Repensar o refúgio

"O que está em causa não é tanto a fuga, mas sim o racismo sistémico.

(...) O que está a acontecer nas fronteiras da Ucrânia, onde estudantes negros terão sido impedidos de atravessar a fronteira por funcionários aduaneiros húngaros ou polacos, para mim, não é diferente do que aconteceu no início de 2017, em Itália, quando um jovem refugiado da Gâmbia se afogou em águas venezianas sob o olhar indiferente e sob os insultos de alguns locais."
Dénètem Touam Bona, maio 2022

A questão da fuga e a sua relação com os movimentos migratórios atuais

Quanto à diferença de tratamento entre os refugiados ucranianos e os que fogem dos conflitos no Iémen, na Síria ou no Sudão, o que está em causa não é tanto a fuga mas sim o racismo sistémico. Porque é que concedemos asilo a algumas vidas e a outras não? O enquadramento de uma fotografia constrói a percepção do que é fotografado: os termos “estrangeiro”, “muçulmano”, “africano”, “negro”, “árabe”, “islamista”, “traficante”, “terrorista”, “migrante”, “fluxo migratório”, “substituição em larga escala” formam uma rede flexível e modulável que, insidiosamente, impõe uma moldura ao nosso olhar. Construída histórica (heranças coloniais) e politicamente (a “identidade nacional” supõe uma homogeneidade, se não mesmo uma pureza da Nação), esta grelha de percepção, atribuindo ao outro uma identidade infame – por exemplo, a do “clandestino” que vive na sombra do crime – fecha-nos a nós próprios numa autoctonia fantasmática; em particular, a do europeu, do “branco”, do “cristão”. Em Frames of War: When Is Life Grievable?, Judith Butler mostra como certas vidas, certas populações, são consideradas dignas do nosso dó e, portanto, vistas como vivas e merecedoras de proteção; enquanto outras, as que são entendidas como indignas, são consideradas mortas ou mesmo ameaçadoras. O que está a acontecer nas fronteiras da Ucrânia, onde estudantes negros terão sido impedidos de atravessar a fronteira por funcionários aduaneiros húngaros ou polacos, para mim, não é diferente do que aconteceu no início de 2017, em Itália,

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Fonte: Texto de Dénètem Touam Bona

- Resumir

quando um jovem refugiado da Gâmbia se afogou em águas venezianas sob o olhar indiferente e sob os insultos de alguns locais. Teríamos deixado um jovem “branco” afogar-se? Na altura, veio-me logo à cabeça uma cena do Tarzan com Johnny Weissmüller (1932) em que um carregador negro cai numa ravina. Jane pergunta o que se passa e, um dos exploradores brancos responde-lhe que não é nada, foi só a farmácia que caiu... Isto corresponde exatamente ao que Hannah Arendt chamava a “banalidade do mal”: uma ausência de pensamento e empatia que permite a implementação das piores necropolíticas... Um dos símbolos da soberania de Tarzan sobre a selva e, portanto, do supremacismo branco, é a liana.  A este imaginário colonial e tóxico da liana costumo ripostar com aquilo a que chamo a “sabedoria das lianas”: uma sabedoria macaca que, longe de excluir a loucura – as macacadas, as paródias, as inversões e desvios carnavalescos –, a integra como ingrediente essencial do seu ensino.  Tomemos, por exemplo, o KRUMP. É preciso ver nas torções-contorções dos corpos e dos rostos desta dança urbana afro-americana uma forma de os niggers – que os brancos julgam denegrir associando-os aos macacos – converterem a dor da opressão na inservidão do riso. A sabedoria das lianas tem pouco a ver com o desenvolvimento pessoal ou com um enésimo elogio à inteligência das plantas, antes partilha com a marronnage o mesmo espírito rebelde e matreiro: é um apelo poético à subversão da ordem dominante.

