TONY CONRAD, MAIOR DO QUE A ARTE

“Não sabem quem eu sou, mas de algum modo, indiretamente, foram afetados por coisas que fiz.”

 
Cineasta, músico e iconoclasta, Tony Conrad (1940–2016) foi umas dessas figuras raras capazes de, ao mesmo tempo, ser um expoente máximo da arte contemporânea e um desconhecido do público mais vasto.
Tony Conrad forjou o seu próprio caminho com inovação sem paralelo nas artes visuais, filme e vídeo, desafiando persistentemente os limites das disciplinas artísticas.
No decurso da sua vida, este artista, músico e professor americano deu um contributo discreto, mas essencial, num vasto espectro de disciplinas culturais, do rock à televisão pública. A sua influência pode ainda hoje ser reconhecida no conjunto de uma obra idiossincrática, que desafia classificações, e que funde a crítica radical e um humor de espírito único.
 

"Luta contra a arte snob dos arrivistas!"

Tony Conrad e o artista Henry Flynt em protesto contra um concerto de Stockhausen frente ao Judson Hall, Nova Iorque, em 1964.

 

Tony Conrad (Concord, New Hampshire, EUA, 1940 – Cheektowaga, Nova Iorque, 2016) foi uma figura central da arte experimental dos últimos 50 anos. Abarcando disciplinas diversas, a sua obra oferece frequentemente uma resposta crítica e bem-humorada a todos os aspetos normativos da cultura. Conrad opôs-se à capitalização estética em todas as suas formas (incluindo as suas próprias inovações) e à construção de um percurso uniforme e progressivo na arte. A sua obra toma a forma de diversas intervenções em esferas culturais muito diferentes: música, cinema, vídeo, artes, ensino e ativismo social. A sua prática é desenvolvida a partir de um ponto de vista sistematicamente marginal; move-se de um contexto ou de um meio para outro enquanto “fragmenta” cada um a partir do interior. Embora o nome de Conrad seja pouco conhecido do grande público, a sua influência faz-se sentir por toda a cultura contemporânea.

“Não me importo de ser anónimo. Detesto a fama.” 

Pela primeira vez em Portugal, esta exposição reúne algumas das suas obras mais importantes, entre as quais, Yellow Movies, 1972-73, as instalações Panopticon, 1988, WiP, 2013 – um conjunto de “ferramentas acústicas” inventadas por Conrad, e outros trabalhos que refletem a sua pesquisa no domínio do funcionamento dos meios e das instituições contemporâneas. The Flicker, 1966, filme experimental de referência, também fará parte desta retrospetiva. Após a redescoberta de Tony Conrad no início dos anos 2000, seu trabalho foi mostrado em exposições no Museum of Modern Art, na Tate Modern, no LA Museum of Contemporary Art, no Whitney Museum of American Art, na Documenta e na Bienal de Veneza. Esta exposição é parte de uma itinerância e foi apresentada pela última vez no MAMCO em Genebra.

