Em homenagem à vida e obra de João Cutileiro (Lisboa 1937 - 2021), recentemente falecido, a Coleção da Caixa Geral de Depósitos destaca uma das suas obras que pertence ao seu acervo desde 1987. Bífida rosa, de 1986, trata-se de uma escultura em mármore rosa e preto que apresenta dois corpos de formas eróticas, bem inserida no conjunto dos trabalhos que o artista desenvolveu ao longo da sua carreira de mais de 60 anos. Cutileiro nasce em Lisboa em 1937. Entre 1946 e 1948 frequenta o ateliê de António Pedro, onde contacta com o mundo surrealista. Nos dois anos seguintes muda-se para o ateliê de Jorge Barradas, onde desenvolve trabalho de pintura e vidrados de cerâmica. Porém, descontente, volta a mudar para o ateliê de António Duarte onde, como assistente voluntário, se torna fundador e canteiro, tendo o seu primeiro contacto com a pedra. Em 1951, apenas com 14 anos, mostra diversas esculturas, pinturas, aguarelas e cerâmicas numa loja de máquinas de costura em Reguengos de Monsaraz. Entre 1953 e 1955 inscreve-se na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, sendo aluno de Leopoldo de Almeida. Contudo, não termina os estudos e parte para Londres para frequentar, por influência de Paula Rego, a Slade School, entre 1955 e 1959. Em 1959, trabalha como assistente no ateliê de Reg Butler. Vive na cidade inglesa até 1970, como bolseiro da Gulbenkian por duas ocasiões (1958/59 e 1965/66). Regressando a Portugal, fixa-se em Lagos até 1985, e desde então em Évora. Em 1987, organizou com Manuel Costa Cabral e António Pedrozo e participou no 1.º Simpósio Internacional de Escultura em Pedra de Évora. Em 1990 a Fundação Calouste Gulbenkian organizou uma importante exposição antológica da sua obra, organizada por Hellmut Wohl e Nazaré Tojal. Realizou diversas polémicas obras de arte pública, de que se destacam: D. Sebastião (1972), em Lagos; Monumento ao 25 de Abril (1997), Lisboa; Lago das Tágides (1998), Lisboa; e S. João (2000), Porto.

O escultor realizou trabalhos, sobretudo, em pedra em torno de temas como guerreiros, flores, árvores, figuras históricas e religiosas, figuras femininas, torsos, ninfas, erotismo, arquitetura, entre outros. As figuras das bífidas tornaram-se temas privilegiados para desenvolver as formas lânguidas e eróticas de corpos sexualizados que se bifurcam e tocam em momentos certeiros e tecnicamente complexos. Hellmut Wohl anotou que Cutileiro “compreendeu que separar a figura em dois não só aumentava a profundidade de um bloco dado, mas era também um modo de explorar a assimetria na simetria do corpo humano” (WOHL, Hellmut; RIBEIRO, José Sommer (org.) e TOJAL, Nazaré (coord.), João Cutileiro, Centro de Arte Moderna - Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1990). O uso da pedra, nomeadamente do mármore, permite, através da sua maneabilidade e polimento, uma plasticidade e leveza que revelam um escultor virtuoso e, ao mesmo tempo, sensível às particularidades da matéria-prima que dá forma. As duas figuras da escultura Bífida rosa mostram o desejo latente de dois corpos, sem género definido nem dominante, que retratam o amor carnal. Através da inserção de pequenos elementos esféricos e dos cabelos, como se folhagem se tratasse, as figuras alongam-se e transformam-se em polos visuais e tácteis, numa relação pertinente entre a monumentalidade e a escultura doméstica. De facto, ao relacionar a escala estranha das compridas figuras com plintos manifestamente pequenos, ou noutros casos inexistentes, o artista questiona o lugar o espectador e activa, na sua simples presença, a sensualidade e o desejo do seu próprio corpo. O amor etéreo revela-se entre todos aqueles que dele querem participar.

João Cutileiro
Bífida rosa
1986
Mármore rosa e preto
237 x 60 x 40 cm
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