O QUE SIGNIFICA
SER HUMANO?

Ao nível da superfície

por Cameron Lynch, 2025
A Sara convida-me para a inauguração da sua exposição Boa Good Sorte Luck na Culturgest, em Lisboa. Chego numa sexta-feira e passo lá o fim de semana. Como há tanto sol e tanta luz,  fico a pensar, enquanto me vejo a nadar rua afora, que as superfícies aqui, as fachadas, tendem a ser refletoras. As coisas cintilam. As imagens refletem-se e reproduzem-se acidentalmente. A rua torna-se rua infinita.
A imagem em movimento da cidade devolve-nos o olhar, e nós estamos nesse olhar, em tons de castanho escuro e prateado brilhante. Faz-nos atravessá-la. Nós não estamos presos no trânsito, nós somos o trânsito. Há também o mar, claro. Vou à praia na manhã seguinte à inauguração. Há tanto mar, e quando vamos à praia, só lhe conhecemos a superfície. E ainda assim parece tanto. Superfície infinita.

Horse Crazy

Isto já se tornou uma introdução longa, mas nos dias que antecederam a inauguração de Boa Good Sorte Luck, li Horse Crazy, o primeiro romance de Gary Indiana, de 1989. Digo “li”, mas, para citar Keith Ridgway no [The] Guardian em 2004, “Na verdade, não lemos Horse Crazy, mergulhamos nele, com a mesma mistura estranha de entusiasmo e desconforto com que imergimos na água do banho de outra pessoa.” Rio-me. Dá-me vontade de partilhar um banho.
Nadar pela cidade, num estado de imersão em Horse Crazy. Trata-se de um romance sobre dois nova-iorquinos na década de 1980 que parecem determinados a tornarem-se infelizes a si próprios e um ao outro. Foi a cidade que lhes fez isso. O modo como vivem na cidade, em casas que essencialmente lhes falham. Trabalhando em empregos que os enlouquecem para poderem pagar as casas que essencialmente lhes falham. Rodeados por um elenco de personagens que povoam as suas vidas e, muitas vezes, não por escolha própria. As pessoas com quem nos cruzamos, para o bem ou para o mal, na cidade. Estava a pensar em tudo isto ou estava naquele estado de imersão e caminhava por Lisboa e passava tempo na exposição da Sara e perguntava-me se estas condições da cidade não seriam tão críticas aqui como são no romance. Perguntei-me, até, se BGSL seria romanesca.
Pareceu-me importante, naquele momento, distinguir a atmosfera da exposição da de Horse Crazy, porque BGSL está repleta daquela vida da cidade que é autónoma, abundante e indeterminada, enquanto Horse Crazy é fatalista e cheio do seu mal-estar. O mecanismo central da exposição é uma série de rampas montadas a partir de sobras de MDF e aglomerado que nos levam a percorrer a galeria, numa divertida forma de ferradura. É divertido. Andar, correr, saltar para cima e para baixo nas rampas é divertido. Não é divertido pensar nos efeitos da diversão, mas um deles é a imersão. Nadar pela cidade, num estado de imersão em Horse Crazy, imerso em Boa Good Sorte Luck.

Inversões


Há duas figuras invertidas em lados opostos da galeria, apoiadas nas mãos. Uma delas segura com os pés, no ar, um painel de madeira, ou uma porta, ou algo do género. Estas figuras fazem-me refletir sobre as fábulas que conto de mim para mim, ou que a minha mãe me conta, ou que contamos um ao outro sobre episódios engraçados que me aconteciam em criança. Algures entre a vigília e o sono, eu fazia o pino, apoiado contra a parede do quarto dela, numa tentativa frenética, anunciava eu, de impedir que o céu nos caísse em cima. Que drama pré-newtoniano. Não tenho a certeza se aconteceu mesmo, se calhar uma vez, mas a história ficou-me gravada.
Inauguração Boa Good Sorte Luck © Elisa Azevedo
Inauguração Boa Good Sorte Luck © Elisa Azevedo
“Inversão” é uma palavra que significa muitas coisas em muitos contextos. Encobre a evasão fiscal quando usada em contextos empresariais ou, num passado não muito distante, descrevia tendências homossexuais – um invertido sexual. Hoje em dia, referir-se-á mais frequentemente a um tipo de postura de ioga. Acho que também é um tema recorrente em BGSL, mas ponho-me mais pensar em como, ultimamente, me tem entusiasmado uma sensibilidade, uma especificidade da dicção quando se lê ou se fala sobre arte. Estou a pensar aqui em Tina M. Campt quando falou numa entrevista à E-Flux em abril de 2017, com Arthur Jafa sobre o filme dele Love Is the Message, The Message Is Death, e na distinção que fazem entre motion e movement: “Movement significa mudar a posição de um objeto em relação a um ponto fixo no espaço; o foco está nesse espaço. Motion, por outro lado, é uma mudança na localização ou posição de um objeto em relação ao tempo”, diz Campt. Então, em busca de precisão, penso um pouco mais e pergunto-me se existe uma palavra que, como “inversão”, descreva uma atipicidade, uma reversão, mas que se possa referir exclusivamente ao ato de virar uma coisa do avesso. Porque é isso que começo a sentir, profundidades internas que vêm à superfície. Procuro-a. Eversão – o ato de revirar uma estrutura ou órgão de dentro para fora, ou do avesso.

