Este evento já decorreu.

What has Love Got to do with It?

Performance, Intimidade, Afetividade
Marina Abramovic/ Ulay: Light/Dark, 1977.

Os limites entre esfera pública e privada desvanecem-se. Tal implica, por vezes, a diminuição da participação ativa do cidadão, transformado em mero espectador de outras vidas e intimidades amplificadas através dos media. Por sua vez, os media criam novos espaços de expressão pessoal e coletiva ao permitir tornar visível, com uma facilidade antes impensada, estas relações porosas entre o público e o íntimo.

A intimidade tornou-se o centro das performances públicas, com todas as suas contradições e paradoxos. Esta conferência explora as formas como a performance contemporânea interroga e reformula as experiências e definições de intimidade. Como é que as práticas artísticas questionam as fronteiras entre familiar e não familiar, individual e coletivo? De que forma os media, as redes sociais e a prática de uma vida projetada para um mundo global afeta a compreensão dos espaços de intimidade? Quais os novos lugares do afeto?

Durante dois dias, artistas e investigadores abordam as relações entre performance, intimidade e afeto de uma perspetiva tanto estética quanto política e sociológica.

No final de cada sessão é apresentada uma conversa com Catherine Wood (segunda-feira) e Rabbya Naseer (terça-feira), curadoras e pensadoras em arte contemporânea, que continuarão a aprofundar as temáticas abordadas ao longo do dia. 

Mais informações aqui.

18 FEV 2019
SEG 10:30–18:00

19 FEV 2019
TER 10:30–18:00

Pequeno Auditório e Sala 2
Entrada gratuita*

* Entrada gratuita (sujeita à lotação), mediante levantamento de bilhete no próprio dia a partir das 10:00

Não haverá streaming 10:30-18:00

Parceiros

IHA – Instituto de História da Arte, ICNOVA – Instituto de Comunicação da Nova, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, CEIS20-UC – Centro de Estudos Interdisciplinares do séc. XX, FLUC 

Colaboração

Teatro da Garagem

Coordenação científica

Bruno Marques, Cláudia Madeira, Fernando Matos Oliveira, Giulia Lamoni, Liliana Coutinho

CONVIDADOS ESPECIAIS

Ana Pais, Luís Trindade, Manuel Lisboa, Susana Mendes Silva

Programa What Has Love Got To Do With It

18 FEV 2019

10:30

ABERTURA

Liliana Coutinho, Cláudia Madeira e Giulia Lamoni


10:45 – 11:30

O público, o privado e o político nas obras performativas de jovens artistas e estudantes de belas-artes: um estudo de caso
Teresa Furtado, artista, professora auxiliar no departamento de Artes Visuais e Design da Escola de Artes da Universidade de Évora, CHAIA/UE
Moderação: Bruno Marques, IHA – FCSH-UNL


11:30 – 13:00

MESA 1
 

Sexualidades 
Moderação: Giulia Lamoni, IHA – FCSH-UNL

Falando de amor, divulgação de assuntos íntimos em peças de dança contemporânea
Claire Vionnet, antropóloga, Universidade de Berna

Baixo e Sujo: Intimidades Ecosexuais e o apelo do “pessoal”
Jon Cairns, Critical Studies Leader, Belas Artes BA, Central Saint Martins

Ropework: performance da fragilidade
Daniel Cardoso, FCSH-UNL
Telma João Santos, Universidade de Évora


13:00– 14:00

ALMOÇO
 

14:00 – 14:45

Radio Intimacy – a podcast
Ana Pais, investigadora em Artes Performativas, bolseira FCT de pós-doutoramento no Centro Estudos de Teatro – FLUL/Universidade de Lisboa, dramaturgista, curadora
 

14:45 – 16:15

MESA 2


Resistências
Moderação: Margarida Brito Alves, IHA – FCSH-UNL

Como a intimidade perturba o poder
Claire Schneider, curadora independente em Buffalo (Nova Iorque), fundadora e diretora de projetos curatoriais da C.S.1

Do arquivo privado ao discurso público: Kisieland, de Karol Radziszewki
Flóra Gadó, doutoranda na Universidade Eötvös Loránd - Faculdade de Humanidades, departamento de Cinema, Média e Estudos Culturais, Budapeste (Hungria)
 

16:15 – 16:30

INTERVALO
 

16:30 – 18:00

MESA 3
 

Performatividades
Moderação: Cláudia Madeira, IC – FCSH-UNL

Amor + Outras questões urgentes: a Odisseia do Século 21 de Barbara T. Smith, 1991-1993.
Pietro Rigolo, The Getty Research Institute

Proximidade, emoções e mediação tecnológica das origens da Performance Art italiana
Francesca Gallo, Universidade Sapienza de Roma

Da Vontade do (Im)possível: as duplas artísticas amorosas na Arte da Performance
Nelson Guerreiro, investigador


18:30

KEYNOTE SPEAKER
 

O corpo político: o museu como espaço de intimidade e ação
Catherine Wood, curadora de Performance na TATE Modern
Moderação: Liliana Coutinho, Culturgest e IHC – FCSH-UNL

 

19 FEV 2019


10:30 – 11:10

Tu & Eu
Susana Mendes Silva, artista plástica, professora na Universidade de Évora, DPAO ,i2ADS, FBAUP


11:15 – 12:45

MESA 4
 

Mediações
Moderação: Bruno Marques, IHA – FCSH-UNL

All Together - Feedback Now - Total Access Inc. (revisitar memórias pessoais da Coca Cola e outros afectos pop globalizados)
Paula Caspão, escritora, artista, investigadora de pós-doutoramento (FCT), docente no Centro de Estudos de Teatro (CET/FLUL - UL), investigadora associada no Centro de História Contemporânea (IHC/UNL)

Intimidade e afetividade no ciberespaço
Paula Varanda, PhD, investigadora

O ato de ser "Juntos Sozinhos": cinema lento e re-desenho da interação íntima com o conceito de Realidade
Susana Bessa, escritora


12:45 – 14:00

ALMOÇO


14:00 – 14:30

LEITURA (sala 2)
 

Comunidade
De: Luiz Pacheco
Direção: Ana Palma
Com: Ana Palma, André Simões, Constança Carvalho Neto, Diogo Lopes e Rita Monteiro
Criação: Teatro da Garagem


14:45 – 16:15

MESA 5
 

Narrar
Moderação: Fernando Matos Oliveira

Sobre o desejo feminino em autobiografias poéticas
Ana Lúcia M. de Marsillac, psicóloga e post doc IC, FCSH-UNL
Paulo Jesus, psicólogo, professor de Psicologia na Universidade Portucalense, investigador no Centro de Filosofia – UL


Mulher em pé na frente do espelho. Um projeto íntimo de prática como pesquisa
Sol Garre, Real Escola Superior de Arte Dramática de Madrid


