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O corpo por vir

Ana Mira, Clara Saraiva, Gisela Casimiro, Gonçalo M. Tavares, João Tavares, Pedro Machado, Sílvia Pinto Coelho

O corpo por vir

Ana Mira, Clara Saraiva, Gisela Casimiro, Gonçalo M. Tavares, João Tavares, Pedro Machado, Sílvia Pinto Coelho

Quando o distanciamento social transcende a metáfora, tornando-se uma realidade corporal, somos inevitavelmente forçados a acostumar-nos a novas constelações de corpos e espaços. O corpo permanece uma das questões mais desafiantes da vida contemporânea, numa era de uso recorde de antidepressivos, aconselhamento nutricional e aplicações de saúde e fitness, mas também de posicionamento contra a patologização de identidades transgénero, de condenação de comportamentos baseados na raça e de eclosão da emergência pandémica.

Acompanhando o lançamento do microsite "Que Corpo Vem Aí?", onde se podem ouvir as apresentações dos oradores, convidamos todas e todos a juntarem-se a eles numa conversa online. De que forma a apreensão das diferenças e formas de vulnerabilidade dos corpos em categorias tem vindo a criar estigmas e preconceitos e a estruturar o exercício de relações de poder? Poderá a situação que expõe a fragilidade comum a todos os corpos, vulneráveis ao contágio, activar novas coreografias de solidariedade e políticas de cuidado partilhado?  

O CORPO POR VIR [conversa online]

19 MAI 2021
QUA 18:30

Ver conversa online
Sala Zoom Culturgest

Sessão com interpretação em Língua Gestual Portuguesa

Biografias e sinopses das intervenções

Ana Mira

o traço em gestos mínimos

Retive na memória a imagem de um adolescente que atava os atacadores do seu sapato, aparentemente. Digo aparentemente porque ao observá-lo reparei que ele não estava a atar nem a desatar os atacadores do seu sapato. Era um outro enlace que me reportou ao título do filme onde encontrei essa imagem: "Le Moindre Geste", Fernand Deligny (1971).

 

Ana Mira lecciona na Escola Superior de Teatro e Cinema - Instituto Politécnico de Lisboa e no Ar.Co - Centro de Arte e Comunicação Visual nas áreas do corpo, movimento e dança, e da filosofia e estética. Estudou práticas somáticas e dança contemporânea na Europa e nos Estados Unidos, e completou o seu doutoramento em Filosofia /Estética, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - Universidade NOVA de Lisboa (2014) sob orientação do filósofo José Gil, como investigadora visitante no Center for Research in Modern European Philosophy - Kingston University e bolseira da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Foi investigadora visitante no departamento de Performance Studies da Tisch School of the Arts - New York University como bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian (2007). Colabora com o grupo de investigação Arte, Crítica e Experiência Estética do Culturelab no Instituto de Filosofia da Nova (FCSH-UNL) e com centros artísticos como a Porta33 e o c.e.m. - centro em movimento. Na performance de dança, destaca a sua colaboração com os coreógrafos Pauline de Groot, Russell Dumas e Rosemary Butcher e a sua adaptação do solo “At Once” (SPCP/2009), de Deborah Hay. Tem publicado os seus ensaios de dança e filosofia internacionalmente. 

 

Clara Saraiva

Six feet under or celebrations of death?

O que é o corpo morto enquanto ícon cultural? Uma viagem de reflexão antropológica pelos múltiplos simbolismos e manipulações dos despojos humanos, desde a purificação do corpo nos Estados Unidos ao embrulhamento dos cadáveres na Guiné-Bissau, passando pelos rituais católicos do universo português. As duas imagens, a representação de uma língua humana no processo post-mortem, e um corpo embrulhado em panos, a parecer o boneco “Michelin” dos pneus, servem de mote para o debate.

Clara Saraiva (PhD 1999), é antropóloga, Investigadora do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde coordena o Grupo de Investigação Cidadania, Cosmopolitanismo Crítico, Modernidade e (Pós) colonialismo. É docente do programa de doutoramento em Antropologia da Universidade de Lisboa. Foi professora convidada na Universidade da Califórnia Berkeley e na Brown University. Foi investigadora do Instituto de Investigação Científica Tropical e do Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA), e professora convidada no Departamento de Antropologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Nos projectos de pesquisa que dirigiu abordou temas como a religião e o património, transnacionalismo religioso, conceptualizações e rituais de morte, com pesquisa de campo em Portugal, Brasil, Estados Unidos e África. É Presidente da Associação de Antropologia Portuguesa, membro da Direcção do Conselho Mundial de Associações Antropológicas e ex-vice-presidente da Society for International Ethnology and Folklore (SIEF).

