A HISTÓRIA PROJETADA NO FUTURO

Impérios não são coisa do passado. 

O conceito é geralmente pensado à luz das heranças deixadas por estes domínios. As camadas históricas que projetam no futuro estão em discussão no ciclo de conferências da Culturgest, mas também neste microsite e n'O Projeto Invisível.

Três perguntas de José Neves a Yuri Slezkine

A obra mais recente de Slezkine serviu como ponto de partida para uma entrevista de José Neves com o autor de The House of Government. Uma conversa sobre impérios, a União Soviética e a casa que alojou a elite dirigente do Partido Comunista Soviético no início da década de 30.

José Neves (JN): E o conceito de império? Há grandes discussões sobre o modo como o conceito pode, ou não, aplicar-se aos impérios informais do séc. XX, como os Estados Unidos. Ou se pode servir para salientar a continuidade entre a Rússia como império e a União Soviética. Como director do Institute of Slavic, East European and Eurasian Studies em Berkeley, um instituto de estudos sobre a Eurásia, como se posiciona neste tipo de debate?

Yuri Slezkine (YS): Bom, isso depende, obviamente, do modo como se definem as coisas. O problema com a palavra ‘império’ é o facto de ser tantas vezes usada de modo pejorativo. Império significa algo muito grande e muito mau. Não é um bom ponto de partida. Ainda assim, pode ser útil. Os Estados Unidos são, maioritariamente, definidos como um império. Quer dizer, os impérios são diferentes em forma e em conteúdo. Quando comparados aos estados-nação, são por norma vistos como algo internamente diferente, expansivo, com estatutos jurídicos diferentes alocados a grupos diferentes, e assim por diante. Acho que é útil, pelo menos em conversa, referir-me aos Estados Unidos como um império.

E aqui estamos a falar inglês, uma língua estrangeira para ambos. Por que razão falamos essa língua? Porque é o que sucede com as línguas imperiais. Recordo o que me disse alguém que conheci em Moçambique, um funcionário local de uma cidade pequena: “Tivemos tanto azar! Do outro lado da fronteira as pessoas tiveram que aprender uma língua europeia, mas ao menos é uma língua necessária em todo o lado. E nós aqui em Moçambique... Que raio, quem precisa de português?” Tenho ouvido dizer isto a todo o tipo de pessoas na esfera pós-comunista e pós-soviético sobre a língua russa e o dever desagradável de aprender russo. O russo era a língua do Império Soviético, hoje visto como obsoleto. O inglês é a primeira língua franca universal na história do mundo. Os Estados Unidos são o primeiro império verdadeiramente global; controlam as finanças do mundo, o curso da informação, as guerras e quase tudo o resto. É assim que penso no meu percurso pessoal. Sou russo e sinto isso muito intensamente, mas quanto mais próximo se está do centro do império, mais se sente que é aí que está a acção. E é interessante estar aí; faz sentido ver as coisas por esse prisma.

“Os Estados Unidos são, maioritariamente, definidos como um império. Quer dizer, os impérios são diferentes em forma e em conteúdo. Quando comparados aos estados-nação, são por norma vistos como algo internamente diferente, expansivo, com estatutos jurídicos diferentes alocados a grupos diferentes, e assim por diante."

Yuri Slezkine em entrevista a José Neves

JN: Ao mesmo tempo, em parte do seu trabalho, há assuntos que tratou, que são assuntos em movimento. Considera de modo muito sugestivo o facto de durante todo o período entre guerras os judeus terem ido para os Estados Unidos, para o Oriente Médio, mas também para Moscovo. Este seu livro The Jewish Century tem alguma ligação com a sua trajectória pessoal?

YS: Sim, gosto de contar esta história. Não me lembro que idade tinha quando um dia cheguei a casa e disse ao meu pai: “O Mishka Ryzhevsky do apartamento 13 é judeu!” E o meu pai respondeu: “Bom, deixa-me contar-te uma coisa...”. Ou qualquer coisa assim. Os pais da minha mãe vieram da Argentina para a União Soviética para construir o Socialismo. Eram originalmente judeus polacos-lituanos e foram para Birobidzhan, a República Autónoma Judaica na fronteira chinesa, e depois para Moscovo. Mais tarde, o meu avô foi preso e libertado, foi para a guerra e foi morto; assim, ao invés de ser a mulher de um inimigo do povo, a minha avó tornou-se a viúva de um herói de guerra. O meu pai, por outro lado, vem da nobreza. O seu pai era um escritor de ficção, mas o avô era general do Exército Imperial, assim como o seu tio-avô, bisavô e trisavô. Tanto quanto sabemos, todos foram oficiais do exército. Lembro-me, pelas fotografias de infância, dos antepassados do meu pai com bigodes e suíças notáveis, capacetes e dragonas. Um regalo para a vista. Mas é curioso que, enquanto crescia na União Soviética, não me importava com meus antepassados aristocráticos. Tinha muito apreço pela família da minha mãe pela sua associação a ironia, inteligência e oposição. Só mais tarde, quando emigrei, é que percebi quão russo era.

