Maria Filomena Molder, Rosa Maria Martelo e Tomás Maia

Musas – A Música das Artes

Integrada no ciclo de Encontros MUSAS, esta conferência debate o modo como as outras artes ouvem mas também imaginam, transfiguram ou alucinam a música.

Há fascínio e há desconfiança nestas outras escutas. E daí surgem algumas das questões que serão abordadas nestas três conferências seguidas de um debate entre os oradores e o público: o que sugere o facto de o modelo da música ser ora convocado ora rejeitado por outras artes? O que motiva tais apreciações? Como se manifestam na prática? De que modo reforçam ou dissolvem os binómios entre espaço e tempo, interior e exterior, sujeito e objecto, material e espiritual, aspereza e suavidade que tantas vezes se associam à reflexão e à experiência musicais? 

16:00–17:30

Duas Portas
por Maria Filomena Molder

Outros Ritmos
por Rosa Maria Martelo

Fazer Tempo
por Tomás Maia

18:00–19:00

Debate com os oradores moderado por João Pedro Cachopo

Mais informações em: www.propera2020.com

17 NOV 2018
SÁB 16:00

Pequeno Auditório
Entrada gratuita*
Duração 3h com intervalo

* Entrada gratuita (sujeita à lotação), mediante levantamento de bilhete no próprio dia a partir das 15:30

Live streaming acessível no próprio dia neste website

Organização

ProperaFCSHCESEM

Apoio

Marie Skłodowska-CurieUnião Europeia

Apoio streaming

FCT

Ideia e moderação

João Pedro Cachopo

 

Os Encontros Musas surgem no âmbito do Projeto Propera2020 – The Profanation of Opera: Music and Drama on Film (CESEM-FCSH/NOVA / Universidade de Chicago) ao abrigo de Marie Skłodowska-Curie Action patrocinada pela Comissão Europeia

Sinopses Musas - A Música das Artes

Duas portas
POR Maria Filomena Molder

Primeira porta: Que não haja Musas para a pintura, a escultura e a arquitectura, é uma evidência que começa por ser um enigma a pedir decifração. Que a deusa Mnemosyne seja a mãe das Musas é um dos ingredientes da decifração. Com ela surge associado o Tempo que não envelhece. E aqui, neste cruzamento, o secreto Orfeu acena para a grande contradição entre Apolo e Dioniso, exposta por Nietzsche e retomada de modo sublime por Giorgio Colli: «Orfeu não é o pacificador de Apolo e Dioniso: exprime a sua união e morre despedaçado pela sua luta.» (La sapienza greca I, p. 39)
Segunda porta: Robert Walser diz que se sente a falta de qualquer coisa quando não se ouve música, mas que a sensação de perda é ainda mais forte quando se ouve música. Também aqui a evidência se manifesta como enigma a decifrar.

Outros Ritmos
POR Rosa Maria Martelo

Herberto Helder usou por duas vezes o título Ofício Cantante ao coligir obra poética. Já João Cabral de Melo Neto foi peremptório a recusar aquele adjectivo: «Não tenho poemas cantantes, não tenho poemas de embalar», fez questão de dizer numa entrevista. O poeta brasileiro, que afirmava não gostar de música, exprimiu por diversas vezes reservas relativamente ao verso musical, porquanto, em seu entender, deixava o leitor deslizar e distrair-se. Outros autores, e é o caso de José Gomes-Ferreira ou Mário Cesariny, por exemplo, associaram os seus poemas ao grito - a uma “estética do grito”, especificou Gomes-Ferreira; e outros ainda valorizaram explicitamente as sonoridades ásperas, afins da “lixa três”, do “vidro moído”, segundo uma formulação de  Alexandre O’Neill. Dir-se-ia que a poesia, arte cuja história se cruza com a da música desde sempre, se afasta de tempos a tempos do conceito de musicalidade e procura na aspereza outros ritmos. Como entender os poetas que dizem resgatar a poesia da influência da música? Como entendê-los sobretudo quando os seus versos parecem não lhes dar razão?

Fazer tempo
POR Tomás Maia

A “música das artes”: não o som que as outras artes procurariam imitar exteriormente ou assinalar graficamente. Mas a música enquanto arte que reduz a arte à sua condição a priori: o tempo. Todas as artes tenderiam então para a música, não como um ideal exterior mas como limite interno de qualquer obra: a expressão do tempo. Se é o tempo que faz e desfaz a vida, se ele é a condição que possibilita na mesma medida em que impossibilita (a vida), a arte fará um tempo que se refaz: um tempo dentro do tempo que é paradoxalmente uma abertura ao fora-do-tempo. A arte abre o tempo à sua própria vinda, parecendo assim suspendê-lo. A essa abertura pode chamar-se ritmo — e tal é o nome geral que proponho para a música das artes. Literal e activamente, a arte faz tempo, e nenhuma arte, mais do que a música, se reduz a esse fazer. «Porque a música | não é silêncio mas silêncio que | anuncia ou prenuncia o som e o ritmo.» (Jorge de Sena, Bach: Variações Goldberg)

Os autores escrevem segundo o Antigo Acordo Ortográfico.

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