Então, estas duas esculturas mais figurativas continuam a ser invertidas, enquanto noutras partes da exposição encontramos a eversão.
Inauguração Boa Good Sorte Luck © Elisa Azevedo
Inauguração Boa Good Sorte Luck © Elisa Azevedo

Eversões


Há uma série de cinco fotografias penduradas bem próximas umas das outras, com bastante espaço de ambos os lados da disposição, de modo que poderia haver muito mais espaço entre cada uma delas, se desejado (trata-se de um conjunto), ao longo da parede do fundo da terceira sala (a BGSL é sequencial) da galeria.
Só descobri literalmente nas últimas duas semanas que tenho afantasia, ou pelo menos hipofantasia, e pergunto-me como é que isso afeta a minha capacidade de descrever as coisas com alguma fidelidade, já que as suas imagens não são reproduzidas com precisão na minha mente, se é que o são sequer, e esqueci-me de tirar fotos, então aqui vai: são fotografias nítidas, a preto e branco, em grande plano, de pernas e pés de meias ou collants com um padrão às riscas ou de losangos. Não há inversões propriamente ditas, mas temos a sensação de que estes membros estão a tentar fazer certas posições, posturas ou, na verdade, poses. Em primeiro plano encontra-se em contacto com a relva do que parece ser um parque em Londres, onde a Sara vive. Não é a primeira vez que padrões repetitivos de dois tons aparecem no trabalho da Sara (veja-se a sua exposição de graduação do MFA da Goldsmiths no ano passado), e há algum tempo que tenho curiosidade em saber porque é que parecem ser importantes para ela.

 

Pelas minhas modestas experiências, sei que se formos ao Photoshop e “invertermos” uma imagem, as cores serão transformadas nos seus opostos relativos. Roxo passa a amarelo, verde a vermelho, etc.
Se a imagem que invertermos for a preto e branco, o que acontece é uma espécie de “filtro de raios X”, semelhante aos que se podia encontrar em aplicações antigas do iPhone que imitavam negativos fotográficos, dando a impressão de que estamos através da superfície da coisa em questão. As inversões a preto e branco tornam-se eversões – menos uma troca de cores e mais uma transformação do claro em escuro e do escuro em claro. No entanto, nesta série de fotografias a preto e branco, nas repetições uniformes de riscas e losangos, que rima com a insistência dos edifícios que se erguem para o céu atrás delas, torna-se pouco claro o que é o negativo e o que é o positivo, por assim dizer.

Os padrões de dois tons no trabalho de Sara, o seu efeito de eversão nas imagens em que aparecem, criam um deslizamento entre o dentro e o fora, um deslizamento entre superfície e interior. O facto de as fotografias terem como pano de fundo o motivo da cidade faz-me pensar em como um ser na cidade é tanto um ser dentro como um ser fora. Um ser ao mesmo tempo inteiramente imerso na sua totalidade, e depois quase completamente excluído dos seus espaços, seja porque são “privados”, seja porque são simplesmente demasiados para uma pessoa os poder visitar. 

 

Na cidade, onde é que terminam as superfícies e onde é que começam? Nós não estamos na cidade, nós somos a cidade.
Inauguração Boa Good Sorte Luck © Elisa Azevedo
Inauguração Boa Good Sorte Luck © Elisa Azevedo
Inauguração Boa Good Sorte Luck © Elisa Azevedo
Inauguração Boa Good Sorte Luck © Elisa Azevedo
Este deslizamento é desenvolvido noutro momento da exposição, em que um grande tecido às riscas cor-de-rosa e pretas embrulha uma protuberância esférica numa das extremidades, depois atravessa um buraquinho numa das paredes da exposição e emerge outra vez para sustentar uma coluna instável, precariamente inclinada em contrapeso. As riscas parecem ser a única coisa que mantém unida esta construção montada à pressa. A fachada vêm à superfície enquanto infraestrutura. O padrão é essencial.