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Para além das lembranças enternecedoras da minha avó e do seu mundo, nada restava da judaicidade. Mais tarde, ao olhar para trás, para os anos de liceu e de faculdade, apercebi-me de que a esmagadora maioria dos meus amigos e dos amigos dos meus pais eram de etnia judaica. Eram quase todos anti-soviéticos. E eram, todos eles, membros da elite intelectual soviética. Só mais tarde percebi quão interessante era o facto de ali estarem judeus e anticomunistas, quase todos eles com avós comunistas judeus. E então surgiu a pergunta: como se vai de avós comunistas para netos anticomunistas, sem que ninguém se pergunte como isso aconteceu? Essa foi uma das inspirações originais para escrever o livro. Mas a verdade é que comecei a escrever The House of Government – a casa onde a maioria dos membros da elite política soviética morava na década de 1930 antes de ser morta – há vinte anos. E encontrei tantos judeus nesse prédio! E não só havia imensos, como agiam de modo distinto da maioria dos outros comunistas, já que eram muito mais consistentes no seu internacionalismo. Os comunistas polacos ou letões podiam considerar-se comunistas, mas ao mesmo tempo consideravam-se também letões ou polacos; liam Mickiewicz aos seus filhos, cantavam canções da Letónia e por aí fora. Os judeus fizeram questão de não fazer nada disso, internacionalismo significava internacionalismo. Nessa altura, não perceberam que isso significava tornarem-se russos, porque o russo era a língua do internacionalismo (como o inglês é hoje em dia a língua do intercâmbio académico). Para acabar de responder à sua pergunta, foi nesse ponto que descobri, ou pensei ter descoberto, que não houve duas grandes migrações na história judaica do séc. XX (uma, muito pequena mas altamente política, para a Palestina; e uma outra, muito grande mas não especialmente política, para a América). Mas houve uma terceira! Tão politizada quanto a da Palestina e tão grande quanto a da América. Essa migração foi para Moscovo, para o Comunismo, um movimento monumental em dimensão e incrivelmente importante no início da História Soviética. Não é uma história fácil de contar, nem uma história que agrada a toda a gente. Mas por que razão havíamos de contar histórias que agradam a todos? Qual é o sentido?

JN: Também não é uma história fácil de contar por causa da relação soviética com o anti-semitismo, certo? Quero dizer, no princípio não havia sinais anti-semitas, diria eu, mas depois da Segunda Guerra Mundial houve.

YS: Até mesmo antes. É difícil, precisamente porque dá crédito a uma das mais odiosas imposturas nazis, os Jewish commissars. Mas é verdade que a elite do partido soviético era substancialmente judia. Ou melhor, como grupo etno-religioso, os judeus estavam super-representados na elite soviética, muito mais do que qualquer outro grupo. E esta história é interessante e digna de ser contada sem rancor e sem polémicas, como uma simples história. Como uma história trágica, não muito diferente da história de The House of Government, um conto de idealismo algo falhado. O estado soviético tinha uma política rígida de luta contra o anti-semitismo, que aplicava de forma consistente desde o início. As coisas começaram a mudar no final da década de 1930, e isso teve que ver com a ascensão Nazi. Quando as convicções de Estaline começaram a mudar, ele livrou-se de Litvinov, o Ministro dos Negócios Estrangeiros de etnia judaica, e nomeou Molotov. Começou a expurgar certas instituições a um ritmo lento mas categórico, em particular o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Mais tarde, as coisas mudaram radicalmente durante, e imediatamente após, a guerra de um modo que provavelmente conhece ou poderá facilmente imaginar; concretizando-se tudo após a criação do Estado de Israel, quando os judeus que não tinham sido atingidos durante o Grande Terror se tornaram um alvo, como foi o caso dos polacos, alemães, letões e muitos outros. Noutras palavras, eles juntaram-se às nacionalidades que eram consideradas potenciais quintas-colunas dentro da União Soviética. Isto sucedeu quando Estaline lançou sua campanha anti-semita, que não durou muito. Este estado de coisas terminou, mais ou menos, com sua morte, mas certas restrições à mobilidade ascendente judaica voltaram na década de 1960 e permaneceram até o fim da União Soviética. Medidos em termos de número de doutorados, profissionais, pessoas com educação superior, membros da elite intelectual, artística e científica, os judeus eram ainda, para todos os efeitos, o grupo etno-religioso de maior sucesso na União Soviética. Mas sua mobilidade contínua, e sua presença dentro dessa elite foram limitadas por um Estado Soviético determinado a promover outros. E isso, é claro, resultou em muita amargura e infelicidade.