Sobre Marronnage

"Para mim, marronnage não tem apenas a ver com as fugas individuais ou coletivas de escravizados/as, mas com formas mais amplas de resistência furtiva e criadora. Daí a minha utilização do termo francês “fugue”, que é distinto de “fuite” (em espanhol e em português, “fuga” traduz estes dois sentidos) e que, pelas suas conotações musicais, a sua ligação às polifonias e à arte das variações do barroco, permite destacar a dimensão criadora das linhas de fuga.
Fugir [fuir] não é necessariamente fugir de alguma coisa. Como mostra Deleuze, trata-se também de provocar uma fuga [faire fuir] num sistema como quem fura um cano. Basta pensarmos nos denunciantes que vazam [font fuiter], furtivamente, informações das multinacionais ou instituições onde trabalham. Quando o nosso corpo ou a nossa atenção constituem o combustível de um dispositivo de captura, quer este dispositivo seja esclavagista ou algorítmico, a deserção pode ter o alcance de um ato de sabotagem. Em suma, desenvolvo uma concepção ativa e criadora da “fuga” a partir da experiência histórica das marronages."
Dénètem Touam Bona
 
Para descobrir mais sobre A Arte da Fuga e sobre Quilombos Cosmopoéticos.

"A sabedoria das lianas tem pouco a ver com o desenvolvimento pessoal ou com um enésimo elogio à inteligência das plantas, antes partilha com a marronnage o mesmo espírito rebelde e matreiro: é um apelo poético à subversão da ordem dominante."

Sagasse des Lianes: Uma explosão de diversidade

A Sabedoria das Lianas é o mais recente trabalho criativo do filósofo que, numa exposição coletiva, mostra a singularidade do mundo por meio da pintura, escultura, fotografia e vídeo. 
"Sagesse des lianes", une expo afrodiasporique et cosmopoétique
Expo afrodiasporique et païenne "Sagesse des lianes" au Centre d'art et du Paysage de Vassivière

Sobre Dénètem Touam Bona

Nascido em Paris, de pai centro-africano e mãe francesa, Dénètem Touam Bona faz parte dos autores afropeus, de identidade fronteiriça, que procuram lançar passarelas entre mundos distorcidos, anda hoje, pela “linha de cor”.  Nas suas obras e projetos, a "marronnage" (a fuga e as artes de se esquivar dos escravos) torna-se um objeto filosófico por si só, uma experiência utópica a partir da qual pensar sobre o mundo contemporâneo. Colaborador regular do Institut du Tout-Monde (dedicado à obra de Edouard Glissant), curador e autor de três livros: Fugitif, où cours-tu? (2016), Cosmopoéticas do Refúgio (2020, Brasil) e Sagesse des lianes. Cosmopoétique du refuge (2021), nos últimos anos, tem colaborado regularmente em projetos criativos, principalmente como dramaturgo. Entre essas colaborações, destacam-se dois filmes com os realizadores Elisabeth Perceval e Nicolas Klotz: "L’héroïque lande" [a terra heroica] (3:45, Shellac, 2017) e “Fugitif, où cours-tu ?" [Fugitivo, para onde corres?] (84 ', Arte, 2018), dedicado à “selva" de Calais. Com o seu trabalho dramatúrgico junto do diretor martinicano Patrice Le Namouric (2019), Dénètem propôs uma leitura afrofuturista e distópica (antropoceno / fascista) de Calígula, a peça de Albert Camus. Em 2020, Dénètem abordou novamente a questão do Antropoceno e o sentido da vida através de uma colaboração com a coreógrafa da Ilha da Reunião, Florence Boyer. Através do seu trabalho dramatúrgico, mobilizou figuras como a trepadeira, a sombra, a aranha, garantindo que toda a peça se entrelaça-se num jogo de cordas acionado por corpos transfigurados. No seu último projeto de criação, "A sabedoria das lianas", uma exposição coletiva (19 de setembro de 2021 - 9 de janeiro de 2022) no Centre Internationale d'Art et du Paysage de Vassivière, da qual foi curador, Dénètem procurou implementar um "refúgio cosmopoético".

FICHA TÉCNICA

ORADOR
Dénètem Touam Bona

IMAGENS
Bárbara Chastanier, Elbadawi, fonte Unsplash

EDIÇÃO
Carolina Luz

TRADUÇÃO
Joana Frazão

REVISÃO CONTEÚDOS
Catarina Medina