16:15 – 16:30

INTERVALO


16:30 – 18:00

MESA 6
 

Cuidar
Moderação: Liliana Coutinho, Culturgest e IHC – FCSH-UNL

O ágape antropoceno
António Contador, Instituto Acte, Universidade Paris 1/CNRS, artista

Performando o ‘I Care’
Kathryn Lawson Hughes, Faculdade de Arte de Swansea - Universidade do País de Gales Trindade Saint David

"Intravenções" performáticas e questões de amor, cuidado e atraso: passos para um "fazermundo" responsável
Alberto Altés Arlandis, bolseiro PostDoc, coordenador de Métodos e Análises na TU Delft, Faculdade de Arquitetura e Ambiente Construído - Arquitetura


18:30

KEYNOTE SPEAKER
 

Gestos Performativos
Rabbya Nasser, artista, curadora e professora na NCA, Lahore (Paquistão)
Moderação: Giulia Lamoni, IHA – FCSH-UNL

Sinopses What Has Love Got To Do With It

Sinopses Keynotes
 

Título: O corpo político: o museu como espaço de intimidade e ação

Autora: Catherine Wood, curadora de Performance, Tate Modern

O projeto 10,148,451, que Tania Bruguera realizou em 2018 para a Turbine Hall da Tate Modern, será o ponto de partida para discutir o valor do museu de arte através da lente da performance. Construindo uma crítica ao sistema de valores corporificado pelo museu, culminam neste trabalho questões sobre cuidado, intimidade, empatia, centrais no percurso de Bruguera.

Catherine Wood iniciará esta reflexão a partir da sua experiência enquanto assistente de curadoria no Museu Britânico, onde aprendeu a coreografia do cuidado em torno de artefactos antigos, muitas vezes deslocados de contextos culturais e rituais. Uma experiência que considera formativa, uma espécie de modelo para a matriz do museu e dos seus valores materiais e humanos. Agora, como curadora da Tate Modern especializada em performance, a impressão dessa experiência inicial e a sua relevância para a configuração fundamental do museu de arte ocidental persiste e entra em diálogo muitas vezes antagónico com a tentativa de encomendar, exibir e coletar "ao vivo" trabalho de performance, mesmo - ou especialmente - quando este se encontra emaranhado com práticas nos chamados meios tradicionais de pintura ou escultura.

Wood propõe-nos então olhar para o modo como Tânia Bruguera, uma artista emblemática que trabalha com 'performance' como uma prática expandida, começou por realizar um trabalho baseado numa forma íntima de prática de body art e de protesto que se posicionava claramente contra certas práticas materiais em arte (colecionar, vender, etc) e se moveu em direção ao trabalho sobre o 'corpo social' de um modo que, atualmente, transforma os modos de organização da instituição; sempre trabalhando a partir de uma perspetiva localizada, emocional.

Walter Mignolo, que cunhou o conceito de "estética decolonial", escreveu sobre o significado da presença do corpo em termos que ressoam com a modelagem institucional e a autoapresentação de Bruguera, propondo a importância de nos desvincularmos certos princípios abstratos de civilização, para retornarmos à realidade localizada e delimitada. Interrompendo e intervindo na infraestrutura humana da instituição, a partir deste ponto de partida localizado no próprio corpo da artista, o estatuto do museu como um 'guardião' de objetos ou espaço de coleção é posto à prova e ampliado.

 

Catherine Wood (Reino Unido) é curadora sénior de Performance na Tate Modern e curadora da instalação da artista cubana Tania Bruguera (2018) na Turbine Hall. Foi co-curadora da retrospetiva de Robert Rauschenberg (2017), e do programa anual Live Exhibtion in the Tanks, com Fujiko Nakaya e Isabel Lewis (2017) e Joan Jonas e Jumana Emil Abboud (2018). Foi ainda curadora da exposição Yvonne Rainer Dance Works em Londres (2013), entre outras. É autora de Yvonne Rainer: The Mind is a Muscle (2007) e de Performance in Contemporary Art (2018). Escreve regularmente para catálogos e para publicações como Afterall, Artforum e Mousse. 

 

Título: Gestos Performativos

Autora: Rabbya Naseer, artista, curadora e professora na NCA, Lahore, Paquistão

Gestos Performativos explorará os modos pelos quais "Performance" se torna uma ferramenta para reconfigurar o estatuto e a função da arte: da passividade para a agência ativa e o confronto direto. Rabbya Naseer é uma artista interdisciplinar, cuja prática é informada pelo ambiente que a rodeia, considerando as suas produção materiais como um subproduto das suas experiências vividas. Partilhando exemplos da sua prática artística, curatorial e de pesquisa examinar-se-ão questões como: a resistência da Performance Art às definições, e os desafios de arquivar o que é também uma experiência indefinida, ajuda a torná-la algo mais do que a soma de suas partes? Como repensar as relações espaciais entre "objeto de arte", "artista" e "espectador / participante" enquanto partes integrante da estrutura de produção de arte experiencial? Como é que a prática interdisciplinar, através de um esbater consciente de distinções entre "Arte" e "vida cotidiana", ajuda a questionar categorias claramente definidas para ampliar o conceito de arte e os seus afetos? Como tais obras examinam o cotidiano (privado e público) como um domínio no qual os valores sociais são afirmados e contestados e como podem revelar a relação estreita entre "performance" e processos de "organização social"? Pode a investigação e apropriação de "experiências" específicas ajudar a analisar a relação entre o "real" e o "representacional"? E, finalmente, a fim de explorar as noções de verdade, perceção e intimidade no arquivamento de uma experiência indefinida, e da performance, qual é o papel de quem testemunha?

 

Rabbya Naseer (Paquistão) é artista, curadora, professora e crítica de arte. Utilizando a performance como um instrumento, o seu trabalho lida com o quotidiano (privado e público) como um lugar no qual os valores sociais são afirmados e contestados. No projeto curatorial Promises to Keep (2017), Naseer investigou o uso do corpo em ações de autorrepresentação de doze mulheres artistas paquistanesas, de três gerações diferentes, e a forma como as suas obras revelam um envolvimento proactivo destas artistas com questões sociopolíticas. 

 

Sinopses convidados especiais

 

Título: Radio Intimacy – a podcast

Autora: Ana Pais, Investigadora em Artes Performativas, bolseira FCT de pós-doutoramento no Centro Estudos de Teatro – FLUL/Universidade de Lisboa, dramaturgista, curadora

 

Tomando o pulso a espetáculos estreados em Portugal entre 2017 e 2019 –  Peça Feliz, de Miguel Pereira, Tristeza in English from Spanish, de Sónia Baptista, Cinderela, de Lígia Soares, e Mil Coisas Maravilhosas, de Ivo Canelas –, abordarei a noção de sentimentos públicos (ou afecto público), analisando a sua dimensão social, cultural e política e o modo como influenciam a nossa experiência afetiva.

