La Ribot & Dançando com a Diferença

Happy Island
© Raquel Freire. Retrato Barroco.

Às vezes, os encontros menos esperados transformam-se em momentos de exceção. É o que acontece na ilha feliz que a coreógrafa La Ribot e a cineasta Raquel Freire criaram com os bailarinos da companhia de dança inclusiva Dançando com a Diferença: “Imagine um território cortado do mundo, com suas próprias regras, onde a diferença de cada um é o elemento que os une e que define o modo de viver em comunidade. Neste lugar, a constituição do que nos define como pessoas foi preservada do julgamento da comparação” (La Ribot).

Criada em 2001 na Madeira, a Dançando com a Diferença tem-se destacado pela disseminação do conceito de dança inclusiva e por promover a colaboração de pessoas com e sem diferença. Sob a direção artística de Henrique Amoedo, o grupo tem apresentando trabalhos de coreógrafos como Paulo Ribeiro, Rui Horta, Clara Andermatt, Rui Lopes Graça e Tânia Carvalho.

As obras de La Ribot caracterizam-se por fazer confluir a dança contemporânea com a performance, as artes visuais e o vídeo.

23 NOV 2018
SEX 21:00

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Grande Auditório
12€ (descontos)
Duração 70 min
M/14

Apoio

Antena 2

COREOGRAFIA

Conceção, direção, caracterização, figurinos

La Ribot

Coreografia

La Ribot com Bárbara Matos, Joana Caetano, Maria João Pereira, Sofia Marote, Pedro Alexandre Silva

Assistente de coreografia

Telmo Ferreira

Desenho de Luz, operação, direção técnica

Cristóvão Cunha

Colaboração artística e direção de entrevistas

Josep-María Martín

Participantes nas entrevistas

Emília Monteiro, Maria João Pereira, Bárbara Matos, José Figueira, Joana Caetano, Pedro Alexandre Silva

Música

Francesco Tristano, Jeff Mills, Archie Shepp, Oliver Mental Grouve, Atom tm, Raw C + Pharmakustik

Confeção dos figurinos e costura

Laurence Durieux, Teresa Neves

Direção de produção

Henrique Amoedo, Paz Santa Cecilia

Produção executiva

Diogo Gonçalves, Paz Santa Cecilia

Produção

Dançando com a Diferença, La Ribot

Coprodução

Le Grütli - Centre de Production et de Diffusion des Arts Vivants, Festival La Bâtie, Centre National de la Danse, Comemorações dos 600 anos do Descobrimento da Madeira e do Porto Santo

Apoio

Fondation Ernst Göhner, Acción Cultural Española, NAVE

 

 

FILME

Conceito

La Ribot, Raquel Freire

Realização

Raquel Freire

Coreografia e figurinos

La Ribot

Assistente de coreografia

Telmo Ferreira

Intérpretes

Aléxis Fernandes, Bárbara Matos, Bernardo Graça, Cristina Baptista, Diogo Freitas, Filipa Vieira, Isabel Teixeira, Joana Caetano, José Figueira, Lígia Rosa, Maria João Pereira, Natércia Kuprian, Nuno Borba, Pedro Alexandre Silva, Rui João Costa, Sara Rebolo, Sofia Pires, Sofia Marote, Telmo Ferreira, Teresa Martins, Vittória Vianna

Câmera

Raquel Freire, Valérie Mitteaux

Edição

Raquel Freire

Assistente de realização

Valérie Mitteaux

Direção de produção

Henrique Amoedo, Paz Santa Cecilia

Produção executiva

Diogo Gonçalves, Paz Santa Cecilia

Dançando com a Diferença

Presidente da Direção

Telmo Ferreira

Direção Artística

Henrique Amoedo

Produção Executiva E Comunicação

Diogo Gonçalves

Apoio à produção

Nuno Borba, Natércia Kuprian, Mariana Valente e Sara Valente

 

Dançando com a Diferença é uma estrutura financiada pela República Portuguesa / Direção Geral da Artes, Governo da Madeira / Secretaria Regional de Educação e Secretaria Regional do Turismo e Cultura

 

 

La Ribot Cie

Direção Artística

La Ribot

Produção Executiva

Paz Santa Cecília

Produção e Comunicação

Sara Cenzual

Administração

Gonzague Bochud

Direção Técnica

Marie Prédour

 

La Ribot – Genebra tem o apoio de Ville de Genève, République et Canton de Genève, Pro Helvetia Fondation Suisse for Culture. La Ribot é uma artista associada ao CN D, Centre national de la Danse, Paris

Mais Sobre Happy Island

Digressão Happy Island

23.11.2018
Culturgest (Lisboa)

17-18.11.2018
Teatro Viriato (Viseu)