Música e The Velvet Underground

Licenciado em Matemática pela Universidade de Harvard, e após concluir o curso Tony Conrad vai viver para Nova Iorque. Aí torna-se um dos primeiros membros do Theatre of Eternal Music, mais tarde designado The Dream Syndicate, que incluía John Cale, Angus MacLise, La Monte Young e Marian Zazeela. O grupo utilizou apenas intonação pura e som sustentado (drones) para criar aquilo a que o grupo chamou "música do sonho" (atualmente chamada música drone). Como músico, Tony Conrad tornou-se uma figura importante na esfera minimalista nova-iorquina do princípio dos anos 60.
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Conrad e John Cale foram depois chamados pela Pickwick Records para dar apoio instrumental aos The Primitives, na apresentação do seu single de 1964 "The Ostrich"/"Sneaky Pete". Conrad e Cale na guitarra e no baixo, Walter de Maria na bateria, e Lou Reed, o único membro pré-existente da banda, foi o vocalista. O grupo desfez-se após alguns espetáculos. Cale e Reed formaram The Velvet Underground. Embora nunca tenha sido membro, Conrad foi indiretamente responsável pelo nome de The Velvet Underground. Tendo-se mudado para o antigo apartamento de Conrad na Ludlow Street, em Nova Iorque, Reed e Cale encontraram um livro intitulado The Velvet Underground, que tinha pertencido a Conrad, e adoptaram o nome do livro.
Há anos que as principais edições musicais de Conrad estavam indisponíveis. Entre as gravações mais importantes conta-se Outside the Dream Syndicate, 1973, uma colaboração com Faust, uma banda Krautrock alemã, que foi reeditada em 1993 e é considerada um clássico da música minimalista e da música drone; Ten Years Alive on the Infinite Plain, 1972 (gravado no The Kitchen em Nova Iorque); Four Violins, gravado em 1964 mas lançado pela primeira vez em 1996; e Early Minimalism 1996\2002, a interpretação própria contemporânea da música que ele fez com o The Dream Syndicate no início dos anos 60 (cujas gravações originais ainda não estão disponíveis) e que encapsula perfeitamente o pensamento de Conrad “A história é como a música – Sempre no presente ”.
- Resumir
Tony Conrad nos primeiros anos como estudante de matemática.
Tony Conrad nos primeiros anos como estudante de matemática.
Ensaio The Theatre of Eternal Music, localização desconhecida, 1966.
Ensaio The Theatre of Eternal Music, localização desconhecida, 1966.
The Theatre of Eternal Music (Tony Conrad, La Monte Young, Mariana Zazeela e John Cale), localização desconhecida, 1966.
The Theatre of Eternal Music (Tony Conrad, La Monte Young, Mariana Zazeela e John Cale), localização desconhecida, 1966.
The Primitives, banda percursora de The Velvet Underground, 1965. A partir da esquerda: Tony Conrad, Lou Reed, Walter Demaria e John Cale.
The Primitives, banda percursora de The Velvet Underground, 1965. A partir da esquerda: Tony Conrad, Lou Reed, Walter Demaria e John Cale.
Tony Conrad tocou violino com os Theatre of Eternal Music no inicio dos anos 60; utilizavam formas musicais não ocidentais e som sustentado para produzir o que chamavam “música do sonho”.
Tony Conrad tocou violino com os Theatre of Eternal Music no inicio dos anos 60; utilizavam formas musicais não ocidentais e som sustentado para produzir o que chamavam “música do sonho”.
The Primitives, 1965
The Primitives, 1965
Tony Conrad terá dado a conhecer um livro chamado The Velvet Underground a Cale e Lou Reed; tratava-se de um livro de bolso do jornalista Michael Leigh, publicado em Setembro, 1963, que documenta a parafilia nos EUA.
Tony Conrad terá dado a conhecer um livro chamado The Velvet Underground a Cale e Lou Reed; tratava-se de um livro de bolso do jornalista Michael Leigh, publicado em Setembro, 1963, que documenta a parafilia nos EUA.

Embora tenham surgido outros nomes associados ao minimalismo musical americano, enquanto músico e académico, Tony Conrad contribuiu substancialmente para o movimento; nos anos 90, Table of the Elements fez uma espécie de estudo de caso com Conrad, lançando gravações antigas e novas, e contribuindo para criar uma história objetiva da música experimental. Esse novo olhar sobre seu trabalho e influência reconheceu-o como antídoto contra cultural, um iconoclasta que se associou a uma nova geração transportando o minimalismo da sala de concertos para o clube de rock. 

A recentemente recuperada gravação de Ten Years Alive on the Infinite Plain foi gravada no The Kitchen em Nova Iorque, 1972. Esta performance artística compreende um filme de 16 mm, projetores e instrumentos musicais vários. Ten Years Alive... não tinha partitura escrita para apresentações futuras, e a morte de Conrad em 2016 pareceu dá-la como perdida. No entanto, a nova luz que incide agora sobre a obra inscreve Conrad na história do género.

Do Som ao Filme

Tendo escolhido deliberadamente viver à margem dos movimentos artísticos convencionais, Conrad pôs-se à disposição de imensas conjunturas artísticas marginais. Passou da música ao cinema experimental. O filme The Flicker, 1966, contestou tanto o filme como meio, como a passividade do espectador, atraindo a adulação instantânea dos devotos do filme estrutural. O filme intercala fotogramas em preto e em branco, originando efeitos óticos fantásticos para muitos espectadores.