Cunhado por Lauren Berlant (2011), o conceito de sentimento público (ou afeto público) define a esfera pública enquanto mundos de afetos, gerados e negociados coletivamente. Apesar de vivenciarmos intimamente emoções e sentimentos, a esfera privada é condicionada e modelada por forças culturais, económicas e políticas que nos atravessam, fomentando desejos e fantasias que circulam através da repetição de narrativas culturais.

Por que razão aqueles artistas escolheram abordar a felicidade, a tristeza, a depressão e o amor romântico nas referidas criações, num momento da sociedade portuguesa pós-Troika e em plena vigência de um Presidente da República apelidado, antes mesmo de tomar posse, de “o Presidente dos afetos”?

Ana Pais é bolseira FCT de pós-doutoramento em artes performativas (Centro Estudos de Teatro, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), dramaturgista e curadora. É autora do livro O Discurso da Cumplicidade. Dramaturgias Contemporâneas (Colibri 2004) e de Ritmos Afectivos nas Artes Performativas (Colibri 2018). Organizou ainda a antologia Performance na Esfera Pública (2017, Orfeu Negro) e a sua versão em inglês disponível online em www.performativa.pt. Foi crítica de teatro no Público e no Expresso. Como dramaturgista, colaborou com criadores de teatro e dança em Portugal e, como curadora, concebeu, coordenou e produziu vários eventos de curadoria discursiva, dos quais destaca o Projecto P! (Lisboa, 10-14 Abril 2017).

 

Título: O público, o privado e o político nas obras performativas de jovens artistas e estudantes de belas-artes: um estudo de caso

Autora: Teresa Furtado, artista, professora auxiliar no Departamento de Artes Visuais e Design da Escola de Artes da Universidade de Évora, CHAIA/UÉ

Esta comunicação pretende salientar o modo como o público e o privado são tratados na atualidade por jovens artistas e estudantes de belas-artes nos seus trabalhos performativos, entre outros, em espaços tradicionais ou alternativos, em plataformas físicas ou digitais, que não enclausuram o privado numa caixa à qual ninguém tem acesso. O estribilho «o que é pessoal é político», que chamou nos anos 1970 a atenção para o facto de a esfera íntima ser, tal como a esfera pública, um espaço onde se exerce o poder, designadamente o poder desigual da relação privada entre mulher e homem, e que foi largamente tratado na performance desde então, toma agora novas formas no campo artístico atual. Esta análise, realizada a partir da minha experiência e trabalho como professora e investigadora no Departamento de Artes Visuais e Design da Escola de Artes da Universidade de Évora (UÉ), e no Centro de História de Arte e Investigação Artística da UÉ, cruza de modo transdisciplinar as artes visuais, a sociologia e os estudos de género, com perspetivas feministas, LGBTI e queer. Com este ponto de partida e no âmbito da sala de aula, criámos projetos artísticos sob a forma de exposições, performances e debates, apresentados na academia e na comunidade envolvente, numa perspetiva de desconstrução de estereótipos e dicotomias hierarquizadas de género, procurando contribuir de um modo positivo para a mudança social neste âmbito.

 

Teresa Veiga Furtado é artista, professora auxiliar no Departamento de Artes Visuais e Design da Escola de Artes da Universidade de Évora (CHAIA/UÉ), membro integrado do Centro de História de Arte e Investigação Artística da UÉ e membro associado do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (CICS.NOVA/NOVA FCSH). As suas áreas de investigação são a Arte e os Estudos de Género. Licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, Mestre em Printmaking pelo Royal College of Art, em Londres e Doutorada em Sociologia pela NOVA FCSH com a tese “Videoarte de Mulheres: Nossos Corpos, Nós Mesmas. Corpo, Identidade e Autodeterminação nas Obras de Videoartistas Influenciadas pelos Feminismos”. Foi curadora e organizadora de vários projetos, entre eles, a mostra “Vídeo e Género” no âmbito do ciclo “Gender Trouble”, no Teatro Maria Matos, e da mostra “Género na Arte. Corpo, Sexualidade, Identidade, Resistência”, com Aida Rechena, no Museu Nacional de Arte Contemporânea - Chiado.

 

Título: Tu & Eu

Autora: Susana Mendes Silva, Artista Plástica e Professora Universidade de Évora, DPAO ,i2ADS, FBAUP

 

A arte é sempre pública, porque é sempre feita para as/os outras/os.

Mas enquanto artista plástica e performer interessa-me como podemos apropriar-nos dos mecanismos da intimidade. Como é que eu posso realmente dirigir-me a ti, em vez de a um público heterogéneo?

A partir da minha prática artística irei abordar a noção de intimidade e as metodologias com que construo o meu trabalho.

Como é que podemos ativar esses mecanismos para criar situações em que a vida se entrelaça com o trabalho, para construir ferramentas afetivas e críticas e, para podermos criar espaços de pensamento livre e igualitários?

A conferência performativa será em Inglês.

As/os participantes irão ser convidados a usar uma venda durante alguns minutos.

 

Susana Mendes Silva (Lisboa, 1972) é artista plástica e performer. O seu trabalho integra uma componente de investigação e de prática arquivística, que se traduz em obras cujas referências históricas e políticas se materializam em exposições, ações e performances através dos mais diversos meios de produção. O seu universo contempla e reconfigura contextos sociais diversos sem perder de vista a singularidade do indivíduo. A sua intimidade psicológica ou a sua voz são inúmeras vezes veículos de difusão e receção de mensagens poéticas e políticas que convocam e reativam a memória dos participantes e espectadores.

Susana estudou Escultura na FBAUL e frequentou o programa de doutoramento em Artes Visuais (Studio Based Research) no Goldsmiths College, Londres, tendo sido bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian. É Doutorada em Arte Contemporânea, pelo Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, com a tese baseada na sua prática performativa – A performance enquanto encontro íntimo. É Professora Auxiliar na Universidade de Évora no curso de Arquitectura Paisagista.

 

Sinopse leitura  Comunidade

Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro, e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, como um tufo de penugem preta cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem compassadamente silenciosamente duma igual vivificante seiva.

 

Luiz Pacheco

Comunidade (1964)

 

FICHA TÉCNICA E ARTÍSTICA

Texto de Luiz Pacheco

Direção Ana Palma

Com Ana Palma, André Simões, Constança Carvalho Neto, Diogo Lopes e Rita Monteiro

Criação Teatro da Garagem

Parceria Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa

Apoios Câmara Municipal de Lisboa, EGEAC, Junta de Freguesia de Santa Maria Maior

Financiamento Governo de Portugal | Ministério da Cultura e Direção-Geral das Artes

 

O Teatro da Garagem, Companhia que celebra 30 anos de atividade regular em 2019, dedica o seu trabalho artístico à pesquisa e experimentação, através da investigação de novas formas de escrita para teatro e de novas formas cénicas que a acompanham. O Teatro da Garagem iniciou, como o nome indica, a sua atividade numa garagem dos subúrbios de Lisboa, uma zona híbrida, de mistura de paisagens e referências, que influenciou de uma forma indelével o trabalho da Companhia e a escrita do seu dramaturgo, encenador e diretor artístico, Carlos J. Pessoa. O percurso do Teatro da Garagem é reconhecido pelo público nacional e internacional, pela crítica especializada, pelas instituições culturais e pelas estruturas governamentais, acrescentando ao projeto uma responsabilidade para com a comunidade local, nacional e internacional. O projeto artístico e pedagógico da Companhia constitui, inequivocamente, um projeto de Serviço Público.

