do que uma plataforma de arrendamento, a iniciativa promove um modelo baseado na confiança, na proximidade e na partilha, com valores abaixo do mercado ou em regimes solidários. Ao reutilizar o parque habitacional existente, a Rede 1/4 contribui para uma habitação mais sustentável, evitando a pressão sobre a construção e o mercado imobiliário.
Ao mesmo tempo, o projeto incentiva relações de convivência e apoio entre diferentes gerações, transformando o acesso à habitação numa oportunidade de inclusão social e reforço do sentido de comunidade.
Mais informações sobre o projeto da Universidade Nova de Lisboa.
Cenários para a Metrópole do Século XXI
O estudo sobre a Grande Paris procura compreender os desafios da metrópole contemporânea. O projeto analisa a cidade de Paris dentro do contexto do século XXI, destacando a necessidade de pensar diferentes cenários futuros diante de questões ambientais, sociais e urbanas. A cidade é comparada a outras metrópoles para evidenciar sua diversidade e superar uma visão limitada aos ícones históricos ou turísticos.
O artigo Le Grand Paris: International Consultation of research and development for the future apresenta três cenários principais para o futuro da cidade: o uso de energia 100% sustentável, a criação de um grande sistema de áreas húmidas com funções ecológicas, e a transformação do transporte em uma rede mais horizontal e integrada. Este mesmo projeto propõe ações estratéfica que articula e aplicam os censários de forma concreta no território.


Sobre João Seixas
João Seixas é professor universitário e investigador na NOVA FCSH, Lisboa. Tem vasta experiência nacional e internacional no ensino, investigação e consultoria sobre cidades e metrópoles, políticas urbanas e desenvolvimento urbano e territorial. Doutorado em Geografia (Universitat Autónoma de Barcelona) e Mestre em Urban and Regional Planning Studies (London School of Economics). Foi Pró-Reitor da Universidade NOVA de Lisboa para as áreas de Inovação Social e Territorial (2022–2025).
Foi comissário da Carta Estratégica de Lisboa, coordenador da reforma político-administrativa da capital portuguesa e curador da exposição Futuros de Lisboa. Tem sido consultor de várias instituições e projetos ligados a cidades e cultura urbana, nomeadamente para o programa URBACT da Comissão Europeia (2012–2017), Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012 e Estratégias para a Cultura da Cidade de Lisboa.
Autor de vários livros sobre cidades e desenvolvimento urbano, entre eles Lisboa em Metamorfose (2021), Projeções de Lisboa – Utopias e estratégias para uma cidade em movimento perpétuo (2018), Em Todas as Ruas (2015), A Cidade na Encruzilhada (2013) e Governação Urbana no Sul da Europa (2012). Cofundador da Livraria Ler Devagar e da Óbidos Vila Literária.
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