No âmbito do empréstimo da pintura Camuflagem (1985) de Maria José Aguiar (Barcelos, Portugal, 1948) destaca-se esta obra pertencente à Coleção da Caixa Geral de Depósitos (CGD). A pintura integra a exposição Mistifório, com curadoria de Natxo Checa, no ciclo Território #1, apresentado na Culturgest – Porto, entre 11 de fevereiro e 15 de maio de 2023.

Maria José Aguiar termina em 1972 o curso de pintura na Escola Superior de Belas-Artes do Porto, onde lecionou até 2009. Apesar do seu discreto percurso público, a sua pintura pautou-se pelo fulgor no uso de temáticas feministas relacionadas com as questões sexuais e de género. Numa primeira fase nos anos 70 a sua pintura investe-se de linguagem Pop. Entre 1982 e 1984 realiza a primeira série intitulada “Camuflagem” em que refaz pinturas anteriores “num jogo de revelação e apagamento em que cita artistas homens que dominaram a história de arte.” (Laura Castro, Tudo o que eu quero: artistas portuguesas de 1900 a 2020, Fundação Calouste Gulbenkian, 2021, p.184). Em 1987 realiza uma exposição individual na Galeria Nasoni, no Porto, em que apresenta uma segunda série de pinturas com o mesmo título, onde se incluí a pintura “Camuflagem” (1985), adquirida nessa ocasião para a Coleção da CGD. No catálogo da exposição Bernardo Pinto de Almeida refere: “Estas escritas reconduzem-nos pois a essa incómoda situação, à primordial indistinção entre palavras e coisas: são palavras-coisas, puros objectos geradores de estranheza, enfatizando a dimensão mágica do ofício da pintura.” Socorrendo-se de camadas de tinta fluída, cores claras e vibrantes, as palavras “red”, “yellow” e “blue” e a frase “we must not disturb” soam como alusões irónicas das próprias cores que representam. “O modo displicente como desenha, pintando, fazem com que este acto de pintar parece até perfeitamente banal.” (Teresa Magalhães, Pintoras portuguesas do século XX, Galeria Leal Senado, Macau, 1990)

A pertinência e a irreverência das suas pinturas parecem ficar espelhadas na invisibilidade a que o seu trabalho foi arrestado. Abordando questões de sexualidade explícita, numa época em que não seria muito bem visto ser feito por uma mulher artista, a obra de Maria José Aguiar fez com que o território político ficasse mais atento às questões feministas. No já longínquo ano de 1995, Sílvia Chicó escreve um artigo de fundo, na Colóquio-Artes (n.º 106), sobre a obra de Maria José Aguiar, que reflete a importância da sua obra: “Nessa mistura de mundos, nessa assemblage de imagens reconhecíveis dos pintores históricos da contemporaneidade, se revela e simultaneamente se camufla a voz da autora, que, submersa na estridência de tantas vozes, surge como um mestre de coro numa sessão Dada, que procura mais a desarmonia do que a harmonia, num esforço de afirmar a sua própria voz, subtraindo-se, e ao mesmo tempo exaltando essa sua condição de apenas poder ser camufladamente, como que exorcizando o esmagamento a que se sente submetida, numa das fases mais vitais e proclamatórias que a autora conheceu.”

Hugo Dinis

MARIA JOSÉ AGUIAR
Camuflagem
1985
Esmalte acrílico sobre tela
170 x 128,5 cm
Inv. 242421
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