Desde 2005/2006, o Teatro da Garagem é a Companhia residente do Teatro Taborda, a convite da EGEAC e da Câmara Municipal de Lisboa.

 

Sinopses mesas redondas:

1.

Título:  "Intravenções" performáticas e questões de amor, cuidado e atraso: passos para um "fazer mundo" responsável

Autor: Alberto Altés Arlandis, Bolseiro PosDoc / Coordenador de Métodos e Análises na TU Delft, Faculdade de Arquitetura e Ambiente Construído - Arquitetura

Nós, os arquitetos, artistas, designers e pensadores, os habitantes e os criadores dos mundos em que vivemos, precisamos de práticas responsáveis ​​que nos tornem conscientes das coisas que nos importam e das maneiras pelas quais elas nos importam: o impacto que isso tem no do mundo. O amor e o cuidado não-cínicos são as nossas ferramentas e energias, intensidades e atenções, para resistir ao cinismo e à irresponsabilidade tóxica. 

Nesta comunicação abordarei as interações entre a matéria e cuidado, como substantivos e verbos, compreendendo o cuidado como um fazer, como uma ética situada e uma política da arquitetura, para explorar o frágil poder da ação e partilha anárquica: uma escuta ativa, um dom generoso, um encontro aberto baseado em aceitar que não somos seres únicos e que suportamos cuidadosamente a espera de se tornar com os outros em / através de uma prática constitutiva, chamemos-lhe, anfíbia.

Alberto Altés Arlandis estudou arquitetura e planeamento urbano em Valladolid, Barcelona e Delft, e teoria crítica no Programa de Estudos Independentes do MACBA, em Barcelona. Bolseiro de pós-doutoramento no Departamento de Arquitetura da TU Delft (NL), explora as relações de fragilidade, afinidade e cuidado, e o poder da coreografia, dança e amor, para informar uma abordagem sensível e responsável às práticas e pedagogias do “fazer mundo”. Foi conferencista convidado no Konstfack em Estocolmo (SE) e na Academia de Estudos da Paisagem e Território em Tromsø (NO). Foi professor assistente na Umeå School of Architecture (2011-2017), onde cofundou e codirigiu o Laboratório de Intervenção Arquitetónica Imediata; e professor da Escola de Arquitetura ETSAV em Barcelona (2006-2011), onde defendeu a sua tese de doutoramento intitulada Atrasando a Imagem: Rumo a uma Estética do Encontro.

 

2.

Título : O ágape antropoceno

autor: António Contador, Instituto Acte, Universidade Paris 1/CNRS, artista.

 

Partindo das noções de “anartista” (Duchamp), “un-artista” (Kaprow) e “artista-sem-obra” (Jouannais), interessei-me pelo aceno do “Senhor do Adeus”, problematizando-o enquanto gesto artístico, apesar de nunca ter sido reivindicado enquanto tal pelo próprio. Uma comunicabilidade (Benjamin) assente numa extrema polidez, é o que autoriza a leitura desse aceno enquanto gesto artístico limite. “Gesto artístico” porque, tal como outros validados pela história de arte, a comunicabilidade na qual assenta desafia os limites do comum. E “limite”, porque permite pensar nos limites da prática artística assente no trabalho.

Em 2015, no contexto duma residência artística no espaço Hangar em Lisboa, a mesma questão (os limites da arte) e a mesma resposta (a polidez) foram mote para um projeto intitulado “Matérias Baixás” que consistia em recolher, cuidar e repor nos sítios da recolha objetos encontrados nas ruas ou, segundo o prisma adotado, deixados à mercê dum possível cuidador.

A polidez do Senhor do Adeus e o seu aceno, o cuidar de objetos “sem dono” são ramos da mesma árvore: o ágape. Distinto do amor passional (eros) e do amor-amizade (philia), o ágape não é um sentimento evidente e natural, nem tão pouco uma espécie de cuidado básico com o outro. Implicando uma conversão radical do ser e de olhar o mundo, o ágape exige que se ame a si próprio, para que tudo o que seja exterior a si seja amado de igual modo. Por conseguinte, o outro (humano, animal, vegetal, objectal) não é mais do que uma oportunidade para amar.

Com base nessas duas experiências (“Senhor do Adeus” e “Matérias Baixás”) proponho desvendar um ágape, liberto do seu desiderato humanista e teológico (Santo Agostinho), potenciador duma comunicabilidade-mundo feita expressão artística.

 

Antonio Contador vive e trabalha em Paris. Deixa Vitry-sur-Seine (subúrbios de Paris) no início dos anos 1990 para se instalar em Lisboa e aí tornar-se sociólogo. Os seus trabalhos enquanto investigador em sociologia tinham a juventude negra portuguesa como foco central. O regresso a Paris (meados de 2000) e o doutoramento em estética na Universidade Paris 1 desvendam novas problemáticas sobres as quais ainda se debruça: os limites (désœuvrement) do corpo e linguagens humanas, e da prática artística. O seu interesse pelo Senhor do Adeus é disso sintoma. Na fronteira entre diferentes valências – artista, curador, autor, teórico – as suas realizações foram vistas e/ou ouvidas em França (Palais de Tokyo, Fundação Ricard, Fundação Calouste Gulbenkian, Villa Arson, etc.) e no estrangeiro (Fundação Serralves no Porto, Wiels em Bruxelas, Museu da República no Rio de Janeiro, Museu Nacional de Arte Contemporânea em Bucareste entre outros).

 

3.

Título: Sobre o desejo feminino em autobiografias poéticas

Autores: Ana Lúcia M. de Marsillac, Psicóloga e post doc IC, FCSH-UNL e Paulo Jesus, Psicólogo, professor de Psicologia na Universidade Portucalense e investigador no Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa

Autobiografias poéticas articula autobiografias literárias e visuais. Estas apresentam-se como formas de habitar e significar a incompletude, num diálogo com o outro do desejo infinito e incognoscível, revelando o seu quotidiano e sua intimidade, rompendo com as fronteiras entre o privado e o público.

