Em homenagem à vida e obra de Lourdes Castro (Funchal, 1930 - 2022), falecida a 8 de janeiro, a Coleção da Caixa Geral de Depósitos destaca a obra Sem título, de 1965. Figura ímpar no panorama artístico português desde a segunda metade do século XX, a artista frequentou o curso de Pintura da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa até 1956. No ano seguinte parte para Munique e, pouco tempo depois, instala-se em Paris com o seu primeiro marido, o artista René Bertholo. Em 1958, funda a revista KWY (1958-1964), conjuntamente com René Bertholo, Costa Pinheiro, João Vieira, José Escada, Gonçalo Duarte, Jan Voss e Christo. 

Num primeiro momento, nos anos 60, a sua obra desenvolveu-se em torno de assemblages de objetos do quotidiano, que acumulava em pequenas caixas, pintados com uma camada de cor uniforme - principalmente prateado, dourado ou azul. As obras Caixa alumínio (lagostins) e Caixa alumínio (óculos), ambas de 1962, pertencentes à Coleção da Caixa Geral de Depósitos, são bons exemplos desta fase do seu trabalho. Nesta mesma década, a artista fascina-se pelo material plexiglass que, através das suas cores vibrantes e transparências, permite que as formas desvaneçam e os recortes sejam privilegiados. A obra Sem título (1965), pintada sobre plexiglass, pertencente à Coleção da Caixa Geral de Depósitos, revela não só o gosto pela vibração do prateado, mas também a desconstrução do desenho de um gato, apenas identificado pelos seus inebriantes olhos verdes. A uniformização da cor desvaloriza as formas escultóricas e encaminha-se para a problematização das sombras, que se tornou a principal fonte de inspiração do seu trabalho.

Em 1972 e 1979, Lourdes Castro foi artista residente no prestigiante DAAD em Berlim e realizou com o seu segundo marido, o artista Manuel Zimbro, diversas parcerias, mais propriamente, performances, cenografias e encenações que culminam no Teatro de Sombras em 1985.

Após residir 25 anos em Paris, regressou ao Funchal em 1983. Dando continuidade à sua profunda investigação sobre as sombras, o seu trabalho encanta-se pela exuberância da vegetação e das flores da ilha madeirense. A tapeçaria, e os seus respetivos cartões, Sombras brancas I, II e III (1986), que também pertencem à Coleção da Caixa Geral de Depósitos, revelam esta ligação à natureza e à influência da flora insular. As sombras das plantas ocupam a totalidade do espaço do desenho revelando, deste modo, um padrão infinito que apresenta um espaço idílico e utópico.

Ao longo da sua vida a artista foi agraciada com diversos prémios, que atestam o reconhecimento e a qualidade da sua obra, dos tais se destacam: EDP (2000); Celpa/Vieira da Silva (2004); AICA (2010); Medalha de Mérito Cultural (2020); e Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (2021).

Recentemente, as obras da artista, pertencentes à Coleção da Caixa Geral de Depósitos foram apresentadas nas exposições coletivas, organizadas pela equipa da Culturgest: “O pequeno mundo”, com curadoria de Sérgio Mah, no MACNA – Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, em Chaves e na Culturgest, em Lisboa; e “Cangiante”, com curadoria da Antonia Gaeta, no CAAB – Centro de Arqueologia e Artes de Beja.

Hugo Dinis

Lourdes Castro
Sem título
1965
Plexiglass pintado no verso com acrílico sobre folha de prata
60 x 81 cm
Inv.347255
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