- Resume

The House of Government

A obra The House of Government publicada por Yuri Slezkine, em 2017, investiga a história de um edifício que foi projetado no final dos anos 20 e início dos anos 30 do século XX, que se destinou a albergar a elite dirigente (e as suas famílias) do Partido Comunista Soviético. Um livro que acompanha as histórias das famílias que habitaram o edifício - considerado o maior da Europa até à data - e as tensões inerentes ao período de transição para uma nova organização da sociedade e do modo de vida.

 

"A Casa tornou-se a morada dilecta da aristocracia soviética, albergando Svetlana, a filha de Estaline, Nikita Khrushchev, o marechal Zhukov, o arquitecto Iofan, Alexei Kosygin, Georgi Dimitrov, Bukharine, muitos outros. Os residentes eram divididos em "membros da nomenklatura" (com os apartamentos mais espaçosos e comodidades exclusivas), "pensionistas" (reformados da nomenklatura) e "não-membros da nomenklatura", o que incluía o pessoal doméstico, antigos operários da Casa premiados com apartamentos mais modestos, entre outras categorias minuciosamente estipuladas. A hierarquia, porém, não era inteiramente rígida, registando-se casos de déclassement, em que os moradores eram obrigados a mudar para casas mais pequenas, e outros de inexplicável ascensão, ditada por corrupção e compadrio na gestão do imóvel. Estaline recebeu centenas de pedidos de transferência para apartamentos melhores. Analisava-os pessoalmente, um a um, chegando a demorar um ou dois anos a responder.

 
Em 1932, o prédio tinha 2745 residentes e um exército de servidores a tempo inteiro estimado entre 600 e 800 pessoas: 128 guardas, 34 bombeiros, 23 zeladores, sete especialistas em desinfestações, etc. (além, claro, das empregadas domésticas de cada família). Só administradores eram 57, com os mais variados pelouros."

 

Artigo de opinião "A Casa da Rússia", 
de António Araújo

Facing Stalingrad é o projeto de Jochen Hellbeck dedicado a preservar e explorar as memórias de veteranos alemães e russos que estiveram na batalha de Estalinegrado. Descubram aqui o site que "ilustra memórias concorrentes da batalha e proporciona-nos duas culturas vivas e divergentes de memória".

The Volgograd Memorial, Rússia. ©DR.
The Volgograd Memorial, Rússia. ©DR.
The Volgograd Memorial, Rússia. ©DR.
The Volgograd Memorial, Rússia. ©DR.

O Projeto Invisível #3 / 2. For Real

A jornalista Maria João Caetano volta a escrever nas páginas desta revista, desta feita à procura dos despojos dos impérios. E encontrou a Patrícia, o Carlos e a Paula, em Lisboa. Estas são histórias pessoais mas também coletivas. Histórias de resistência ao domínio dos poderosos. Vozes que são parte de um grande mosaico, dos impérios coloniais às hegemonias globais da Guerra Fria, da terra ao espaço. Os Impérios estarão “em cena” numa série de conferências e debates que se estende, em sete momentos, entre Novembro e Dezembro, no Pequeno Auditório da Culturgest. Estas são as suas histórias.
FICHA TÉCNICA

IMAGEM
© Lisha Riabinina
© Irina Grotkjaer

VÍDEO
Excerto do filme The Soviet Union: A New Look (1978)

EDIÇÃO
Carolina Luz

Tradução
Paula Tavares dos Santos

REVISÃO DE CONTEÚDOS
Helena César e Inês Bernardo

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