Num encontro anacrônico entre três mulheres artistas que desenvolveram autobiografias - Frida Kahlo, Sylvia Plath e Ana Casas Broda - perseguiremos as ondulações do desejo na corporeidade e na expressividade feminina, nos confins das experiências-limite da natalidade e da mortalidade. As obras destas artistas constroem ficções de si e aproximam-nos do conceito de desejo. Buscaremos analisar como se manifesta o desejo nestas poéticas e avançar teoricamente (com Freud, Winnicott e Lacan) neste campo de intersecção entre intimidade, subjetividade e estética. 

 

Ana Lúcia Mandelli de Marsillac é Psicóloga (2000) (UFRGS / Brasil) e psicanalista, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA). Professora (2013) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC / Brasil), no Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Pós-doutoranda no IC Nova - FCSH / UNL (Portugal). Doutorada (2011) em Artes Visuais - História, Teoria e Crítica (UFRGS) e Mestre (2005) em Psicologia Social e Institucional (UFRGS). Investiga e publica nas áreas da psicanálise, arte e saúde. Desde 2015, é coordenadora do Laboratório de Pesquisa em Psicanálise, Processos Criativos e Interações Políticas (UFSC - CNPQ). Em 2018, lançou o livro: Aberturas Utópicas: arte, política e psicanálise, ed. Appris.


Paulo Jesus é Mestre em Psicologia (2000, Universidade de Coimbra, Portugal e Université Catholique de Louvain, Bélgica) e Doutor em Filosofia (2006, EHESS, Paris, França), foi investigador de pós-doutoramento na Universidade de Columbia e NYU (2007- 08) e no CREA (Paris, 2009-10). A sua investigação enfoca principalmente a construção narrativa da individualidade, da memória autobiográfica e da identidade pessoal, a partir de uma perspetiva fenomenológica, psicodinâmica e cognitiva. Tem sido investigador principal de um projeto interdisciplinar intitulado “Poética da individualidade: memória, imaginação e narratividade” (financiado pelo Ministério de Educação Superior e Ciência). É docente de Psicologia na Universidade Portucalense e investigador no Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa (Portugal).

 

4.

Título: Como a intimidade perturba o poder

Autora: Claire Schneider, curadora independente em Buffalo, Nova Iorque e fundadora e diretora de projetos curatoriais da C.S.1

 

Os artistas recorrem cada vez mais a intimidade como um meio para criticar as estruturas de poder. Sharon Hayes realiza protestos de uma só pessoa que oscilam entre o expressar o anseio por um amante e a raiva sobre guerra. Antonio Vega Macotela está de luto, dançando e abraçando parentes por aqueles que estão na prisão. Como Martin Luther King, estes artistas usam o amor como um meio de transformar corações com um fim político. A sensação de proximidade é implantada como um vírus para infetar todos os tipos de instituições, principalmente aquelas que antes eram progressistas, mas que se tornaram rígidas ou obsoletas. A história da arte da performance sempre foi sobre experiências íntimas e muitas vezes desconfortáveis, mas agora trata-se de usar o poder da vulnerabilidade para criar a experiência de conexão - conexão humana através da emoção partilhada, e não de um dispositivo portátil.

 
Claire Schneider é curadora independente em Buffalo, Nova Iorque e fundadora e diretora da C.S.1 Curatorial Projects, comissária e produtora de projetos de arte em espaços inesperados. Atualmente, o C.S.1 lidera Nick Cave PLENTY, junto de Hallwalls Contemporary Art Centre, Universidade de Buffalo e escolas públicas de Buffalo. Em 2013, Schneider organizou a exposição itinerante Mais Amor: Arte, Política e Partilha a partir da década de 1990, para o Ackland Art Museum, UNC-Chapel Hill. Acompanhada por um catálogo de 240 páginas, More Love ganhou o Prêmio AAMC para a Melhor Exposição. Schneider foi Curadora Associada de Arte Contemporânea, Albright-Knox, 1998-2008, e curadora sénior do Museu de Arte Contemporânea de Scottsdale, 2008-2010. Natural de Nashville, Tennessee, Schneider é mestre em história da arte no Williams College.

 

5.

Título: Falando de amor, divulgação de assuntos íntimos em peças de dança contemporânea

Autores: Claire Vionnet, antropóloga, Universidade de Berna

 

O que acontece quando os coreógrafos trazem temas íntimos para o palco? Nesta comunicação, discutirei a divulgação da intimidade, a partir de peças de dança europeias contemporâneas que retratam questões de amor, sexualidade, pornografia e género (Mette Ingvartsen, Doris Uhlich). Esta externalização da esfera privada na área pública leva os artistas e o público a compartilhar uma experiência íntima. Como é a incorporação de tais intimidades afeta os corpos dos performers? E o que significa para o público ser convidado a testemunhar a intimidade dos outros? Estas questões permitir-nos-ão discutir a noção de intimidade nas suas dimensões concetual, etimológica e histórica. Irei argumentar que, se bem que uma zona íntima esteja presente em todas as culturas, os limites dessa esfera são flexíveis e negociáveis, também dentro de uma cultura.

 

Claire Vionnet estudou ciências sociais na Universidade de Lausanne. Escreveu uma tese de doutoramento sobre o gesto na dança contemporânea, combinando estudos de dança, antropologia e prática de dança. Conduziu trabalho de campo em companhias de dança profissionais na Suíça, participando da produção de peças de dança. Para ampliar seu quadro teórico, colaborou com o Instituto de Estudos de Dança e Teatro, em Berna (Prof. C. Thurner) e com o Instituto de Antropologia, em Aberdeen (Prof. T. Ingold). Colaborou também em produções de dança como “olho externo”, investigadora e assistente de reuniões. Escreve sobre a dança Suiça (2015), sobre as condições de trabalho nas companhias (2016), sobre colaboração entre arte e antropologia (2016) e interpretação (2017). Atualmente realiza uma investigação de pós-doutoramento onde explora a intimidade do corpo dançante.

 

6.

Título: Ropework: performing fragility

Autor: Daniel Cardoso, ECATI-ULHT / NOVA FCSH, e Telma João Santos, Universidade de Évora  

Ropework: performing fragility é uma performance onde narrativa académica, de género, o ropework e a matemática se juntam para criar uma paisagem transdisciplinar e provocar um debate sobre como a categorização de objetos específicos nos permite pensar sobre a importância do pensamento interseccional em todas as direções. Desestigmatizando símbolos-ações como o ropework, propomos um deslocamento do contexto, no qual a força reside na fragilidade e a fragilidade está embutida na força. Isto permitir-nos-á explorar como o género e as emoções são processados ​​dentro e através da carne, assim como ver de que outras maneiras a carne pode ser implantada e (re)estilizada, e como esta reestilização pode contribuir para uma ampliação da inteligibilidade de diferentes vidas e experiências.
(performance realizada com a colaboração, na sonoplastia, de Gabriela Marramaque (Ergonoise)).