Centrífuga


Não são só as rampas que nos põem a dar voltas em BGSL. No meio da ferradura há uma centrífuga, um vídeo que opera várias magias. No vídeo, a câmara subjetiva segue uma curiosa trajetória de voo, planando em torno de um eixo orbital e percorrendo também uma rota mais linear, como um avião a fazer loopings pelo céu, com ineficiência intencional, do ponto A ao ponto B. Este movimento perfeito até parece falso, de tão perfeitamente que a câmara gira, causando uma leve náusea ao espectador. E essa náusea parece outro momento em que a distância crítica necessária à condição de espectador se dissolve. Raramente temos a oportunidade, em BGSL, de ficarmos quietos e organizarmos os nossos pensamentos. Fico a saber que o vídeo foi filmado com um telemóvel preso aos raios de uma roda de bicicleta. No caso desta magia, acho que ficar a saber como é que o truque funciona não a prejudica em nada. A lente fixa-se nas pernas que se agitam pela cidade. Dançando para continuar no enquadramento, como se sair dele fosse cair da borda da terra. Será que a lente se fixa nas pernas, ou será que as pernas se fixam na lente? O que é que elas sabem uma da outra? Que dança é esta? A cidade passa, mas nós permanecemos situados, não num lugar, mas num conjunto recorrente de pernas determinadas, nas miríades de micro-interações que elas atravessam. Talvez esses movimentos [motions and movements] no vídeo sejam uma das coisas que me fazem pensar se BGSL tem algo de romanesco – a sua capacidade de se concentrar no singular enquanto desenvolve a presença de algo vasto e vivo para lá do enquadramento, para lá do momento individual imediato da imagem. Penso no efeito borboleta: o modo como, por um efeito dominó, pequenas ações podem ter consequências maiores e imprevisíveis. Penso nas mudanças que esta dança provocou na cidade.

<3


Cheguei até aqui e ainda não referi muitas das coisas que fazem desta exposição aquilo que é. Na primeira sala em que entramos há um bando de pedestais inclinados a cerca de 60 graus, cada um com um ovo em cima, dentro ou na sua lateral. Os ovos estão decorados de várias maneiras: cabelos de ouropel, orelhas de coelho, tinta de spray. Coletivamente, são uma flash mob que, depois de se reunir, faz uma pausa momentânea antes de começar a sua performance. São a primeira coisa que vemos nesta exposição – estão grávidos, mal disfarçados, atrevidos –, uma introdução ao tom do trabalho que encontraremos mais à frente.
Também há mais fotografias. Estas não surgem em conjuntos tão distintos como os descritos atrás. Desta vez, em cenários suburbanos. As figuras nas fotografias aparecem com riscas familiares, usando ou segurando máscaras em forma de ovo na frente do rosto, ligando as figuras nos pedestais da primeira sala às pessoas (?) que vemos aqui. Há uma estranha sensação de subjetividade nas figuras destas fotografias. Elas são tocadas por um leve absurdo. Ameaçam o biográfico, mas têm uma ponta de cartoonesco. Serão pessoas ou personagens? É uma questão para mim.  As riscas e máscaras situam as figuras no mundo de BGSL e dos seus princípios vinculativos, ao mesmo tempo que as distanciam do retrato e/ou da natureza morta, mas, ao contrário dos outros corpos em pose, a câmara não as incomoda nem as anima.
Desenhos nas paredes, cerca de um por sala, representam esqueletos apertados dentro da barriga de uma cobra em vinhetas familiares da vida doméstica de um inquilino. As formas esqueléticas são importantes. São cómicas e mórbidas, como os esqueletos costumam ser, e mostram os efeitos da vida doméstica no corpo – as voltas e reviravoltas que nos são impostas quando nos acocoramos no interior das habitações, muitas vezes totalmente fortuitas, que transformamos nas nossas casas. Mas os esqueletos também são ótimos veículos para encenar as interações quotidianas dos meandros da coabitação. Na barriga de uma cobra, um esqueleto diz aos outros: “Acho que vou mudar de casa.” Noutro, um esqueleto pergunta: “O teu namorado já tem as chaves?” Noutros dois, um casal olha incrédulo para os objetos decorativos na parede, objetos entre os quais vivem, mas com os quais não têm qualquer relação: um símbolo da paz, a capa de um álbum dos Beatles. Noutro ainda, enquanto os joelhos de um esqueleto lhe pressionam o peito e a cabeça é pressionada em direção aos joelhos pelas paredes estreitas, estas palavras derramam-se da sua boca: “não olhem para mim...” É engraçado e é triste. É bonito e é triste. A privacidade é um luxo. O espaço é um privilégio. Mas aquilo que acontece quando não o temos também pode proporcionar momentos de alegria. A indistinção dos esqueletos torna uma coisa clara: a habitação é uma condição que estamos longe de ter aperfeiçoado. A cidade é um caos. Não conheço estes esqueletos, mas são meus.
Inauguração Boa Good Sorte Luck © Elisa Azevedo
Inauguração Boa Good Sorte Luck © Elisa Azevedo
Inauguração Boa Good Sorte Luck © Elisa Azevedo
Inauguração Boa Good Sorte Luck © Elisa Azevedo
Inauguração Boa Good Sorte Luck © Elisa Azevedo
Inauguração Boa Good Sorte Luck © Elisa Azevedo

