Por ocasião da recente morte, a 8 de novembro em Lisboa, de Artur Cruzeiro Seixas, nascido a 3 de dezembro de 1920 na Amadora, a Coleção da Caixa Geral de Depósitos destaca uma das obras do artista que pertence ao seu acervo: No palco uma golfada ainda pelo rasgão calcinado (1980). Incorporada na coleção em 1985, a pintura a óleo sobre tela reflete o compromisso e a resiliência do artista para com o movimento Surrealista. Através de um vasto trabalho no campo do desenho e da pintura mas, também, na poesia e escultura, o artista desenvolveu uma linguagem muito própria e reconhecida. O traço certeiro das suas obras denota formas, espaços e figuras delirantes e, muitas vezes, sexuais. A narrativa onírica aproxima-se da literatura e de possíveis histórias humorísticas ou sarcásticas. Num contexto conservador da sociedade portuguesa da sua época, a persistência ao longo da sua carreira de algumas formas eróticas revela bem o carácter inquieto e pertinente da sua obra, que a pintura No palco uma golfada ainda pelo rasgão calcinado é um bom exemplo. As duas figuras-personagens encenam numa paisagem-palco uma ação estática de intensa intimidade amorosa. O espaço exíguo a que as figuras são confinadas pode revelar um espartilho social à sua condição libertária da promiscuidade dos corpos sem identidade de género, onde a transgressão simulada pode ser um dos caminhos que levam à promissora liberdade.

O artista-poeta Cruzeiro Seixas frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio, entre 1935 e 1941, onde fez amizade com outros artistas, Mário Cesariny, Marcelino Vespeira, e Fernando Azevedo, entre outros, com quem, no final dos anos 40, irá integrar o movimento Surrealista Português. Entre 1945 e 1946 é atraído pelo Neo-Realismo, mas desde cedo se tornou um dos percursores do Surrealismo, onde persistiu como um dos seus expoentes máximos. Em 1950, alista-se na marinha mercante, viajando por África, Índia e Extremo Oriente. Entre 1952 e 1964, fixa residência em Luanda, colaborando como programador no Museu de Angola. Em 1964, com o início da guerra colonial, regressa a Lisboa, empreendendo uma viagem pela Europa. Em 1967, recebe uma bolsa de estudo da Fundação Calouste Gulbenkian durante a sua estadia em Paris. Em Portugal dá continuidade à sua actividade como programador e consultor artístico na Galeria São Mamede, em Lisboa, na Galeria da Junta de Turismo da Costa do Sol, no Estoril, e, posteriormente nos anos 80, na Galeria D’Arte, em Vilamoura. À sua actividade artística e profissional também se acrescenta ilustrador de livros e cenógrafo para a Companhia Nacional de Bailado e para o Ballet Gulbenkian. Em 1999, doou a totalidade da sua coleção e espólio à Fundação Cupertino Miranda, em Vila Nova de Famalicão, para constituição do Centro de Estudos Surrealistas. Em 2009 foi feito Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago. Vive os últimos anos da sua vida na Casa do Artista, em Lisboa, e morre no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, a poucos dias do seu centésimo aniversário.

Cruzeiro Seixas
No palco uma golfada ainda pelo rasgão calcinado
1980
Óleo sobre tela
75 x 75 cm
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