 

Daniel Cardoso é doutorado em Ciências da Comunicação, professor assistente na ULHT e professor convidado na Universidade FCSH NOVA. Investiga sobre não-monogamias consensuais, BDSM, género e sexualidades, especialmente em torno dos novos medias e ciberculturas. É fotógrafo amador, rigger, performer, cinegrafista e ativista. www.danielscardoso.net

 

Telma João Santos é doutora em matemática e doutora em artes, leciona na Universidade de Évora desde 1999. Investigadora, focada em encontrar metodologias e modelos relacionais na criação artística em espaços restritos como manifestos. Tem artigos publicados em revistas como Performance Research, Liminalities, Leonardo, entre outras. Pesquisa e documenta vários processos artísticos de bailarinos e intérpretes portugueses. www.telmajoaosantos.net

 

7.

Título: Do arquivo privado ao discurso público: Kisieland, de Karol Radziszewki

Autora:Flóra Gadó, doutoranda na Universidade Eötvös Loránd - Faculdade de Humanidades, Departamento de Cinema, Média e Estudos Culturais, Budapeste, Hungria

 

Na minha conferência pretendo apresentar o projeto Kisieland (2009) de Karol Radziszewski, artista polaco que nas suas obras aborda recorrentemente histórias marginalizadas ou nunca antes contadas. O seu ponto de partida aqui é o arquivo privado de Ryszard Kisiel que nos anos 80 havia documentado várias performances queer em apartamentos privados. Nas partes mais interessantes do filme, juntamente com uma jovem modelo, Kisiel reencena alguns desses eventos com base em fotografias de arquivo. O projeto levanta as seguintes questões: Como podemos repensar as mudanças de estatuto da performance arte quando esta passa dos apartamentos privados para as atuais exposições em museus? O que podemos aprender com o arquivo de Kisiel, que dilui as noções de privacidade, de intimidade e de géneros não binários; e com o projeto de Radziszewski, que desloca o arquivo privado para a esfera do discurso público? Pretendemos ainda destacar o papel do artista enquanto ativista, para quem as noções de intimidade e afeto se tornam numa ferramenta política.

 

Flóra Gadó (1989) é curadora, crítica de arte e investigadora de doutoramento em Budapeste. Atualmente, é doutoranda no Departamento de Cinema, Media e Teoria da Cultura da Universidade Eötvös Loránd. Na sua dissertação, estuda os diferentes tipos de abordagem e estratégia crítica que os artistas da região da CEE usam quando lidam com o passado. Flóra Gadó organizou exposições na Hungria e em países vizinhos, tais como as que tiveram lugar na Kisterem Gallery e na Gallery 2B (Budapeste), na Klubovna Gallery (Košice) e na Galeria Klubovna (Brno). A partir de outono de 2018, curadora da Budapest Gallery, um centro de arte contemporânea na Hungria. Participou em vários programas de residência curatorial, como Meetfactory em Praga ou Generator em Rennes. É vice-presidente da Studio of Young Artists’ Association.

 

8.

Título: Proximidade, emoções e mediação tecnológica das origens da Performance Art italiana

Autora: Francesca Gallo, Universidade Sapienza de Roma

 

Este contributo destina-se não só a colocar o foco de atenção nas performances de artistas italianos que trouxeram os temas da emoção e intimidade à tona tanto em exposições ao vivo como em ações registadas em vídeo e em fotografia, como pretende ainda refletir a respeito das consequências de escolher entre um e outro meio, através de obras de Giuseppe Chiari, Ketty La Rocca e Michele Sambin. Os artistas centram-se em observadores diretos e recorrem a registros vídeo e fotográficos a fim de alcançar um público mais amplo, permitindo assim que o seu trabalho sobreviva para lá do principio do aqui e agora. A fotografia, em boa verdade, tende a congelar o instante e a construir uma iconografia única, "sintética", enquanto os registos vídeo preservam os elementos narrativos frequentemente relacionados com a dimensão autobiográfica da performance. Porém, paradoxalmente, é a fotografia que tem largamente assegurado uma maior visibilidade, penalizando aqueles artistas que almejam um registro mais abrangente e envolvente do seu trabalho ao usar registos vídeo.

 

Francesca Gallo (francesca.gallo@uniroma1.it) é doutorada, lecionando, desde 2011, História da Arte Contemporânea na Universidade Sapienza de Roma. Estuda as neo-avanguardas italianas - artistas, críticos, revistas e exposições - com um específico enfoco na videoarte e performance arte (“Ricerche di Storia dell'Arte”, respectivamente 2006 e 2014). Escreveu também sobre Ketty La Rocca (Postmediabooks 2015; Bienal Donna 2018), Videogiornali na 10ª Quadriennale de Roma (“L'Uomo nero” 2018) e arte em contexto social (Raccontare la città contemporanea, A. Bertone-L. Piccioni eds., Roma-Marselha 2018). Dedicou a sua investigação de doutoramento à exposição Les Immatériaux (Centre Pompidou 1985), a respeito da qual publicou vários ensaios e um livro (Roma 2008).

 

9.

Título: Baixo e Sujo: Intimidades Ecosexuais e o apelo do “pessoal”

Autor: Jon Cairns, Critical Studies Leader, Belas Artes BA, Central Saint Martins

 

As práticas de ecosexo de Annie Sprinkle e Elizabeth Stephens fazem um apelo erótico a fim de abraçar uma nova versão de política ambiental. As suas várias atividades de ecosex flertam com o ridículo, mas levam a sério o fato de nos levar a um recente relacionamento pervertido com o que, de outra forma, é comum e familiar, tanto política quanto sexualmente. Elas exortam a tornarmo-nos íntimos da terra, a nos rebaixarmos e a nos sujarmos, de forma a reconectarmo-nos com a divisa de que "o pessoal é político". "Eco-intimidades" sugestivas são modeladas por elas para forjar novas subjetividades eco-conscientes. Mas enquanto rebolam nuas no chão durante as suas performances, elas parecem se fertilizar, desagregando-se simbolicamente de uma forma entrópica e erótica. O que pode resultar desse novo composto? E o meu envolvimento íntimo com elas? Como posso manter a distância correta perante as minhas ligações pessoais a fim de permitir uma proximidade crítica?

 

Jon Cairns é professor de Belas Artes na Central Saint Martins, University of the Arts London, onde é Critical Studies Leader. Pesquisas recentes exploraram a ambivalência do afeto, especificamente no contexto do trabalho de Adrian Howells e de Annie Sprinkle e Elizabeth Stephens. Tal integra um projeto mais amplo sobre emoção, interação íntima e o encontro crítico com a arte. Trabalhos anteriores examinaram questões de valor no contexto da recessão, enquanto a prática colaborativa anterior incluiu o trabalho online e curatorial, centrando-se nas explorações do fictício e do efabulatório.

 

10.

