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Cheguei até aqui e ainda não referi muitas das coisas que fazem desta exposição aquilo que é. Na primeira sala em que entramos há um bando de pedestais inclinados a cerca de 60 graus, cada um com um ovo em cima, dentro ou na sua lateral. Os ovos estão decorados de várias maneiras: cabelos de ouropel, orelhas de coelho, tinta de spray. Coletivamente, são uma flash mob que, depois de se reunir, faz uma pausa momentânea antes de começar a sua performance. São a primeira coisa que vemos nesta exposição – estão grávidos, mal disfarçados, atrevidos –, uma introdução ao tom do trabalho que encontraremos mais à frente.
Também há mais fotografias. Estas não surgem em conjuntos tão distintos como os descritos atrás. Desta vez, em cenários suburbanos. As figuras nas fotografias aparecem com riscas familiares, usando ou segurando máscaras em forma de ovo na frente do rosto, ligando as figuras nos pedestais da primeira sala às pessoas (?) que vemos aqui. Há uma estranha sensação de subjetividade nas figuras destas fotografias. Elas são tocadas por um leve absurdo. Ameaçam o biográfico, mas têm uma ponta de cartoonesco. Serão pessoas ou personagens? É uma questão para mim. As riscas e máscaras situam as figuras no mundo de BGSL e dos seus princípios vinculativos, ao mesmo tempo que as distanciam do retrato e/ou da natureza morta, mas, ao contrário dos outros corpos em pose, a câmara não as incomoda nem as anima.
Desenhos nas paredes, cerca de um por sala, representam esqueletos apertados dentro da barriga de uma cobra em vinhetas familiares da vida doméstica de um inquilino. As formas esqueléticas são importantes. São cómicas e mórbidas, como os esqueletos costumam ser, e mostram os efeitos da vida doméstica no corpo – as voltas e reviravoltas que nos são impostas quando nos acocoramos no interior das habitações, muitas vezes totalmente fortuitas, que transformamos nas nossas casas. Mas os esqueletos também são ótimos veículos para encenar as interações quotidianas dos meandros da coabitação. Na barriga de uma cobra, um esqueleto diz aos outros: “Acho que vou mudar de casa.” Noutro, um esqueleto pergunta: “O teu namorado já tem as chaves?” Noutros dois, um casal olha incrédulo para os objetos decorativos na parede, objetos entre os quais vivem, mas com os quais não têm qualquer relação: um símbolo da paz, a capa de um álbum dos Beatles. Noutro ainda, enquanto os joelhos de um esqueleto lhe pressionam o peito e a cabeça é pressionada em direção aos joelhos pelas paredes estreitas, estas palavras derramam-se da sua boca: “não olhem para mim...” É engraçado e é triste. É bonito e é triste. A privacidade é um luxo. O espaço é um privilégio. Mas aquilo que acontece quando não o temos também pode proporcionar momentos de alegria. A indistinção dos esqueletos torna uma coisa clara: a habitação é uma condição que estamos longe de ter aperfeiçoado. A cidade é um caos. Não conheço estes esqueletos, mas são meus.
#36 | Sara Graça | "Boa Good Sorte Luck" | 2025
Sobre Sara Graça
Com uma prática que se desdobra pelos mais diversos meios e disciplinas artísticas, o percurso de Sara Graça resiste à categorização, acolhendo inflexões inesperadas e renovando-se a cada nova obra, projeto ou série. Há, contudo, no seu trabalho uma inclinação para os materiais e para os estados periféricos: para coisas, instâncias ou situações que frequentemente descartamos porque se nos oferecem como marginais ou como escapando à retórica utilitarista que governa o nosso quotidiano. Não obstante, muitas das suas obras parecem-nos estranhamente familiares. Elas remetem, de forma mais ou menos direta, para referentes e circunstâncias que localizamos no nosso dia-a-dia, mas parecem requerer um código próprio, uma outra sintaxe, para processá-las e descrevê-las. Sara Graça terminou um MFA na Goldsmiths, em Londres, em 2024 e o seu trabalho foi integrado na última edição do New Contemporaries, o mais reconhecido evento britânico dedicado a artistas emergentes.
FICHA TÉCNICA
TEXTO
Cameron Lynch
EDIÇÃO
Carolina Luz
REVISÃO DE CONTEÚDOS
Catarina Medina
DESIGN E WEBSITE
Studio Macedo Cannatà & Queo