 

Rea&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico ao filme <em>The Flicker</em>, Centro Lincoln, Festival de Cinema de Nova Iorque, 1966Rea&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico ao filme <em>The Flicker</em>, Centro Lincoln, Festival de Cinema de Nova Iorque, 1966
Reação do público ao filme The Flicker, Centro Lincoln, Festival de Cinema de Nova Iorque, 1966

Conrad levou a outro nível de experimentação a sua exploração do filme enquanto meio, “cozinhando” o celuloide virgem de várias maneiras: frito, assado, marinado ou como sukiyaki. Ao invés de visionados em tela, os resultados foram vistos em frascos de preservação (1973-1974).

Yellow Movies, 1972-1973, a sua série paralela, combinou as experiências baseadas em filme com a sua obsessão pela longa duração (explorada uma década antes na esfera da música). Uma pintura em branco barato brilhante foi aplicada em papel plano de embalagem do tamanho de telas de cinema, desenhadas para amarelecer com o tempo. Os intermináveis ​​Yellow Movies foram uma reação à longa-metragem Empire, 1964 (485’), de Warhol. Ao definir os monocromos como “filmes”, Conrad estendeu o âmbito da sua crítica do cinema à pintura.

Em finais dos anos 70, princípio dos anos 80, Conrad lecionou na Califórnia, onde conheceu e trabalhou com Mike Kelley e Tony Oursler, com quem fez dois filmes e instalações abordando os temas da autoridade e vigilância, como parte de uma crítica aos media e à tecnologia. Panopticon, 1988, a sua maior instalação, foi feita na imediação desses projetos.

 

Tony Conrad dá uma explicação improvisada da sua obra Yellow Movie 2/28/73, que está incluída na exposição The Language of Less (Then and Now), MCA Chicago, 2011).

Ativismo e arte, a arte como ativismo

Desde muito cedo, que Tony Conrad experimenta o ativismo. Em 1966, Conrad, Jack Smith e Henry Flynt fizeram piquetes no Lincoln Center enquanto exibiam placas e gritavam: “Demulam o Lincoln Center! Demulam a Cultura Séria!”. Cerca de vinte anos depois, Conrad associou-se ao ativismo social, mais especificamente à Squeaky Wheel, uma organização que cujo propósito era a criação de conteúdo alternativo em oposição ao media dominante – a televisão. Como prolongamento desse ativismo cívico, com Studio of the Street, 1990-1993, um programa transmitido pela TV aberta que deu voz (e rosto) aos cidadãos de Buffalo (Estado de Nova Iorque), Conrad interveio diretamente no coração da máquina mediática. Depois disso, veio o programa de TV Homework Helpline, 1994-1995, no qual Conrad ajudava alunos de escolas de bairros desfavorecidos a fazerem os trabalhos de casa.

 

De 1990 a 1993, Tony Conrad produziu um programa de televisão: “Studio of the Streets”. Conrad ia até à Câmara Municipal de Buffalo e gravava o que as pessoas na rua tinham a dizer em defesa da liberdade de expressão, condicionada pela autarquia ao suspender o serviço de tv de acesso público. Ouvimos ativistas, produtores de media e cidadãos comuns, que todas as semanas protestavam religiosamente à sexta-feira.
FICHA TÉCNICA
EXPOSIÇÃO

CURADOR
Balthazar Lovay

PROGRAMADOR ARTES VISUAIS
Bruno Marchand

DIRETOR DE PRODUÇÃO
Mário Valente

PRODUÇÃO
Sílvia Gomes
Fernando Teixeira

ESTAGIÁRIO
João Reis

MONTAGEM
Fabrício Soares
Justin Amrhein
Michael Bennett
Pedro Palma
Xavier Ovídeo 

CONSERVAÇÃO
Maria Manuel Conceição
Maria Marrinhas
Isabel Zarazúa 

AGRADECIMENTOS
The Estate of Tony Conrad
Greene Naftali Gallery
Galerie Buchholz
Pogo Teatro
Bruno Cecílio

APOIO MEDIA
Antena 3
Rádio Futura 

Esta exposição é um prolongamento da retrospetiva realizada em 2018-2019 na Albright-Knox Art Gallery, em Buffalo, Nova Iorque, e foi produzida em colaboração com o MAMCO (Genebra, Suíça) e o Kölnischer Kunstverein (Colónia, Alemanha).

MICROSITE

EDIÇÃO
Inês Bernardo

TRADUÇÃO
Paula Tavares dos Santos

REVISÃO DE CONTEÚDOS
Catarina Medina

IMAGENS CEDIDAS PELO CURADOR
Balthazar Lovay

DESIGN E WEBSITE
Studio Macedo Cannatà & Queo