Título: Performando o ‘I Care’

Autora: Kathryn Lawson Hughes, Faculdade de Arte de Swansea - Universidade do País de Gales Trindade Saint David

 

Esta apresentação performativa ocupa-se da proposição do crítico de arte e teórico cultural Jan Verwoert, formulada no seu ensaio intitulado ‘Exhaustion and Exuberance: Ways to Defy the Pressure to Perform’ (Exaustão e exuberância: modos de desafiar a pressão para performar", 2017), de que performar no sentido de ‘I care’ mina e problematiza os estreitos parâmetros que definem as possibilidades de agenciamento nas economias culturais globais atuais. A sintonização dos nossos corpos e ações integradas no gesto de cuidar, adotando o ‘I care’ enquanto estratégia e metodologia para a performance, permite-nos explorar um recurso exuberantemente abundante de potencialidades incondicionais para a ação; um agenciamento ativado em nós, "de e para o outro" (Verwoert, 2017, p. 231). Por sua vez, o espaço performativo torna-se o lugar transitório carregado de afetos e intimidades, o lugar da provocação e da mediação, no qual podem ocorrer mudanças radicais.

 

Kathryn Lawson Hughes é investigadora de doutoramento no Swansea College of Art (País de Gales, Reino Unido), cuja pesquisa é possibilitada por uma bolsa do Fundo Social Europeu (Knowledge Economy Skills Scholarship II). A sua prática performativa preocupa-se em renegociar entendimentos sobre a subjetividade contemporânea, a identidade e as perceções de movimento e do corpo na era pós-digital. À medida que as interfaces digitais permeiam cada vez mais as nossas vidas e entendimentos de corporeidade, a sua prática procura promover um espaço de negociação, cultivando, por meio de metodologias de pesquisa performativas, um léxico, a fim de podemos "falar" melhor com e pelos nossos corpos no contexto da atual condição pós-digital.

 

11.

Título: Da Vontade do (Im)possível: as duplas artísticas amorosas na Arte da Performance

Autor: Nelson Guerreiro, investigador

 

Esta comunicação explorará o trabalho de duplas artísticas amorosas, sobretudo no campo da arte da performance, ressaltando aspectos, dinâmicas, temáticas e questões, quer na esfera privada, quer na esfera publica. Interessa-nos averiguar as idiossincrasias de algumas duplas artísticas amorosas, super-heroínas na vida real que desafiaram os cânones e reconfiguraram o (seu) mundo numa auto-modelação relacional através das artes e, sobretudo, da performance.

Essa submersão profunda na intimidade e na criação de “artistas-amores” permitirá evidenciar múltiplas temáticas, tais como: o romance fora de parâmetros vs o romance tradicional; as histórias de amor eternas vs os desgostos amorosos e respetivas biografias trágicas; amor e desamor, a extensão pessoal, passional e profissional; ciúme e desespero vs aceitação e liberdade; normatividade social proibitiva e tabus, a vulnerabilidade, a fragilidade, a estupidez vs vitalidade, arrebatamento e sabedoria no amor; entre outras. Veremos como estes pares de artistas trabalham juntos para desfocar intencionalmente as fronteiras do esforço individual e do ego, etc.

 

Nelson Guerreiro foi, entre 2004 e 2018, docente na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha. A partir de 2001, voltou-se para a criação: desse movimento desenvolveu vários projetos individuais e coletivos nos campos do teatro, arte da performance e literatura. A partir de 2014, formou com Filipa Brito a dupla artística Vaivém. Têm desenvolvido um projeto sobre colecionismo nas Artes, intitulado “Coleção Privada” que teve Vasco Araújo como primeiro artista convidado. Este projeto procura explorar as coleções de arte públicas e privadas, questionando as suas implicações funcionais e subjetivas, mas também a sua operatividade e disposição expositiva. Neste momento, investiga e disserta sobre ”O (Des)Formato da Conferência-Performance como Interstício Paradisíaco entre Pensamento e Artes”.

 

12.

Título: All Together - Feedback Now - Total Access Inc. (revisitar memórias pessoais da Coca Cola e outros afectos pop globalizados)
Autora: Paula Caspão 


A imagem veiculada pelo anúncio publicitário da Coca Cola – “I’d like to buy the world a Coke”, 1971 – é o epítome de uma fórmula que tem vindo a intensificar-se com a expansão da Internet e plataformas associadas: junte-se aos demais, tornem-se íntimos, partilhem tudo e mais alguma coisa, socializem até mais não poder, deixem operar a magia e continuem até à exaustão, recomecem, não parem. Satisfied with your toilet experience today? – é uma pergunta que li recentemente enquanto lavava as mãos na casas de banho de um aeroporto, com a indicação suplementar ‘go to’: feedbacknowfrance.fr. A pressão para interagir, para nos mantermos conectados [em linha, ou melhor: na linha = on(-the-)line, como sugeremHarney & Moten (2015)] e dar expressão às nossas experiências mais íntimas persegue-nos actualmente até à casa de banho. A injunção para partilhar a experiência pessoal e andar a par da experiência pessoal de toda a gente tornou-se ubíqua, com o objectivo principal de continuar a alimentar o já desmesurado poder “de quem controla as plataformas sociais em que todos nós criamos, consumimos e nos interconectamos” (Taylor, 2014). Todos cada vez mais parecidos com instâncias bancárias (Rogoff 2017). Esta comunicação aborda a quase completa extinção de espaços de partilha de intimidade (pessoal e/ou colectiva) que escapem à comercialização e aos dispositivos de vigilância omnipresentes na cultura e nos espaços públicos contemporâneos.   
*https://www.coca-colacompany.com/stories/coke-lore-hilltop-story

 

Paula Caspão (P/F)

Escritora e artista, investigadora de pós-doutoramento (FCT) e docente no Centro de Estudos de Teatro da Universidade de Lisboa (CET/FLUL); investigadora associada no Centro de História Contemporânea, Universidade Nova de Lisboa (IHC/UNL). Doutorada em Filosofia (epistemologia e estética) pela universidade de Paris-10, foi visiting scholar no departamento de Estudos de Performance da Universidade de Nova Iorque (2018). Actualmente investiga os gestos, as ecologias e as poéticas implicadas nas práticas específicas e nas formas de trabalho (i)material que constituem o museu, o arquivo e o fazer histórico. Explorando procedimentos de contaminação entre as práticas coreográficas e as práticas teóricas e/ou documentais, o seu trabalho artístico e teórico tem sido apresentado através da Europa, Austrália e EUA desde 2005. É autora de Relations On Paper (2013), editora de The Page As a Dancing Site (2014) e Pièces Assemblées (2017).  

 

13.

