independentemente da sua natureza, uma exposição acontece sempre para lá do horário de funcionamento do espaço onde se dá a ver. podemos até estimar o número de dias que a equipa de montagem lhe terá dedicado se atentando às especificidades técnicas desta ou daquela obra, mas o trabalho de «preparação» não se esgota, de modo algum, nos procedimentos que antecedem uma vernissage. haverá quem o assuma daí em diante. outras mãos sob um único e mesmo desígnio. ainda o museu não abriu e já as primeiras se sujaram ao serviço da exposição. desde logo, as de quem se encarrega da limpeza das salas. tal como as de quem lixa o topo da vareta de balsa que Armanda Duarte havia projetado, à sua altura, nos idos de dois mil e doze. uma tarefa precedente e invisível, então a cargo da artista: a de subtrair esse todo – cabeça, tronco e membros – entre a inauguração e o encerramento da coletiva Logradouro, no Espaço Avenida 211, lixando a extremidade superior da finíssima vareta de balsa que alguém [a própria?] teria cravado entre as tábuas do chão de Um Quarto Só Seu. só seu até à hora em que ao público se haveria de abrir.

não propriamente um autorretrato, embora contemplando a altura de Armanda Duarte como sua medida de referência. nem mesmo uma performance, se bem que de caráter performativo. uma obra-ritual. esta que se engendra pelo avesso, talvez sob o preceito da «descriação» e assim ao encontro de Simone Weil: o «desfazer [d]a criatura em nós» por meio da prática artística, aqui tomada sob o «efeito subtrativo» da lixação. diligentemente subtraída na desfeita de um contra-monumento. dada no âmbito de um projeto horizontalizante e «sabotando a verticalidade da escultura, [que Aline Dias vem assinalar como uma proeminente] característica do espaço monumental» tal como reivindicado nas páginas dos nossos mais grossos manuais. [um corpo a corpo com essa maiúscula, sempre tão máscula História da Arte.] pouco antes de se abrirem as portas, a responsável pela execução da tarefa – no papel de Armanda Duarte e mais ou menos à sua altura – chegará para «desfazer uma coluna» com meio centímetro de diâmetro. a cada nova investida, um pequeno segmento terá cedido à fricção. capitel, fuste, base e tudo pó. invertendo a ordem sabida e outras fálicas cantilenas.

é pela «sobrevivência lacunar do acontecimento» que a obra se constitui enquanto tal. percebamo-la nos ecos de Judith Butler e daí que mais a fundo: assim se esboroam não apenas a vareta de balsa, mas também um «eu» que equivocadamente teremos admitido – amiúde celebrando – como apartado do seu entorno. do pó em torno se faz a desfeita desta laboriosa e demorada «escrita de si». uma coluna feita lacuna sob o «intenso labor» de quem se inscreve, já de joelhos, pelos contornos da sua presença. nas palavras de Lígia Afonso, o «resultado aparentemente improdutivo, silencioso, discreto» que a artista nos oferece – mesmo quando abdicando do papel de executante – acaba por verter sob a forma de uma obra-testemunho. entre 3 Elementos no azul e uns quantos Jotas, descobrimo-la no Centro de Artes de Águeda, onde agora se Joga o Jogo da Coleção da Caixa Geral de Depósitos. integrando a «terceira e derradeira parte» de um ciclo expositivo com a curadoria de Hugo Dinis, uma obra em permanente desintegração. já tudo a postos: esse todo e o tanto que se desintegrará, ao longo dos próximos meses, no desdobrar das correspondências meio «aleatórias e sem sentido» de uma intrincada Fugida! pelos «caminhos» do porvir.

Carolina Machado

ARMANDA DUARTE
Cabeça, tronco e membros
2012
Linha de madeira (balsa), folha branca de lixa de madeira, cortada e dobrada, e prateleira de madeira
0,5 x 172 x 0,5 cm; 172cm – altura da executante; folha branca de lixa-de-madeira, cortada e dobrada (2 x 3 cm)
Inv.574142
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