A minha própria barriga de cobra
 

Horse Crazy e Boa Good Sorte Luck podem ambos fervilhar de vidas urbanas angustiadas, mas as figuras que encontramos em cada um deles são muito diferentes. A dupla protagonista/antagonista em Horse Crazy, que fica obcecada em habitar e espalhar a sua infelicidade, fá-lo porque se está a afogar numa certa corrente daquela cidade. A cidade consome-os. Eles estão privados do seu potencial de simbiose com ela, de interferir com repercussões pessoais de propósito, prazer e alegria. Por fim, tornam-se entrópicos e desaparecem nela. Parece que era apenas uma questão de tempo. Não é isso que encontramos em BGSL. Em BGSL, encontramos uma força vital que irradia de múltiplas fontes distintamente não-épicas ou anti-heróicas (não tem pretensão a fazê-lo, fá-lo simplesmente), que não luta contra a cidade, mas encontra antes maneiras de viver nela, de viver com ela. Não há personagem principal nesta história, que também é anti-heróica, apenas uma força vital.
Deixo as superfícies refletoras de Lisboa para regressar às janelas com cortinas e persianas de Amesterdão. Estas cortinas e persianas não servem para impedir a entrada da luz solar, mas para manter o que está dentro no interior, onde deve estar, longe de olhares curiosos. Em Amesterdão, na cidade, somos um par de olhos a evitar. Um corpo distinto dos outros. Uma força a ser dissipada. Subo a custo as minhas escadas perigosamente íngremes e abro a porta da minha própria barriga de cobra. Os meus amigos estão em casa. Há café quente no fogão. Tenho um texto para escrever.

Cameron Lynch

Cameron Lynch vive em Dublin, é artista e trabalha na área da escrita, com especial interesse rotineiro por lapsos. Fica contente se um lapso ocorrer como resultado do seu trabalho. Algumas tentativas são feitas de forma grosseira através de intervenções no horizonte do objeto, outras são feitas no tempo como parte da dupla performática Autism Controller com a colaboradora Inka Hilsenbek, e outras ainda através do meio da palavra escrita fictícia.

 

ca·sa·-for·te nome feminino Compartimento muito seguro, de banco ou empresa, onde se guardam dinheiro, documentos ou objectos de valor.
#36 | Sara Graça | "Boa Good Sorte Luck" | 2025

O Projeto Invisível #9

9. No limite do sono

Da janela em Londres, quando o sono não chega, a artista Sara Graça grava o que a noite lhe devolve: pássaros e aviões a cruzarem o céu. É o espaço urbano como ecossistema: o natural e o artificial a chocarem, a coexistirem. Nesta faixa, o que escutamos é o limiar entre descanso e vigília, entre a intimidade e o voyeurismo. O som do amanhecer lembra-nos que há sempre vida em movimento, mesmo quando tudo parece suspenso.

 

Sobre Sara Graça

Com uma prática que se desdobra pelos mais diversos meios e disciplinas artísticas, o percurso de Sara Graça resiste à categorização, acolhendo inflexões inesperadas e renovando-se a cada nova obra, projeto ou série. Há, contudo, no seu trabalho uma inclinação para os materiais e para os estados periféricos: para coisas, instâncias ou situações que frequentemente descartamos porque se nos oferecem como marginais ou como escapando à retórica utilitarista que governa o nosso quotidiano. Não obstante, muitas das suas obras parecem-nos estranhamente familiares. Elas remetem, de forma mais ou menos direta, para referentes e circunstâncias que localizamos no nosso dia-a-dia, mas parecem requerer um código próprio, uma outra sintaxe, para processá-las e descrevê-las. Sara Graça terminou um MFA na Goldsmiths, em Londres, em 2024 e o seu trabalho foi integrado na última edição do New Contemporaries, o mais reconhecido evento britânico dedicado a artistas emergentes.

FICHA TÉCNICA

TEXTO
Cameron Lynch

EDIÇÃO
Carolina Luz

REVISÃO DE CONTEÚDOS
Catarina Medina

DESIGN E WEBSITE
Studio Macedo Cannatà & Queo