 

Gisela Casimiro

Delivery - O Parto

Delivery é o termo em inglês para entrega mas também para parto. O tempo pandémico é um tempo de emergência, expectativa, espera e esperança. Numa altura em que temos de manter as distâncias mas dependemos mais do que nunca de quem não pode estar em casa, o corpo por vir é também o dos estranhos a quem confiamos a nossa comida e as nossas, as novas vidas. Uma reflexão com a barriga ao centro.

 

Gisela Casimiro (Guiné-Bissau, 1984) é uma escritora, artista e activista portuguesa. Publicou Erosão (Urutau, 2018) e fez parte de antologias como Rio das Pérolas (Ipsis Verbis, 2020), Venceremos! Discursos escolhidos de Thomas Sankara (Falas Afrikanas, 2020) e As Penélopes (Bairro dos Livros, 2021). Nos últimos anos assinou crónicas regulares no Hoje Macau, Buala e Contemporânea. Participou ainda em exposições no Armário, Zé dos Bois, Balcony e Museu Nacional de Etnologia. Dirige o departamento de Cultura do INMUNE - Instituto da Mulher Negra em Portugal.

 

Gonçalo M. Tavares

Que corpo vem aí?

Os vários corpos possíveis depois da epidemia. O corpo-Bunker. O corpo-festa, o corpo-sagrado, o corpo-ecrã, o corpo-presença. A nova presença depois da pandemia. A presença e o brilho. O depois da pandemia será o antes da pandemia ou o depois da pandemia será o depois da pandemia? Não sabemos, mas uma das respostas possíveis é um desapontamento e a outra resposta é bem perigosa. O que virá depois da pandemia? Uma grande desilusão ou um grande perigo.

 

Gonçalo M. Tavares nasceu em 1970. Desde 2001 publicou livros em diferentes géneros literários, traduzidos em mais de 50 países. É já um dos escritores de língua portuguesa mais traduzidos de sempre. Os seus livros receberam vários prémios em Portugal e no estrangeiro. Com “Jerusalém” recebeu alguns dos mais importantes prémios. Com “Aprender a rezar na Era da Técnica” recebeu o Prix du Meuilleur Livre Étranger 2010 (França), prémio anteriormente atribuído a Robert Musil, Orhan Pamuk, John Updike, Philip Roth, Gabriel García Márquez, Salman Rushdie, Elias Canetti, entre outros. Alguns outros prémios internacionais: Prémio Portugal Telecom 2007 e 2011 (Brasil), Prémio Internazionale Trieste 2008 (Itália), Prémio Belgrado 2009 (Sérvia), Grand Prix Littéraire du Web – Culture 2010 (França), Prix Littéraire Européen 2011 (França). Foi várias vezes finalista do Prix Médicis e Prix Femina. “Uma Viagem à Índia” recebeu, entre outros, o Grande Prémio de Romance e Novela APE 2011. Os seus livros deram origem, em diferentes países, a peças de teatro, dança, peças radiofónicas, curtas-metragens e objectos de artes plásticas, dança, vídeos de arte, ópera, performances, projectos de arquitectura, teses académicas, etc. – bem como a inúmeras traduções. Recebeu o prémio Vergílio Ferreira 2017 pelo conjunto da sua obra.

 

João Tavares

Corpo por Vir

Tem-me interessado, na história da esquizofrenia, a forma como a construção de conhecimento usa muitas vezes metáforas, que ficam nas entrelinhas das práticas, e que transportam através do tempo elementos diferenciados, e por vezes inesperados, desde valores a maneiras de pensar. As relações entre o sangue e a saúde mental são um exemplo disto.

 

João Tavares é formado em Medicina na Faculdade de Medicina de Lisboa, realizou o internato de especialidade em psiquiatria num dos últimos grandes asilos portugueses - o Hospital Júlio de Matos. Desde então trabalhou em psiquiatria em vários contextos diferentes, da Martinica ao Luxemburgo, e mais recentemente na unidade de alcoologia de Lisboa. Actualmente exerce no Hospital Reynaldo dos Santos - Vila Franca de Xira. Nos últimos anos tem-se dedicado à história da psiquiatria, uma história que vê não como um repositório de curiosas antiguidades mas, pelo contrário, como a construção viva do presente e do futuro. Na Universidade Nova de Lisboa, em co-tutela com o Institut des Humanités en Médecine de Lausanne, constrói a sua tese de doutoramento sobre este peculiar cruzamento entre o corpo e a mente que é a História da psicofarmacologia recente.

 

Pedro Mota Machado

A pulsão pelo infinito

Como se desdobra a consciência quando o corpo é alvo de sucessivas extensões e prolongamentos? Como vamos procurar outras formas de vida no Cosmos se estamos tão conectados com arquétipos antropocêntricos, se estamos tão treinados a reconhecer padrões pré-existentes na nossa matriz cultural?