12-14.09.2018
Festival IDEM — La Casa Encendida (Madrid)

12-14.09.2018
Festival de la Bâtie — Le Grütli (Genebra)

 

Pessoal Específico *

texto de Claudia Galhós

Olhar mais atentamente. Ver para além da historiografia dos gestos do quotidiano que já ganharam estatuto de arte, num movimento de permanente ruptura, que sugere uma implicação nesse olhar, e na escuta, para ir além do cair, do andar, do tropeçar, do sentar, do correr, do abraçar... Olhar mais atentamente. Pousa realmente o olhar nesse gesto rebelde que diz da impossibilidade de ser domado. É nesse sentido que Henrique Amoedo tem pensado a companhia Dançando com a Diferença. Sem concessões nem facilitismos. Por isso o pensamento artístico levou-o a desafiar La Ribot a encontrar o grupo. É nesse encontro, acto de comunhão na liberdade reivindicada, que percebemos essa Happy Island que La Ribot criou com os bailarinos da Dançando com a Diferença, filme de Raquel Freire e assistência coreográfica de Telmo Ferreira. Diz que esta é uma companhia de dança inclusiva, com uma maioria de bailarinos com Síndromne de Down, mas... Olhar mais atentamente. Este é um encontro de pessoas e lugares específicos, formulando um novo género de site-people-specific, dando continuidade mas aprofundando uma linha de pesquisa que reconhecemos a La Ribot, onde o profundamente humano desafia o profundamente artístico, tocando-se numa intimidade assombrosa do profundamente delirante. Em Happy Island, há pessoas que são lugares e lugares que são pessoas e no encontro, ou tensão, entre os dois gera-se ficção, mito, lenda. E nunca saímos do real. Nunca abandonamos as pessoas, em riso e em lágrimas. Nunca saímos do Fanal, o vertiginoso ponto mais alto da floresta do Funchal, onde o céu parece tocar as entranhas da terra – é isso também que vemos no filme de Raquel Freire, assim como a comunidade alargada de toda a companhia de dança em festa de expressão do sentir sensual. Entramos no túnel, por essas estradas rompidas à natureza, para baralhar os sentidos. Real-imaginário-specific. É nesse paradoxo temporal e imagético também que se move o acontecimento ao vivo e o filme projectado, onde animal e humano se cruzam no corpo e no acto que tem tanto de sexual, orgíaco como simplesmente... é... ou simplesmente dispõe-se a ser e estar no movimento mais mínimo da expressão pessoal. Pessoal Specific. Olhar mais atentamente. Para Maria João Pereira constituir-se enquanto arte viva, em cena, tem a duração expandida e trémula de prender o cabelo num rabo de cavalo, largar a cadeira de rodas e descer ao chão. E depois deixar-se ficar, estendida de lado, a tremer. Quantas peças de dança contemporânea exploram as intensidades perturbadoras do corpo trémulo, que se desfaz e refaz continuamente? A pessoa é, aqui, um 'site specific' e o lugar que assim se constitui é fortemente subjectivo e constituído de fábula. No encontro delirante de todas estas particularidades e La Ribot gera-se um novo gesto, que na verdade é apenas evidência de algo que já existia nas suas obras e é apenas evidência de algo que já pulsava naqueles corpos – de Bárbara Matos, Joana Caetano, Sofia Marote, Pedro Alexandre Silva, Maria João Pereira. Por isso novamente ready made. O real-imaginário-pessoal-specific-ready-made. E Duchamp novamente. O real tornado arte e a arte que, na depuração sensível do encontro com o outro, dá a ver o real que antes passava despercebido. Olhar mais atentamente. Profundamente humano, profundamente conceptual, profundamente orgânico, profundamente geométrico, profundamente narrativo e ficcional, profundamente abstracto e depurado. Kitch, mitológico, sexual, cabarético e geométrico. A ilha é o lugar da fantasia mas a fantasia é o lugar de expressão livre de cada um e cada um é essa ilha que aparenta ser uma pintura à mão de uma paisagem, de floresta mergulhada em bruma, que recebe o público no início do espectáculo para, mais tarde, descobrirmos que o seu isolamento é integrador de múltiplos conteúdos internos e profundamente relacional. Ilha e pessoa confundem-se. E todas as fábulas que habitam dentro dos dois. E assim fantasia e real aproximam-se de um sonho vivido e sonhado. O que existe e o que é dado a ver em Happy Island é testemunho de vida e de arte. Specific. Olhar mais atentamente.

 

*texto escrito segundo o antigo Acordo Ortográfico

Reportagem RTP Madeira – Happy Island
Reportagem RTP Madeira – Happy Island
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