no decorrer do primeiro semestre de dois mil e três, o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian vinha arriscar a encenação de uma «decisiva» tempestade. essa que Francisco Tropa havia projetado, em madeira de balsa, no ano imediatamente anterior. assim constava na capa do jornal da exposição: uma tempestade dada à escala, quando ainda por encenar. apresentando-se a título individual e sob o comissariado de Jorge Molder, o artista propunha que a encenássemos no piso um daquela instituição. [como sempre, uma tarefa partilhada entre quem cria e quem frui. até porque a «razão das coisas» nunca foi senão «dar-te trabalho» e trazer-te a fruir criando.] o traçado ali proposto parecia convocar a arquitetura de um edifício de habitação multifamiliar. talvez parisiense, se atendendo – tal como Andreia Nogueira, no âmbito da já citada dissertação – ao episódio relatado pelo artista quando a propósito da «origem» da obra de arte. desta sua em particular. segundo Francisco Tropa, a instalação L’Orage não deixaria de aludir à «queda de um andaime em Paris [com a imagem da qual se havia deparado] a seguir a uma tempestade». assim poderíamos enquadrar a «associação» entre a sua obra e a de Georges Perec. mais concretamente, a já então debatida correspondência com As Coisas ou A Vida, Modo de Usar.

 

assumindo a leitura de Delfim Sardo quando a respeito do potencial metafórico da obra de Francisco Tropa, desdobraríamos essa «infindável teia de interpretação em busca de um sentido» pela inferência de um sentido descendente. a estrutura em desequilíbrio que milimetricamente havia disposto no rés-do-chão daquele hipotético edifício vinha problematizar a «condição humana» sob uma «tentativa frustrada de libertação da gravidade». quiçá a «queda como [inerente e sempre iminente] destino humano». daí a «queda no pecado» ou a não rara cedência aos mais mundanos apetites. [como não ceder quando tudo nos aguça a fome de fartura?] sobre nós e esta mesa, pesará o fardo de uma gana nunca plenamente saciada. contra todas as probabilidades. de acordo com a descrição que se propõe na ficha de inventário da peça Une table qui aiguisera votre appétit – le poids poli, a conceber para lá da tempestade inaugural e assim em linha com o depoimento do artista sobre a «autonomia» das partes, nela pondera e prepondera a materialização de uma «abundância [tão] desejável» quanto infactível. mais: que só deixa a desejar. adquirida à Galeria Quadrado Azul pela Coleção da Caixa Geral de Depósitos, também porque tomada como «autónoma» pelo próprio autor, esta outra «entidade» constitui, por si só, um «quebra-cabeças» para se digerir «ao longo do tempo». isto é dizer nunca dizendo, bem ao jeito de quem o engendrou: que o «jogo» não cesse e nenhum trago te satisfaça.

 

desde o Royal College of Art que Francisco Tropa vinha nutrindo um certo fascínio pelos «objetos científicos [dados por] obsoletos e anacrónicos» sob a evidência desse já acelerado processo de «desatualização» tecnológica. na sua tese, Filippo De Tomasi retrata um artista seduzido pela inutilidade dos «aparelhos em desuso». que lhes subverte a «função científica» de partida, «tornando-os, de algum modo, ainda mais inúteis». como os oito pesos-medida que em vão – criteriosamente, mas em vão – terá disposto sobre o banco alçado numa das extremidades desta vara de ferro, a pender no sentido oposto pelo triunfar das forças de uma gana imensa. no topo de um espigão em bronze, desequilibram-se a vara e todas as certezas. pesa a mesa posta, supostamente pronta a saciar-nos os apetites. só os aguçará. mais não seja, a curiosidade. [o que motiva a declarada polidez de um – e apenas um – dos oito pesos?] inutilmente jaz, como os outros sete, o tão lustroso número dois. cumprido se acha o seu primeiríssimo desígnio: «dar-te trabalho» uma vez que alimentando quaisquer teorias. teoricamente impossível, esta figura como mais uma das «máquinas de reação» que o artista nos tem dado a decifrar a partir das pistas que metodicamente se prestam aos mais rebuscados devaneios, entre os tantos «dispositivos visuais e de reflexão sobre o olhar» de quem perante esses devaneia.

 

patenteando o «método combinatório intencionalmente errático» que na ficha de inventário se reconhece como definidor da produção de Francisco Tropa, a natureza-morta que hoje prende e perece em Óbidos – até quinze de fevereiro, sob um empréstimo à Galeria NovaOgiva – «é o anzol que fere a morte,/que luta com ela, deixa vestígio,/um silabário por reconstruir» a pretexto da terceira exposição de um ciclo que se respalda neste último verso de Luís Quintais. integrada no programa comemorativo Óbidos, 10 Anos de Cidade Criativa da Literatura da UNESCO, a dita mostra brota «a partir do universo literário» para nos oferecer essa aparatosa instalação como um lugar de «trânsito entre o visível e o dizível» das coisas. que se decompõe para além do silábico, teatralmente engendrada contra as elementares forças da natureza. em todo o caso, nada ao acaso. pura, bruta sistemática. sob um projeto curatorial de José Maçãs de Carvalho e Inês Pinto Faria, este «complexo dispositivo cénico» e de absurda precisão joga-se agora na Rua Direita, reanimando uma «utopia significativamente construída na primeira pessoa do plural» há mais de meio século, quando entre dentes se aguçava a maior das vontades.

Carolina Machado

FRANCISCO TROPA
Une table qui aiguisera votre appétit - le poids poli
2003
Banco e mesa de madeira, varão em ferro, agulha em bronze, pesos de balança, manta, garrafa com vinho, copo, pratos, tigela, faca, fruta, queijo, cabeça de alho, folhas de louro, guardanapo e grãos de pimenta
146,5 x 485 x 83 cm
Inv. 593443
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