Se por um lado, a nossa vertente racional pode aceder a um manancial cada vez mais rico de informação, o que torna seguramente exponencial o nosso modo singular e dedutivo de processar a informação, por outro lado, a interacção entre vários nodos de processamento funciona como um acelerador/amplificador do nosso processo cognitivo.

Esse modo indutivo complementar como se fora uma inteligência mais ampla, de grupo, uma inteligência de alguma forma social, como é bem patente nos grupos de investigação científica, nas tertúlias literárias... ou até na programação com recurso a redes neuronais, são maneiras de entrar em modos de consciência aumentada.

Podemos multiplicar-nos "por dentro" usando as diversas formas de sentir corpóreas e as diversas abordagens do nosso intelecto como um acelerador indutivo, algo muitas vezes denominado como inteligência emocional. Mas também nos podemos multiplicar de uma forma exterior, sendo cada um de nós, por inteiro, um elo de um modelo grupal/social de analisar problemas e aumentar a nossa compreensão do Universo.

Os perigos de se pensar sozinho, fechado na concha do eu... a solipsia..., as largas escalas de tempo em solidão podem vir a ser necessárias, mas podem ter uma componente nefasta para a exploração humana da vastidão do Cosmos... Nós precisamos do outro para podermos vir a ser mais nós próprios.

 

Pedro Mota Machado. A sua actividade principal é focada nas ciências planetárias, mais concretamente no estudo da dinâmica atmosférica dos planetas do Sistema Solar. Pedro Mota Machado é natural de Ponta Delgada (Açores) onde efectuou os seus estudos secundários. Depois de se formar em física teórica na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, completou um mestrado em Astronomia e Astrofísica na mesma universidade. Em 2013 obteve o grau de doutor, em regime de associação entre o Observatório de Paris (França) e da Universidade de Lisboa, com uma tese sobre a caracterização da dinâmica da atmosfera de Vénus. Actualmente, continua a sua pesquisa sobre a dinâmica da atmosfera de Vénus, utilizando técnicas de velocimetria Doppler e métodos de seguimento de nuvens (Cloud Tracking). Os métodos Doppler desenvolvidos e aperfeiçoados no âmbito da sua investigação estão neste momento a ser adaptados para o estudo de outros corpos do Sistema Solar: Marte, Júpiter, Saturno e Titã. A utilização e adaptação da espectroscopia de alta resolução a diversas gamas de comprimento de onda e com recurso a diversos instrumentos de grande potência observacional é um trabalho em curso. O estudo da composição atmosférica e dos seus componentes minoritários é também um dos objectivos essenciais do trabalho actual. Colabora com a missão espacial japonesa Akatsuki, fez parte da missão espacial Venus Express da Agência Espacial Europeia (ESA), e é o actual representante em Portugal do consórcio europeu relativo à missão espacial ARIEL da ESA, esta missão tem como principal objectivo a caracterização das atmosferas de exoplanetas. O seu trabalho tem sido apresentado em várias conferências internacionais e publicado em diversas revistas da especialidade de Astronomia e Astrofísica. Actualmente trabalha no Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA), afecto à Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa onde também é professor do departamento de Física.

 

Sílvia Pinto Coelho

Dançar-Pensar: Para um pensamento incorporado, ou sobre a marioneta

Corpses Don’t Dance. People do!

A palavra “corpo” tem uma complexidade que não consigo resolver. Quando dizemos “o nosso corpo” referimo-nos a um fractal de “nós”? Para imaginar “o corpo” há que desincorporar, fazer um exercício de espelhamento, de reflexão. Colocar uma imagem de corpo à nossa frente, fora de um “eu” integrado, e dirigirmo-nos a “ele” - este “meu” corpo...

 

Sílvia Pinto Coelho é coreógrafa e investigadora integrada no ICNOVA - FCSH (CEEC-FCT), onde trabalha no seu projecto pós-doutoral sobre Atenção e Pensamento Coreográfico. Dirige a revista online INTERACT com Luís Mendonça. É doutorada e mestre em Ciências da Comunicação, licenciada em Antropologia e bacharel em Dança, Frequenta o c.e.m. desde 1994, faz o CIDC do Forum Dança (Lisboa 1997-99) e frequenta a Tanzfabrik (Berlim 2002-05). Desde 1996 que coreografa e participa em processos de pesquisa, de pedagogia e em filmes com colaboradores de várias áreas artísticas, tendo apresentado peças suas em Berlim, Madrid, Lisboa e Porto.

CURADORIA
Andreia Páscoa, Joana Braga
MODERAÇÃO
Marta Rema
ORGANIZAÇÃO
efabula

 

COM A PARTICIPAÇÃO
Ana Mira, Clara Saraiva, Gisela Casimiro, Gonçalo M. Tavares, João Tavares, Pedro Machado, Sílvia Pinto Coelho

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