Título: Intimidade e afetividade no ciberespaço

Autora: Paula Varanda, Doutora, investigadora

 

Perante uma realidade de emoções, conhecimento e interação social mediada e ampliada pelas tecnologias de informação e comunicação, a estética e a interação computador-humano interessam-se em compreender como a afetividade e a intimidade determinam o nosso envolvimento com as obras de arte digitais. Para as obras-acontecimento latentes, que requerem a ação voluntária do público para se tornarem atuais, a qualidade da experiência é crítica. Neste contexto, serão apresentadas três obras de arte que catalogo como performance-novos-media, para demonstrar como elas instigam uma relação multissensorial e a consciência de si e do social. O afeto, como uma prática incorporada de julgamento que afirma a adequação do trabalho baseado em imagem, contribui para amar a experiência e permanecer ligado, numa troca íntima onde o espaço público e privado convergem.

 

Paula Varanda (PT) doutorou-se na Middlesex University em janeiro de 2016, com a tese “Performance de dança no ciberespaço - transferência e transformação”. O seu trabalho de escrita e pesquisa em artes performativas e projetos culturais foi apresentado em conferências e publicado em livros, jornais e catálogos em Portugal e na Europa. Escreveu crítica de dança no jornal Público (2004-2016); foi diretora artística do Dansul - projeto regional de dança para a comunidade no sudeste alentejano (2008-2015); e foi Diretora da Direção Geral de Artes do Ministério da Cultura (2016-2018).

 

14.

Título: Amor + Outras questões urgentes: a Odisseia do Século 21 de Barbara T. Smith, 1991-1993.

Autor: Pietro Rigolo, The Getty Research Institute

Barbara T. Smith (Pasadena, 1931) está na vanguarda da arte radical da Califórnia há mais de 50 anos. Considerada uma pioneira da performance e arte feminista em Los Angeles, o seu trabalho ainda precisa ganhar a atenção que merece fora da região.The 21st Century Odyssey é uma performance duracional feita em colaboração com Roy Walford, parceiro de Smith à época. Walford, um dos participantes do experiência Biosphere 2 no sul do Arizona, passou dois anos dentro da instalação de pesquisa, um sistema ecológico completamente independente do nosso planeta. Ao mesmo tempo, Smith envolveu-se em várias viagens à volta do mundo, durante as quais ela colaborou com artistas locais em performances, workshops e palestras. Durante toda a duração da peça, Smith documentou a sua vida em dezenas de videocassetes Hi8. Este trabalho, na sua essência, tem a ver com a relação entre dois indivíduos radicais, que decidiram desafiar as suas próprias vidas e sentimentos ao mesmo tempo em que enfrentam problemáticas transversais do seu tempo, como a ecologia, a tecnologia de comunicação em expansão e a crescente dimensão global do mundo da arte.

 

Pietro Rigolo obteve o seu doutoramento pela Università degli Studi di Siena / Istituto Italiano di Scienze Umane. Em 2013, ingressou no Getty Research Institute (GRI) como especialista na equipe de catalogação do arquivo de Harald Szeemann. Ele é um dos editores de Selected Writings by Harald Szeemann (GRI 2018), a primeira antologia inglesa dos escritos do curador, e um dos curadores de Harald Szeemann: Museum of Obsessions, atualmente em itinerância internacional, com abertura em 25 de fevereiro em Castello di Rivoli, na Itália.

Na GRI, também trabalhou em outras coleções de arte contemporânea, tais como os trabalhos de Barbara T. Smith, os documentos de Maurice Tuchman e os registros da Margo Leavin Gallery. A sua pesquisa centra-se na arte moderna e contemporânea, história das exposições e estudos curatoriais.

 

15.

Título: Mulher em pé na frente do espelho. Um projeto íntimo de prática como pesquisa

Autor: Sol Garre, Real Escola Superior de Arte Dramática de Madrid

 

Standing in front of a mirror é uma performance que explora junto do público a qualidade da atenção e disponibilidade necessárias para compartilhar a nossa experiência e sensibilidade como seres humanos. Das Letzte, um pequeno vídeo de uma performance de dança servirá para apresentar o processo de elaboração da performance: um estudo da perceção e dos processos criativos que regulam o comportamento e a personificação do ator e sua comunicação com o espectador. Explora os processos psicofísicos que dirigem a presença e imaginação da atriz no palco, bem como a abertura, consciência e generosidade necessárias para enfrentar esses processos.

 

Sol Garre estudou como atriz na Espanha aperfeiçoando a técnica de atuação de Michael Chekhov desde 1995. É professora sénior na Real Escuela Superior de Arte Dramático de Madrid atuando no teatro físico. A sua pesquisa “Towards a Poetic Body: Michael Chekhov and the Psychophysiological Paradigm of Acting” resultou num mestrado avaliado com Distinção em 2001 na Exeter University (Reino Unido). O seu doutoramento explorou ainda mais os ensinamentos e técnicas de Chekhov no contexto da formação de atores profissionais na Espanha (Practice-As-Research). Ela é membro do MCE e colabora no International Training Program desta Associação. O seu projeto de investigation A Certain Sense of Reality  examina os processos de perceção e imaginação dos atores.

 

16.

Título: O ato de ser "Juntos Sozinhos": cinema lento e re-desenho da interação íntima com o conceito de Realidade

Autora: Susana Bessa, escritora

 

Com a chegada da "cultura emocional" da modernidade tardia, definir intimidade ou o que é ser íntimo está para lá de ser extenuante. Muitos são os estudiosos que há muito vêm explorando a abolição intencional da privacidade na demonstração de afetividade num domínio público. O perspicaz "Alone Together", de Sherry Turkle, é um bom exemplo. Nele Turkle questiona por que razão escolhemos eliminar as fragilidades dos nossos relacionamentos, tendo em vista capitalizar a nossa sensibilidade inata de estar emocionalmente próximos de alguém, tanto física como cognitivamente. Dito isso, em busca de um espaço emocional em que um ato espelhado de intimidade poderia ser perpetuado, olhamos para a experiência de tédio provocada pelo cinema lento, esperando que, ao revelar a crise de identidade interna induzida pelos medias sociais, possamos encontrar o nosso caminho - descobrindo a noção de realismo no centro da intimidade. Estar juntos sozinhos, em vez de sozinhos juntos.

 

Susana Bessa é escritora. Depois de concluir um bacharel em cinema, estagiou na BBC em Londres, onde obteve o seu mestrado em Film and Screen Studies no Goldsmiths College com uma dissertação que vê no cinema, enquanto ato de escavar a memória, uma definição para o conceito social de “saudade”. Os seus temas de pesquisa incluem memória, arquivo, saudade, pós-colonialismo e tempo. Ela também estuda a interseção entre meios de comunicação social e cinema, mais particularmente crítica de cinema, tema a respeito do qual apresentou um artigo na Conferência GLITS Conference - End Games in 2017: “Film Criticism in the Post-Truth Era of Emotional Capitalism: Social Media and the Eradication of the Authoritative Mediator.” Escreveu para The Rumpus, Photogénie, Mubi Notebook, entre outras publicações. Atualmente vive e trabalha em Lisboa.

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